Globalização da vaidade
Relatórios estimam lucros bilionários de redes ilícitas, enquanto baixa cooperação estatal e vaidade institucional alimentam a impunidade
Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa é desembargador ex-presidente do TJES e do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Bacharel em Direito pela UFES, é autor de obras jurídicas e idealizador de projetos inovadores como o “Botão do Pânico”, vencedor do Prêmio Innovare.
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Segundo estimativas do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), a lavagem de capitais ilícitos representa anualmente entre 2% e 5% do PIB mundial. Em valores absolutos, isso equivale a um montante que varia de US$ 1,6 trilhão a US$ 4 trilhões por ano, corroendo a integridade dos sistemas financeiros globais.
Dados da Cybersecurity Ventures indicam que os custos globais atrelados ao cibercrime (incluindo roubo de dados, extorsão via ransomware e fraudes financeiras) ultrapassaram a marca de US$ 10,5 trilhões anuais, tornando-se mais lucrativo do que o comércio global de todas as drogas ilegais combinadas.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que o tráfico humano e a exploração laboral gerem lucros ilícitos superiores a US$ 150 bilhões por ano. Esse mercado nefasto capitaliza sobre as crises migratórias e a vulnerabilidade econômica global.
O comércio ilegal de madeira, a mineração clandestina, a pesca ilegal e o tráfico de vida selvagem movimentam até US$ 258 bilhões anualmente, segundo a Interpol. Esses crimes afetam diretamente países em desenvolvimento com vasta biodiversidade, como o Brasil.
O comércio ilegal de drogas representa cerca de 1% de todo o comércio global e responde por quase metade de todo o faturamento do crime organizado transnacional (que inclui tráfico de armas, de pessoas e contrabando). O faturamento anual global das redes de tráfico de drogas é estimado entre US$ 400 bilhões e US$ 650 bilhões (o que equivale a trilhões de reais).
Enquanto tudo isso acontece, estimativas de órgãos como o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e a Global Initiative Against Transnational Organized Crime sugerem que a taxa global de condenação para as mentes por trás desses esquemas multimilionários mal chega a 1% a 2% dos casos totais.
Não por acaso o Estado já perdeu, em diversas partes do mundo, a capacidade de combater o crime em nível territorial. Nesses locais, o crime organizado dita regras sociais, cobra taxas e oferece serviços, funcionando de fato como o Estado soberano daquela região. Você conhece algum lugar assim?
Por falar no Estado, o dito cujo insiste em funcionar, a nível interno e externo, quase que completamente compartimentado. Ainda vivemos na realidade da “minha informação”, da “minha jurisdição”, da “minha autoridade”, do “meu departamento” etc., com toda a burocracia e lentidão que daí decorre. Diante disso não é de espantar o tamanho da impunidade a nível global e nacional!
Que tal acordarmos para a realidade de que no mundo moderno este problema — e muitos outros — já não podem ser resolvidos de forma isolada? Que a criminalidade globalizou-se e as forças do bem ainda não? Eis aí uma verdade que salta aos olhos! E que nos fere a todos!
Após muito meditar, comecei a chegar a uma conclusão: antes de combatermos a globalização do crime devemos eliminar uma outra, infinitamente mais abjeta e resiliente: a da vaidade.
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