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Confronto entre chineses e indianos mata dezenas de soldados

| 16/06/2020 18:01 h | Atualizado em 16/06/2020, 19:29

O pior conflito em 51 anos entre chineses e indianos na região fronteiriça que ambos os gigantes asiáticos disputam deixou dezenas de mortos e elevou o risco de um embate militar entre as duas potências nucleares.

O governo chinês pediu contenção ao indiano, que acusa Pequim pelo confronto. Morreram, segundo o Exército indiano, no mínimo 20 soldados de Nova Déli. A China confirmou ter sofrido baixas, mas não divulgou nenhum número oficial. Segundo o jornal The Times of India, foram ao menos 43 chineses mortos.

Ninguém morria em combate na chamada Linha de Controle, região estabelecida após uma guerra vencida pelso chineses em 1962, desde 1967. Houve diversos enfrentamentos, o último deles em 2017, em pontos da linha e de outras regiões nos 3.488 km de fronteira comum.

O conflito matou até o momento, segundo o Exército indiano, no mínimo 20 soldados de Nova Déli.
O conflito matou até o momento, segundo o Exército indiano, no mínimo 20 soldados de Nova Déli. |  Foto: Reprodução/PTI

O confronto ocorreu na segunda (15) e foi primário, na base de paus e pedras, porque as tropas são orientadas a evitar ao máximo disparar armas e justificar uma escalada militar. As versões, naturalmente, são duas.

Os chineses dizem que indianos invadiram seu território na região do vale de Galwan, onde já havia ocorrido uma escaramuça sem vítimas nos dias 5 e 6 de maio. Já os indianos afirmam que se defenderam de ações chinesas.

TENSÃO

Desde o episódio do mês passado, houve diversos contatos de alto nível entre as Forças Armadas dos dois países e tudo indicava uma acomodação das tensões.

Houve um ruído há dois finais de semana, quando a China mobilizou dezenas de milhares de soldados da região de Hubei e os deslocou rapidamente para encontrar forças mecanizadas do Comando do Teatro Ocidental, que cuida também da fronteira.

O exercício foi visto como uma provocação enquanto os países faziam juras públicas de resolver diplomaticamente a questão.

Agora, o embate ocorreu em um dos pontos mais delicados em disputa, na região dos Himalaias mais conhecida pelos seu nome indiano, Ladakh. São áreas com terreno acima dos 4.000 metros de altura, e segundo a Índia, vários de seus soldados morreram de frio antes de serem resgatados feridos.

"O lado indiano violou severamente nosso consenso e atravessou a fronteira duas vezes", afirmou Zhao Lijiang porta-voz do Ministério das Relações Exteriores em Pequim.

Já o presidente do BJP, o partido do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, falou o oposto. "Houve um embate violento, e o Exército Indiano aplicou a resposta devida", escreveu J.P. Nadda no Twitter.

Segundo o jornal The Times of India, o embaixador de Nova Déli em Pequim, Vikram Misri, foi chamado para um encontro de emergência com o vice-chanceler chinês, Luo Zhaohui.

Para o editor-chefe do Global Times, jornal estatal chinês de viés bastante nacionalista, Hu Xijin, Pequim não irá divulgar suas baixas para não exacerbar a opinião pública contra os indianos. Vindo dele, em uma postagem de rede social, é sinal de as mortes foram várias.

"A China não quer um conflronto, mas também não o teme", escreveu. No momento, o comentário sugere mais uma ameaça.

ESCALADA

Com a economia mundial rumando talvez a uma depressão devido à emergência do coronavírus, não é muito factível que qualquer uma das potências deseje uma guerra. O problema é o risco de alguma escalada acidental e, também, do contexto em que a disputa está colocada.

Se os países brigam por aquela região há décadas, é verdade também que o conflito está congelado na prática desde 1962. O conflito limitado de 1967 matou 88 indianos e 340 chineses na fronteira do Sikkim com o Tibete, mas desde então as escaramuças foram pontuais

Mas agora a Índia está do lado oposto ao da China na dita Guerra Fria 2.0, travada entre Pequim e Washington.

Apesar de manter uma posição de altivez diplomática, tendo boa parte de suas Forças Armadas equipadas com material soviético e russo, Nova Déli estreitou laços com os EUA nos últimos anos.

Adversária de nascença do vizinho Paquistão, ambos separados num dos processos mais trumáticos do século 20, a partilha da Índia Britânica em 1947, Nova Déli vê com preocupação o maciço investimento chinês para criar um corredor de exportação por meio do rival.

A lógica dos indianos é que a aliança econômica possa se tornar proteção militar, ainda que o Paquistão tenha Forças Armadas bastante capazes e também possua a bomba atômica, como os dois vizinhos.

O interesse externo não é novidade. A Índia virou grande cliente de equipamento de Moscou justamente porque EUA e Reino Unido se recusaram a vender armas durante a guerra de 1962, e a União Soviética estava no auge de sua rivalidade com a também comunista China.

Com a chegada de Donald Trump e sua guerra comercial à China em 2017, que hoje se consolida como uma disputa geopolítica envolvendo da pandemia da Covid-19 à autonomia de Hong Kong, a Índia aproximou-se mais ainda de Washington.

Modi recebeu recentemente Trump com pompa, sinalizando uma aliança que ainda tem no Japão e na Austrália os outros quatro cantos de um quadrilátero apelidado de Quad - que visa conter a expansão chinesa já visível no mar do Sul da China, que Pequim considera águas territoriais e os EUA dizem conter rotas marítimas livres.

ARMAS NUCLEARES

Basta olhar no mapa para entender o sentimento chinês de que seus adversários estão se posicionando de forma a cercar estrategicamente o país, dependente da exportação pelo mar para se manter como segunda maior economia do mundo.

Foi essa lógica de cerco que levou o presidente russo Vladimir Putin, ao ver a expansão da Otan (aliança militar ocidental) a leste no pós-Guerra Fria, a disputar uma guerra na Geórgia em 2008 e a anexar a Crimeia da Ucrânia, em 2014.

Não se trata de prever o mesmo agora, mas os elementos para acidentes são diversos. Com o agravante de Índia e China têm juntas 2,8 bilhões dos 7,8 bilhões de habitantes do planeta e arsenais de armas nucleares operacionais.

Pequim tem, segundo a Federação dos Cientistas Americanos, 320 ogivas nucleares, enquanto Nova Déli tem 150. Em nenhum dos países, segundo a entidade, elas estão prontas para uso imediato, sendo necessário ativá-las e conectá-las a seu meio de emprego, mísseis ou aviões.

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