Caso Padre Airton: Silvia Tavares reage à absolvição e cita mais de 50 vítimas
Segundo a denunciante, muitas “têm medo de morrer", por isso silenciam; ela vai recorrer à segunda instância do TJPE
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Com o semblante abatido, personal stylist Silvia Tavares de Souza, 47 anos, quebrou o silêncio nesta terça-feira (31). A reação veio um dia após a sentença da Vara Única de Buíque, que absolveu o Padre Airton Freire e o motorista Jailson Leonardo da Silva das acusações de estupro que ela conta ter sofrido. Para Silvia, a decisão judicial contrasta com um coro de vozes invisíveis que ainda têm esperança de vê-lo condenado. "Mais de 50 pessoas já me procuraram no Instagram dizendo que só não iam denunciar com medo de morrer", revelou. (Veja matéria de Rafaella Pimentel no JT1 abaixo)
O silêncio e o medo no Sertão
Silvia reforçou que sua voz não ecoa sozinha. Mas o impacto da liberdade concedida ao sacerdote e ao motorista, trouxe tensão ao encontro com a imprensa. Enquanto a Justiça de primeiro grau apontou contradições nas provas, Silvia sustenta que o número de mulheres atingidas pelo esquema de violência é vasto e ainda subnotificado.
A personal stylist conheceu o padre numa fase de depressão, quando tentou buscar ajuda. Em 18 de agosto de 2022, segundo relatos dela na ocasião, foi chamada para ir à “casinha”, onde o religioso lhe pediu uma massagem e depois mandou que o motorista a estuprasse, tendo ficado assistindo.
A casinha de taipa
Essa casinha onde o estupro teria ocorrido, segundo outras supostas vítimas também revelaram, sob proteção do anonimato, é um lugar simples. Feita de taipa e construída num local isolado na Fazenda Malhada, onde existe um complexo da Fundação Terra.
Na época, outras vítimas também denunciaram o padre, como Silvia, mas sem revelar o nome ou mostrar o rosto. Até mesmo um homem teria sido abusado, de acordo com relatos que explodiram naquele ano.
As pessoas que fizeram as denúncias viam o padre Airton como um conselheiro espiritual e ficaram próximas dele antes de serem chamadas para a “casinha’, onde ele dormia.
A tese do "apagão" de dados
O advogado de assistência de acusação, Rafael Nunes, subiu o tom contra os fundamentos da absolvição. Ele confirmou que levará o caso ao Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) para ser julgado por um colegiado de desembargadores.
Nunes apontou que a investigação comprovou que tanto o padre como o motorista apagaram os dados de geolocalização nos celulares no período em que o crime teria ocorrido. E há outro detalhe, no entanto, que chama a atenção. O motorista ficou foragido por dois anos, tendo sido preso apenas em 2025. Tanto ele como o padre estavam presos; o religioso em prisão domiciliar.
Embate sobre a sanidade da vítima
A estratégia da defesa do padre Airton, que buscou classificar Silvia como "louca" ou com "ideias desconexas", foi duramente rebatida. "Minha cliente sabe o que diz e não é louca coisíssima nenhuma", afirmou Nunes.
O assistente de acusação reforçou que a palavra da mulher tem um peso diferenciado em crimes sexuais e assegurou que existem outras vítimas e provas de vestígios biológicos que corroboram a denúncia inicial. "Existe um contexto probatório".
O processo agora segue para a segunda instância do Tribunal de Justiça de Pernambuco sob clima de forte polarização. “Iremos recorrer. Tenho certeza que o tribunal irá reformar essa decisão. Ela hoje não vai conseguir colocar a cabeça no travesseiro e ter paz. Mas um dia ela vai conseguir ter essa paz”, acrescentou.
A defesa do padre Airton foi procurada às 13h39 e o Tribuna Online PE aguarda resposta.
Veja matéria completa de Rafaella Pimentel no JT1, apresentado por Artur Tigre
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