ANÁLISE | Víctor Fontes: Os erros de Ancelotti que eliminaram o Brasil da Copa
Convocação questionável, insistência em medalhões, incoerência nas substituições e um modelo de jogo incompatível explicam mais uma eliminação precoce
Pela quinta Copa do Mundo consecutiva, o Brasil foi eliminado por uma seleção da Europa e, nas últimas três, por países com pouca tradição no futebol, Bélgica, Croácia e Noruega, e com elencos medianos — assim como a geração atual da Amarelinha, diga-se. Desta vez, o principal responsável pela queda precoce tem nome e sobrenome: Carlo Ancelotti.
Os erros do técnico italiano tiveram um elo em comum: Neymar. Desde a festa organizada para anunciar a convocação, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, até a entrada do camisa 10 contra a Noruega, quando acabou atrapalhando mais do que ajudando.
Abaixo, sem parecer engenheiro de obra pronta, detalho os pontos que, ao meu ver, foram determinantes para mais um fracasso brasileiro e que já pareciam previsíveis antes mesmo de a bola rolar.
Convocação
O primeiro erro de Ancelotti começou no dia 30 de março, quando confirmou Danilo como o primeiro convocado para a Copa do Mundo, muito mais pela suposta liderança do que pela qualidade técnica. Dentro de campo, porém, esse protagonismo nunca se traduziu em desempenho.
É verdade que a Seleção Brasileira foi uma das equipes mais prejudicadas pelas lesões de peças importantes, sobretudo, Militão, Wesley, Rodrygo e Estevão. Ainda assim, algumas escolhas foram difíceis de justificar.
A começar pelos goleiros. Se o ditado diz que todo grande time começa por um grande goleiro, o Brasil iniciou a Copa devendo nesse aspecto. Embora Alisson não tenha feito um Mundial ruim, nenhum dos três convocados protagonizam defesas capazes de mudar a história de um jogo, como fizeram o norueguês Nyland e o cabo-verdiano Vozinha ao longo da competição. Fábio, talvez o maior especialista em defesas decisivas em atividade no futebol brasileiro, encerrará a carreira com a sensação de que poderia ter contribuído mais do que os nomes escolhidos por Taffarel, preparador de goleiros da CBF.
É a primeira vez na história do Brasil que três goleiros são convocados em duas Copas consecutivas e fracassam. Alisson é o único arqueiro a defender a Seleção em três Mundiais consecutivos e não se sagrar campeão.
A lateral, especialmente a direita, foi o principal calcanhar de Aquiles desta Seleção. Sem Wesley e Militão, com dois zagueiros improvisados na posição, Danilo e Ibañez, o fracasso parecia previsível. Ancelotti morreu abraçado às próprias convicções, não convocou nenhum lateral-direito de origem e pagou caro por isso. Danilo falhou no gol sofrido contra o Japão e o segundo gol da Noruega aconteceu pelo seu setor.
Pelo lado esquerdo, Douglas Santos foi uma grata surpresa e merece ser isentado de críticas. Já a convocação de Alex Sandro foi difícil de entender, principalmente diante da boa fase de Kaiki e Luciano Juba, dois jogadores que poderiam oferecer mais profundidade ofensiva e qualidade no apoio ao ataque.
E o que dizer da convocação de Neymar? O discurso de Ancelotti sempre foi o de que só levaria o camisa 10 caso ele estivesse totalmente recuperado fisicamente. No entanto, a impressão é que o treinador abriu mão dessa convicção, sucumbiu à pressão e acabou levando um jogador que, como muitos já temiam, pouco acrescentou. Lesionado até o terceiro jogo da fase de grupos, Neymar disputou apenas 37 minutos na Copa, marcou um gol, brigou com o goleiro, se emocionou após o apito final e perdeu a posse de bola 18 vezes.
Substituições
A escolha por Martinelli como titular no lugar de Lucas Paquetá foi compreensível. O atacante havia marcado o gol da vitória sobre o Japão e cumpria uma função semelhante à do meia.
Depois de um primeiro tempo equilibrado, com boas oportunidades para os dois lados, Ancelotti comprometeu a equipe com as alterações feitas na etapa final.
A primeira substituição foi compreensível. Endrick entrou no lugar de Matheus Cunha aos 13 minutos e, logo na primeira participação, desperdiçou uma grande oportunidade. Sua melhor posição é como centroavante.
Nove minutos depois, porém, Ancelotti colocou Neymar em campo, deslocou Endrick para a ponta direita e sacou Rayan, que vinha cumprindo importante papel pelo corredor. Com Vini, Neymar e Endrick juntos, o Brasil perdeu intensidade sem a bola e ficou vulnerável na marcação.
A partir daí, a Noruega passou a controlar a partida e encontrou os espaços necessários para que Haaland decidisse o jogo. Todos sabiam que ele precisaria de poucas oportunidades para marcar. E foi exatamente isso que aconteceu.
Aos 34 minutos do segundo tempo, um minuto antes do primeiro gol norueguês, Ancelotti ainda promoveu a entrada de Ederson e, de forma difícil de compreender, terminou a partida sem utilizar a quinta substituição.
Incoerências
Ao longo da Copa, Ancelotti também acumulou incoerências. Se Luiz Henrique era tratado como titular até o último amistoso preparatório, por que entrou apenas na primeira partida do Mundial?
O mesmo vale para Igor Thiago, titular na estreia e depois completamente esquecido. Não se trata de discutir a qualidade técnica dos jogadores, mas a falta de convicção nas próprias escolhas. Um treinador pode mudar de ideia ao longo da competição, mas precisa demonstrar coerência nos critérios adotados.
Fim de um ciclo
Independentemente do futuro de Ancelotti, que tem contrato até 2030, espero que esta Copa marque o encerramento do ciclo de jogadores que acumulam sucessivos fracassos com a camisa da Seleção. Alisson, Ederson, Weverton, Danilo, Marquinhos, Alex Sandro, Casemiro, Fabinho e Neymar fizeram parte de uma geração que colecionou eliminações em Copas do Mundo e Copas América.
Estilo de jogo
Ficou evidente que o modelo de jogo de Carlo Ancelotti, baseado em transições rápidas e contra-ataques, não se encaixou nas características da Seleção Brasileira. Acostumado a enfrentar adversários fechados, o Brasil viu a Noruega controlar a partida com 66% de posse de bola, contra apenas 34% da equipe brasileira. É difícil imaginar uma seleção pentacampeã aceitando um papel tão passivo em um jogo decisivo de Copa do Mundo.
O Brasil não caiu apenas porque Haaland decidiu a partida. Caiu porque repetiu erros que já se tornaram rotina: escolhas conservadoras, excesso de confiança em medalhões e pouca coragem para renovar. Carlo Ancelotti chegou cercado pela expectativa de romper esse ciclo, mas terminou reproduzindo justamente aquilo que prometia mudar. A quinta eliminação consecutiva para seleções europeias mostra que o problema vai além de uma geração. É um modelo de gestão da Seleção que insiste em olhar para o passado enquanto o futebol mundial segue em frente.
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