Risco das bets para a saúde mental cresce e acende alerta
Cresce a procura por tratamento para dependência em apostas online, com mais teleatendimentos, leitos e casos de internação psiquiátrica.
A busca por atendimento em saúde mental relacionado ao vício em apostas online, as chamadas bets, tem crescido tanto na rede pública quanto na particular. No Sistema Único de Saúde (SUS), o número de atendimentos aumentou em quase 140% nos últimos cinco anos.
Diante do aumento das demandas por suporte psicológico nas unidades de saúde, o governo federal estruturou linhas específicas de cuidado para esse transtorno, como o teleatendimento. Recentemente, o Ministério da Saúde ampliou para 100 mil teleatendimentos mensais.
A modalidade, disponível pelo aplicativo Meu SUS Digital, funciona como porta de entrada para acompanhamento em saúde mental. O paciente recebe uma escuta inicial e pode ser encaminhado para outros níveis de cuidado, conforme a gravidade do quadro.
Rede pública amplia opções de tratamento
Além da estrutura do SUS, desde janeiro deste ano o governo do Espírito Santo passou a oferecer atendimento para pessoas que sofrem com compulsão por jogos digitais e apostas esportivas.
A Rede Abraço registrou 465 atendimentos relacionados à compulsão por jogos entre janeiro e junho deste ano, segundo a Secretaria da Saúde. A maioria é formada por homens (71%), com idade entre 25 e 34 anos, perfil que hoje concentra a maior procura por ajuda.
Uma das alternativas para esses pacientes é o acompanhamento em centros de cuidado diário, como o Leviva, que permite um tratamento mais intensivo sem necessidade de internação integral.
Nesses serviços, o paciente permanece vinculado à equipe durante o dia e conta com acompanhamento integrado de psiquiatra, psicólogo e diferentes abordagens psicoterápicas, incluindo atividades e grupos terapêuticos.
Vício em bets se assemelha à dependência química
O psiquiatra Marcus Vinícius Correia, diretor técnico da unidade Green House em Guarapari, confirma que na rede privada a procura por ajuda também está aumentando, inclusive com casos de pacientes internados.
"Sob a perspectiva neurobiológica, o mecanismo de dependência das bets é semelhante ao do uso de substâncias, como o álcool, e o tratamento também compartilha de muitas semelhanças"
Segundo o especialista, as medicações para esse tipo de dependência têm potencial de ação limitado. Elas funcionam de forma mais sintomática para tratar transtornos que surgem associados ao vício, como depressão, ideação suicida decorrente de perdas financeiras e pessoais, ou o uso concomitante de substâncias.
"No caso das apostas, o trabalho em grupo pode ser particularmente importante, porque permite ao paciente reconhecer padrões de comportamento, compartilhar experiências e estratégias de enfrentamento e perceber que outras pessoas também vivenciam dificuldades semelhantes."
Tratamento: internação breve e seguimento longo
O que ele disse
Tratamento
"A internação para esses pacientes deve ser o mais breve possível, servindo apenas como uma medida de contenção aguda para afastar o indivíduo do acesso ao jogo. O tratamento propriamente dito é longo, contínuo e realizado em regime ambulatorial com o acompanhamento de psicólogo e psiquiatra, apresentando riscos de recaída semelhantes aos da dependência química."
Marcus Vinícius Correia, psiquiatra e diretor técnico da unidade Green House em Guarapari
Os números do atendimento
- 100 mil teleatendimentos mensais
- 71% dos pacientes são homens
Mulheres sofrem mais com ansiedade e depressão
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que as mulheres têm o dobro de chances de desenvolver ansiedade e depressão em comparação aos homens. Isso ocorre devido a uma combinação de hormônios, sobrecarga de trabalho e pressões sociais.
De acordo com a Organização, cerca de 4% da população mundial vive com depressão — o equivalente a aproximadamente 332 milhões de pessoas —, incluindo 5,7% dos adultos (4,6% entre homens e 6,9% entre mulheres) e 5,9% daqueles com 70 anos ou mais.
No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 estimou que 10,2% dos adultos haviam recebido diagnóstico de depressão, com prevalências de 14,7% entre mulheres e 5,1% entre homens.
Expansão de leitos femininos na Green House
Com duas unidades de internação no Espírito Santo, a Green House, rede de cuidado para transtornos psíquicos e dependência química, acaba de abrir 30 leitos femininos na clínica localizada em Guarapari.
Segundo o psiquiatra Marcus Vinícius Correia, diretor técnico da unidade Green House em Guarapari, quase todos os transtornos de saúde mental apresentam uma proporção maior no público feminino do que no masculino, e as mulheres também são as que mais procuram os serviços de atendimento.
O especialista explica que as pacientes frequentemente trazem históricos de violência física ou domiciliar, o que muitas vezes resulta em transtorno de estresse pós-traumático, além de apresentarem transtornos depressivos e ideação suicida.
O perfil das mulheres atendidas na unidade da Green House em Guarapari é predominantemente jovem, com média de idade na faixa dos 30 anos.
Internação e ambiente de cuidado
Com foco na internação psiquiátrica, a Green House oferece um ambiente voltado para a recuperação integral dos pacientes. As unidades de Guarapari e Fundão contam com profissionais experientes e uma estrutura que integra natureza e tranquilidade, proporcionando um espaço propício para o tratamento de transtornos mentais e emocionais.
A Green House foi incorporada ao grupo Viv Saúde Mental e Emocional em 2024.
Aspas
"Trazem históricos de violência física ou domiciliar, o que muitas vezes resulta em transtorno de estresse pós-traumático" Marcus Vinícius Correia, psiquiatra.
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