“Morreu sem pagar pelo que fez”, diz mãe de Thayná sobre morte de acusado
Uma mistura de dor, frustração e alívio. Era assim que a dona de casa Clemilda Aparecida de Jesus, 41, estava se sentindo na manhã de domingo (21), depois de saber que o acusado de estuprar a assassinar a filha dela, em outubro de 2017, tinha sido morto.
Ademir Lúcio Ferreira de Araújo, 57, foi morto asfixiado por um golpe conhecido como “guilhotina” dentro da cadeia, na noite de sábado (20). Ele é acusado de raptar, estuprar e matar a filha de Clemilda, a menina Thayná Andressa de Jesus Prado, de 12 anos.
A dor da dona de casa vem da sensação de impunidade: é que Ademir ainda não tinha sido julgado pela morte da adolescente. Em casa, rodeada pelas fotos da filha, ela conversou com a reportagem de A Tribuna e abriu o coração.
A TRIBUNA – O que pensou quando recebeu a notícia?
Clemilda – Me ligaram falando que ele tinha aparecido morto. É uma mistura de sentimentos, porque ao mesmo tempo em que fico aliviada, fico triste, porque ele não foi sentenciado no caso da minha filha. Ficou impune. Não só o crime contra a minha filha, mas ficou impune contra todos os outros. Ele só foi condenado por ter estuprado uma outra criança, três dias antes da minha filha.
Alguém te deu justificativas sobre a demora no julgamento?
Não. Eu implorei para o juiz fazer o julgamento do caso da minha filha, e ele dizia que estava marcando, que não conseguia advogado para o preso, que ele não poderia ir sem defesa. E nisso se passaram quase três anos. Um homem cheio de crimes, quantas vítimas ele já não fez, além das que sabemos?
A impunidade é por quê? Por que sou negra e da periferia? Para eu ser ouvida tive que gritar muito, junto com toda uma sociedade que se sensibilizou. Foram 12 dias de muito desespero, eu ia todos os dias para a delegacia, fui atrás de vídeos para provar que ela tinha desaparecido.
O que você esperava que acontecesse com ele?
Eu queria que ele fosse sentenciado primeiro. Seria justo ele sentir que ficaria preso pelo resto da vida pelo que fez com a minha filha, porque ele morreu sem pagar pelo que fez. Eu queria que ele ouvisse a sentença e queria estar lá, para olhar nos olhos dele e dizer: você vai conviver com isso todos os dias, preso. Mas, agora acabou. Eu nadei, nadei e morri na praia. Foi tudo em vão.
Essa notícia te trouxe algum alívio?
A única tranquilidade que tenho agora é saber que o que eu prometi para ele será cumprido. Eu disse que ele nunca mais faria com nenhuma outra criança o que ele fez com minha filha.
E sobre o enterro da Thayná?
Isso é algo que ainda carrego comigo. Eu corri muito atrás para encontrar minha menina. Mas, com tudo o que fiz, só encontrei os ossos dela. Esse homem tirou de mim até o direito de dar o último adeus à minha filha! Ele não me deixou nem ver pela última vez a Thayná no caixão. Me entregou só os ossos. Foi muito doloroso.
Como foram seus dias até aqui?
Minha vida está uma bagunça, desde então. Não tem um dia que alguém não me abraça na rua, que não recorda de mim e me reconhece. As pessoas me mandavam mensagem diariamente perguntando se o julgamento iria acontecer, e eu sem saber que resposta dar. Ele acabou com a minha vida, a da minha filha e de outras famílias, mas não pagou por isso.
Você acha que de alguma forma sua filha foi “vingada”?
Não. Tinha que haver uma condenação, era o mínimo. Ele morreu por outro motivo, por uma discussão dentro da cadeia, e não pelo que fez com a Thayná. Ele morreu impune. E é isso que me revolta, nunca vou conseguir ficar bem.
A casa está cheia de fotos da Thayná. É uma forma de mantê-la por perto?
Sim. Tenho fotos e guardei algumas outras coisas, como bonecas. Com o tempo fui doando para crianças que precisam, mas ainda tenho cadernos. Os que guardo com mais carinho são dois: a boneca Nina e o ursinho Ted. Eles ficam na cabeceira da minha cama e dormem comigo. Eram os preferidos da minha menina.
No início, quando desapareceu, os policiais suspeitavam que ela tinha fugido de casa. Mas nunca acreditei, ela não sairia sem levar os brinquedos favoritos dela. Então guardo comigo até hoje.
Como será agora?
Agora eu é que vou ter que conviver com isso. Palavras não são suficientes para expressar o que está passando pela minha cabeça, ainda estou um pouco confusa, acho que digerindo essa notícia. É uma mistura muito grande de alívio, dor, frustração.
Mas eu queria muito ter olhado nos olhos dele no dia do júri, para ele sentir na pele que nunca mais sairia da cadeia por causa da minha filha. Isso sim seria justiça.
Comentários