"Eu estou sem sintomas, mas carrego o vírus", diz dentista capixaba com coronavírus
"Eu estou sem sintomas, mas carrego o vírus." A afirmação é do dentista capixaba Henriky Breda Rafalski, 32 anos, que na segunda-feira (23) descobriu ter coronavírus após voltar de uma viagem à Áustria, na Europa.
Com o resultado do teste positivo, Henriky é o primeiro caso de pessoa infectada em Santa Teresa, na Região Serrana do Estado.
Ao Tribuna Online, ele conta que chegou no Brasil no dia 18 de março e logo tomou a decisão de se isolar dentro de casa. "Desde que cheguei estou em isolamento e não saí. Uma amiga da cidade faz compras pra mim desde o primeiro dia. E deixa na minha porta", disse.
Não bastasse ter que conviver com o vírus, o dentista também está sendo vítima de "fake news" na cidade. Segundo ele, há pessoas dizendo que ele não se isolou ou que foi visto no supermercado.
"Estou muito triste, pois eu tive todos os cuidados para não contaminar ninguém, sem ao menos saber que estava com o vírus ou tendo sintomas. E algumas pessoas estão inventando coisas. Falando que eu fui irresponsável. Que eu não fiz isolamento. Que me viram em supermercado. Isso está me deixando mais pra baixo do que o vírus em si. A mentira é pior que o vírus para mim.
Leia abaixo a entrevista na íntegra:
Para aonde você viajou, quando e como foram os cuidados que tomou?
Eu comprei as minhas passagens em setembro de 2019, quando ainda não se havia ouvido falar sobre o vírus. Viajei no dia 5 de março. Já sabíamos que existia um vírus na China e que estava importunando os países do Oeste europeu (Itália, França).
Sendo assim, mantive a viagem para a Áustria e Hungria, países que estavam fora da área de risco (uma vez que, não existia a ordem de isolamento), mas fiquei o tempo inteiro com álcool em gel, evitando bares fechados, evitando metrô e coisas com muita gente.
E aí?
Foi quando na última semana da viagem a coisa começou a tomar mais atenção da mídia e dos governantes da Áustria. Tanto que a viagem aconteceu normalmente, somente no último dia que teve a ordem de ficar em casa por parte do governo Austríaco. Segui o recomendado, na segunda feira não sai de dentro da hospedagem. Na terça, vim embora para o Brasil com muitos Brasileiros fugindo do vírus voltando para o Brasil.
Quando cheguei ao Brasil. Segui diretamente para minha residência e mantive 100% de isolamento. Nem o lixo da cozinha eu tirei. Pra não sair de dentro de casa. Meus amigos acompanharam todo esse processo. Mas era necessário. Eu me mantive assintomático até a sexta-feira.
Quando comecei a sentir um desconforto, temperatura em torno de 37 graus. Nada de mais. Foi quando uma agente da dengue bateu em minha porta. Eu orientei para que ela não fizesse o controle. Pois eu havia voltado da Europa há pouco tempo e estava em isolamento. Ela, então, comunicou a vigilância em saude do municipio. Que entrou em contato e veio realizar o teste. Voltei na quarta dia 18 de março e fiz o teste na sexta dia 20 de março.
Como foi sua volta para o Brasil? Estava sentindo alguma coisa, algum sintoma?
Zero sintomas. Achei que estava saudável. Mas por ter viajado para fora decidi por minha conta me isolar por 15 dias.
Sentiu algum sintoma depois?
Senti uma leve sensação de cansaço e temperatura em torno de 37,5 Cº.
Desde quando está em isolamento? Mora sozinho? Quem te ajuda?
Desde que cheguei estou em isolamento e não saí. Uma amiga da cidade faz compras pra mim desde o primeiro dia. E deixa na minha porta.
Quando descobriu que estava com o vírus, o que sentiu? Ficou preocupado ou tranquilo?
Descobri agora à noite que estou com o vírus. Estou tranquilo. Porque sei que não contaminei ninguém aqui. A sensação é de alivio. E também tranquilo por saber que meu organismo está ganhando a batalha. Já venci essa batalha. Quero que o povo brasileiro também vença. Fiquem em casa!
Só estou muito triste, pois eu tive todos os cuidados para não contaminar ninguém, sem ao menos saber que estava com o vírus ou tendo sintomas. E algumas pessoas estão inventando coisas. Falando que eu fui irresponsável. Que eu não fiz isolamento. Que me viram em supermercado. Isso está me deixando mais pra baixo do que o vírus em si. A mentira é pior que o vírus para mim.
De que forma a doença se apresenta. Está assintomático?
Gostaria de chamar a atenção para que tratem esse vírus com muita atenção. Eu estou assintomático e carrego o vírus. Será que todo mundo que viajou e está assintomático se isolou? Ou seja, muita gente pode estar espalhando o vírus por aí.
Diante disso, você acharia importante a testagem em massa na população?
Com certeza. Pois eu teoricamente. Me sinto ótimo até pra fazer exercícios. Ou seja muita gente, que se diz saudável pode estar contaminando outros.
Como é a sua rotina?
Normal. Acordo, tomo meu café da manhã, leio artigos da minha área, estudo inglês, assisto uma série, limpo o quarto. Essas coisas. Vida normal. Estou até me exercitando em casa.
Por que decidiu fazer o teste mesmo sem apresentar sintomas graves?
Eu quis fazer o teste, mesmo com sintomas leves, porque queria tirar essa dúvida. Vai que, passando esses sete dias, eu estou com esse vírus e saio espalhando.
Você sente medo?
Eu não sinto medo da doença em relação a mim, se eu vou ficar doente, se terei de ir para o hospital, porque vi que meu organismo reagiu bem à doença. Mas sinto medo em relação à pandemia. Por estar bem, eu achei que quando fosse pegar o coronavírus eu estaria doente. Ou seja, todo mundo doente com coronavírus.
Mas não. Tem gente que tem a doença e não está apresentando sintomas e está passando para os outros. Isso que me dá medo.
A mensagem que eu deixo para as pessoas é: tenham respeito ao vírus porque a gente não sabe quem está contominado. Então, todo mundo é suspeito até que se prove o contrário.
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