Uma vaca, um acidente e 80 km de tensão até o título
Campeão do Rally Sertões revela o que pensou após bater com a moto em uma árvore, fala sobre a ajuda de piloto e a conquista
A conquista inédita de Bruno Crivilin no Sertões 2026 teve emoção até os últimos quilômetros. Em sua segunda participação na principal prova de rally do País, o piloto capixaba assumiu a liderança na quarta etapa, ampliou a vantagem sobre os concorrentes e confirmou o título na classificação geral das motos.
A vitória, porém, esteve ameaçada no último estágio, quando o piloto precisou desviar de uma vaca, bateu em uma árvore e sofreu um acidente que o deixou impossibilitado de seguir sozinho. Foi então que entrou em cena o português Martim Ventura, que abriu mão da disputa pela vitória na etapa para rebocar o companheiro até a chegada. Aos 29 anos, Crivilin encerrou as oito etapasda competição em 37h10min43s e garantiu à Honda o 12º título do Sertões.
Em entrevista ao Jornal A Tribuna, o capixaba relembra o momento de tensão na última especial, fala sobre a atitude de Ventura, a evolução desde sua estreia no rally, a disputa pela liderança e o significado de conquistar pela primeira vez o título da competição. Confira.
A Tribuna - O que passou pela sua cabeça no momento do acidente na última etapa, quando teve que desviar da vaca?
Bruno Crivilin - Passou um milhão de coisas pela minha cabeça. Acho que é um sentimento muito único que eu vivi ali. Os últimos 80 quilômetros que o Martim me puxou foram realmente os mais longos da minha vida.
É difícil descrever, porque estava tudo correndo tão bem, andando num ritmo tranquilo, sem arriscar nada, porque era quase impossível tirar 20 e poucos minutos, que é o que eu tinha de vantagem.
Então, só fui rezando e, depois que eu percebi que eu realmente tinha um companheiro ali para me levar até o final, eu fui me aliviando. Mas, enquanto eu cruzei a linha, a sensação não acabou.
A Tribuna - Quando percebeu e o que sentiu quando viu que ainda seria possível terminar a prova?
Bruno Crivilin - Eu percebi, mas, ao mesmo tempo, não, porque a gente tinha um tempo de duas horas e meia para concluir a etapa de 130 km. Só que era uma especial de serra, então era difícil ser rebocado, porque a moto não embalava muito.
Tinha que subir muito, descer, mas não descia em linha reta, descia com muita curva travada. Então, a nossa média de velocidade caiu muito e eu comecei a fazer conta, olhar para o relógio. Mais ou menos, faltavam 40 minutos, mas ainda tinha 40 km para andar. Quanto a gente tinha que estar fazendo de média? Então, foi agoniante realmente até eu cruzar a linha de chegada.
A Tribuna - Martim Ventura abriu mão da disputa pela vitória para ajudá-lo. Como foi receber essa ajuda e o que esse gesto representa para você?
Bruno Crivilin - O Martim realmente ensinou para todos nós o que é ser companheiro, mostrando que, acho que além da vitória, a gente é ser humano. Ele tinha a chance de vencer o geral, e eu ainda talvez pudesse vencer a minha categoria, que é a Moto 1. Ele venceria a Moto 2 mesmo me rebocando, mas realmente se mostrou muito grandioso ali ao ter me levado.
A nossa disputa, teoricamente, foi até esse dia. A gente disputou dia após dia, e eu tinha uma vantagem considerável. Foi o que ele disse: acho que, dentro da pista, eu me mostrei mais rápido e, no final, pelo fato do que aconteceu, era injusto. Mas ele foi realmente um grande ser humano ali, e eu só tenho a agradecer.
A Tribuna - Você assumiu a liderança na quarta etapa e conseguiu administrar a vantagem até o fim. Em que momento passou a acreditar que o título era realmente possível?
