Presidente do BC paraguaio renuncia após colapso financeiro; entenda a crise
Saída de Carlos Carvallo vem após intervenção no Ueno Bank, que concentra parte de depósitos públicos e atende cerca de 3 milhões de clientes
O Banco Central do Paraguai anunciou nesta terça-feira (3) o início de um processo de intervenção no Ueno Bank, instituição que tem ligações com o presidente do país vizinho, Santiago Peña.
Peña foi investidor da holding do Ueno até março de 2025 e nomeou, em 2023, Carlos Carvallo, ex-presidente do banco, para chefiar o banco central do país.
Também nesta terça, Carvallo apresentou pedido de renúncia. "Afastar-me ajudará a acalmar a controvérsia em torno do BCP", disse, em entrevista coletiva após o anúncio.
Segundo ele, a renúncia permitirá que o Banco Central e a Superintendência de Bancos façam seu trabalho sem distrações causadas por disputas políticas e midiáticas.
A intervenção foi decretada depois que o índice de solvência do banco caiu abaixo do mínimo exigido. Segundo o Financial Times, a intervenção provavelmente resultará na liquidação das operações do banco e na transferência de seus ativos e passivos a outra instituição financeira.
Carvallo e o Banco Central estão sob pressão pela forma como supervisionaram o banco e por seus laços políticos. De acordo com o Financial Times, Carvallo havia dito anteriormente que se declararia impedido de participar de decisões envolvendo o Ueno.
Clientes ansiosos, entre eles aposentados que recebem por meio do Ueno, aglomeraram-se na manhã desta terça (3) diante de agências fechadas, enquanto aumentava a incerteza sobre o futuro do banco. "Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no Ueno Bank", disse Manuel Cáceres, de Ñemby, na periferia de Assunção. "Infelizmente, muita gente, eu inclusive, está passando a manhã assim."
O Banco Central garantirá depósitos de até o equivalente a cerca de US$ 38 mil (R$ 208,48 mil) por cliente, e afirmou que os problemas do Ueno são "um caso isolado" e "não representativo de condições generalizadas no sistema financeiro do Paraguai". A Superintendência de Bancos nomeará auditores para verificar a posição patrimonial do banco na data da resolução.
Também nesta terça, a Procuradoria do Paraguai pediu a abertura de uma investigação criminal sobre os fatos envolvendo o banco.
Fundado como fintech em 2021, o Ueno obteve rapidamente uma licença bancária e afirmava ter conquistado mais de 60% dos adultos paraguaios como clientes, mais que qualquer outro banco. Abriu dezenas de agências luxuosas e fez uma campanha de marketing onipresente, que incluiu o patrocínio da seleção nacional de futebol.
Controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, o banco tem cerca de 3 milhões de clientes. Cresceu de uma fintech local de nicho para um banco de médio porte, em trajetória semelhante à de fintechs como Monzo e Nubank.
O governo de Peña também supervisionou um aumento do dinheiro público depositado no Ueno, que chegou a mais de US$ 850 milhões (R$ 4,66 bilhões), equivalente a quase um terço dos depósitos do banco. O presidente havia minimizado repetidamente as preocupações com o banco.
Nos últimos meses, o Ueno enfrentou o escrutínio de reguladores e da imprensa por supostos empréstimos excessivos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, o que preocupou investidores e pesou sobre os títulos do banco com vencimento em 2031 e sobre os títulos soberanos do Paraguai.
Segundo o Financial Times, o banco realizou em março a maior emissão de títulos corporativos da história do país, mas as ações caíram bruscamente desde então. No mês passado, a agência Fitch revisou para negativa a perspectiva da nota de crédito de longo prazo do Ueno, citando "crescimento acelerado do balanço e altos ativos intangíveis".
O caso testa a reputação que ajudou o Paraguai a se tornar um dos destinos emergentes da América do Sul para capital estrangeiro, grande parte dele do Brasil. De acordo com o Financial Times, embora a economia do país tenha crescido rapidamente e obtido grau de investimento nos últimos anos, críticos afirmam que a corrupção e a influência política sobre o Judiciário e o mundo empresarial continuam a complicar as operações.
Senadores do bloco de oposição de esquerda disseram que abrirão processo de impeachment contra Peña e seu vice-presidente, embora o Partido Colorado, de direita, do presidente tenha maioria no Congresso e possa barrar a tentativa. Nos últimos meses, vários parlamentares já haviam pedido a demissão da cúpula do Banco Central, após rejeitarem um relatório sobre o banco que consideraram incompleto.
O gabinete de Peña e o Ueno Bank não responderam aos pedidos de resposta do Financial Times.
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