Globalização tupiniquim
Artigo fala sobre os efeitos da globalização e da abertura comercial sobre a indústria brasileira
Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa é desembargador ex-presidente do TJES e do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Bacharel em Direito pela UFES, é autor de obras jurídicas e idealizador de projetos inovadores como o “Botão do Pânico”, vencedor do Prêmio Innovare.
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Timidamente, manifestei minha preocupação com o grau de internacionalização da economia que o Brasil vem experimentando, trazendo a reboque uma desindustrialização bastante séria. Mas não consegui sequer terminar a frase - “veja os Estados Unidos”, disse meu interlocutor, “que hoje importam quase tudo da China e nem por isso deixaram de ter uma economia própria e pujante”.
Confesso que, naquele momento, me passou pela cabeça se não estaria eu sendo realmente um xenófobo, defensor de patriotadas ingênuas. Assim, preferi estudar mais o tema.
Em poucos minutos concluí minha pesquisa. Vamos aos resultados: é mentira - e das grossas - a ideia de que “os Estados Unidos importam muito da China”. Na verdade, apenas 2,7% dos produtos vendidos naquele país em 2010 eram chineses. Apenas 2,7%! Querem mais? Nada menos que 88,5% dos produtos consumidos naquele ano ostentavam a etiqueta “Made in USA”. Curioso, isso! Vai contra toda a propaganda que nos empurraram goela abaixo de algumas décadas para cá!
Um detalhe: mesmo os míseros 2,7% de produtos importados da China acabam dando mais lucro aos norte-americanos que aos chineses - em média, a cada dólar gasto em um produto com a etiqueta “Made in China”, 55 centavos são decorrentes de serviços produzidos nos Estados Unidos!
Diante destes números, a conclusão da economista e pesquisadora Galina Hale foi curta e grossa: “apesar de a globalização ser amplamente reconhecida nestes dias, a economia norte-americana na verdade permanece relativamente fechada”.
Pois é. Na “Pátria do Capitalismo” há globalização, “pero no mucho”. Enquanto isso, nestas paragens tupiniquins, 59% dos empresários apontam os danos decorrentes da competição dos importados. Eles tem razão: em 2005, o Brasil exportava 1,51% dos manufaturados consumidos nos EUA - no ano passado, perdemos espaço para a China e caímos para 1,26%. No México, respondíamos por 2,39% das importações - hoje caímos para 1,42%.
Enquanto exportamos menos, importamos mais: os importados chegam a representar 22,7% de tudo o que foi consumido no Brasil. Comentando este fenômeno, um técnico da FIESP declarou que “não me surpreenderia se daqui a seis meses estivermos falando em 30% de participação dos importados no consumo, o que representa mais indústrias fechadas, mais desemprego e transferência de produção para países asiáticos”.
Antevendo o desastre, os donos de nossas mais tradicionais empresas já começam a buscar o capital estrangeiro para vendê-las - da indústria de mate à de suco de frutas, passando pela de automóveis, laticínios e até de água mineral, lá se vão as empresas “Made in Brazil”.
Passada bem uma década, contemplo o meu Brasil a cada dia mais vendido. Mas, como esta verdade não é “politicamente correta”, vamos lá comprar o celular!
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