Bruno Crivilin - Eu assumi a liderança do Rally no final da etapa maratona, que é uma etapa de dois dias. Porque todos os dias a gente tem apoio do mecânico: a moto, você troca pneu, troca óleo, o mecânico confere ela toda. Na etapa maratona, ela dorme em um parque fechado e não tem apoio de ninguém. Ninguém mexe na moto. Então, ela tem que fazer dois dias. A gente fez mais de mil quilômetros nesses dois dias e, no final desse dia, na quarta etapa, eu assumi a liderança do geral.
Ainda tinha o Tocha correndo, que é o atual vice-líder do Mundial de Rally e vice-campeão do Rally Dakar. Então, digamos assim, é o top-2 do mundo no Rally, e ele estava na briga. Só que, no quinto dia, ele acabou sofrendo uma queda. Eu estava abrindo o dia e estava ganhando por poucos segundos o dia, então a gente estava numa disputa muito intensa. Ele acabou sofrendo uma queda e teve que abandonar. Aí eu consegui uma vantagem um pouquinho maior para o Martim, mas ainda não tinha nada decidido.
O Rally só acaba realmente quando você chega no final e entrega a cartela, que é um papel que a gente leva quando recebe na largada, em que eles anotam o tempo da largada e o tempo da chegada.
Antes disso, você pode sentir o cheiro e pôr a mão na taça, mas o Rally é muito inesperado e tudo pode acontecer dentro dele.
A Tribuna - Esse foi apenas o seu segundo Sertões. O que mudou entre a primeira participação e a conquista do título desta edição?
Bruno Crivilin - Esse foi o meu segundo Sertões. Eu em 2023 com o programa da Honda, o Honda Head Rider, que é da Africa Twin. É uma moto big trail que a Honda tem, que anda tanto na terra quanto no asfalto muito bem. Então, eu pude ver um pouco o que era o Sertões em 2023.
Em 2024, eu fui com o meu atual chefe de equipe, fazendo apoio. Então, eu vivi de dentro o que era: o que os pilotos tinham de dúvida, o que acontecia, como é que a prova fluía. E aí, em 2025, eu migrei para o Rally. Eu saí do Enduro e passei a correr Rally. Era o meu ano de aprendizado. Eu não tinha que mostrar resultado e queria mesmo era aprender, mas, infelizmente, na quarta etapa, eu sofri uma queda muito forte e tive que sair de helicóptero. Bati a cabeça muito forte no chão e tive que abandonar a corrida.
Então, digamos que esse foi o meu primeiro Sertões completado. Mas, de um ano para o outro, eu aprendi muita coisa, absorvi muita coisa, e isso me deu um pouco de tranquilidade. Mas, ao mesmo tempo, eu sou um jovem iniciante no Rally. Tem muita coisa para aprender ainda, mas fico muito feliz em ter, no meu primeiro Sertões terminado, vencido ele na geral das motos.
A Tribuna - Como se sente e qual é o peso de conquistar seu primeiro título do Sertões e colocar novamente a Honda no topo da classificação geral?
Bruno Crivilin - Eu me sinto honrado, um sonho realizado. Realmente, o Rally dos Sertões é uma prova muito grande que eu costumo dizer que quem entende de carro ou moto, quem conhece carro e moto, sabe que existe o Rally dos Sertões. É o nosso Dakar aqui do Brasil. Fiquei realizado em vencê-la com a Honda.
Quem é ele?
- Bruno Crivilin tem 29 anos e é nascido em Aracruz (ES).
- Soma 14 títulos brasileiros de Enduro, dois títulos latino-americanos e o Campeonato Português de Enduro de 2023.
- Se sagrou campeão geral das motos do Rally Sertões 2026 pela primeira vez, em sua segunda participação na prova, pilotando pela equipe Honda Racing.
- Venceu as 4ª, 5ª e 7ª etapas e assumiu a liderança geral na quarta.
- Teve um tempo total de 37h10min43s nos oito estágios.
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