Raissa Ijanc se inspira no clássico “Bésame Mucho” em música inédita
Assim como as já apresentadas “Teu Silêncio” e “No Teu Mar”, a recém-lançada “Mulher, bésame” segue a estética Synth MPB
Nascida no interior de São Paulo, Raissa Ijanc escolheu Vitória para morar há 1 ano e meio. Em terras capixabas, conheceu o produtor musical André Akira, com quem produziu quatro canções que trazem uma estética chamada por ela de Synth MPB.
Assim como as já apresentadas “Teu Silêncio” e “No Teu Mar”, a recém-lançada “Mulher, bésame” carrega a tradição da Música Popular Brasileira, que ganha ar contemporâneo a partir de elementos eletrônicos.
Contudo, a nova faixa, que prepara o terreno para o lançamento de um feat com uma artista capixaba, possui uma abertura maior para o orgânico. Os trompetes foram gravados pelo pernambucano Márcio Oliveira. Já a escaleta e o teclado foram tocados por Akira.
“Ela traz o bolero e a música romântica latino-americana como novas referências, a partir do diálogo com 'Bésame Mucho' (1940), de Consuelo Velázquez. Meu bisavô era filho de espanhola e cantava muito. Gosto de pensar que, de alguma maneira, esse clássico ficou registrado na minha memória e reapareceu anos depois”, diz ao AT2.
Assim como outras músicas de seu repertório, a faixa trata do amor entre duas mulheres. “Acredito que seja minha canção mais explícita nesse sentido, porque, primeiro, a palavra 'mulher' aparece de forma direta. A letra e a melodia do refrão surgiram juntas, em um momento de descontração em casa com minha esposa”.
O clima de flerte e desejo também aparece no videoclipe gravado em São Paulo. “Foi a primeira vez que interpretei, em cena, um envolvimento romântico com outra mulher”, revela.
VEJA O CLIPE:
CONFIRA A ENTREVISTA:
AT2: “Mulher, bésame” chega após “Teu silêncio” e “No Teu Mar”. São canções que habitam o mesmo universo? Ela também passeia pela Synth MPB?
Raissa Ijanc: Sim. “Mulher, bésame” habita o mesmo universo de “Teu Silêncio” e “No Teu Mar”, principalmente porque as três canções exploram as possibilidades da produção eletrônica e de uma sonoridade que venho chamando de Synth MPB. Esse conceito surgiu, inicialmente, de uma necessidade muito concreta: como artista independente, eu não tinha recursos para produzir com uma banda ou contratar músicos para todas as etapas da gravação. Trabalhar com o produtor André Akira, construindo as faixas essencialmente de forma digital, a partir de instrumentos virtuais, sintetizadores e programação eletrônica, tornou essa produção possível.
Com o tempo, porém, o que começou como uma limitação financeira se transformou em uma escolha estética. Fui me apropriando cada vez mais desse universo e descobrindo nele possibilidades que hoje considero parte da minha identidade artística. O que busco é partir da tradição da MPB, sobretudo de sua riqueza melódica e de sua diversidade rítmica, e transportá-la para uma paisagem contemporânea, em que o eletrônico não aparece apenas como elemento de produção, mas como parte da composição e da identidade sonora. Baixos sintetizados, texturas, efeitos e ritmos construídos eletronicamente passam a ter um papel estrutural nas músicas, reduzindo a dependência dos instrumentos acústicos.
Não é a primeira vez que canta sobre o amor entre duas mulheres. Por que abordar sobre isso nas suas canções?
Acredito que a arte, de forma geral, é uma ferramenta importante de liberdade, expressão e também de enfrentamento aos preconceitos. Como mulher bissexual, casada com uma mulher, acho importante poder me reconhecer nas expressões artísticas que consumo — e talvez esse seja um dos impulsos para escrever e cantar a partir do ponto de vista de uma mulher que se relaciona com outras mulheres.
Em minhas composições, esse é um lugar de fala recorrente: o de uma mulher que vive relações afetivas com mulheres e também com homens. As relações com homens talvez apareçam de forma menos explícita, porque muitas vezes o eu-lírico feminino acaba se dirigindo a outra mulher. “Tu Me Querendo”, por exemplo, nasceu pensando em uma relação com um homem, embora isso não esteja tão evidente na letra.
Faço questão, porém, de explicitar as relações entre mulheres porque acredito que ainda é importante colocá-las em evidência para que possam ser vistas com cada vez mais naturalidade. Não se trata apenas de falar sobre uma relação entre duas mulheres, mas de permitir que essas histórias de amor, desejo e afeto também ocupem espaço na música.
Como foi o processo de gravação do videoclipe?
O videoclipe foi gravado em um bar bem mineiro chamado Ó Pro Cê Vê, em Santa Cecília, São Paulo. Desde o início, eu imaginava um boteco com uma estética bem brasileira, e, conversando com a diretora de fotografia Ana Renno, chegamos a esse lugar que acabou sendo perfeito para a atmosfera da música. Acho que dificilmente teríamos encontrado um cenário que combinasse tanto com a proposta. E agradeço muito ao Bruno Perial que abriu as portas do bar pra gente.
Preciso dizer que só tive a oportunidade de realizar esse trabalho graças ao apoio de amigos, especialmente da Ana Renno, que comprou a ideia e, junto com a diretora Beatriz de Franco, topou montar uma equipe e viabilizou a produção. Recebi esse gesto como uma demonstração enorme de amizade e também como um incentivo para acreditar no potencial da faixa.
E foi uma experiência nova para mim: foi a primeira vez que interpretei, em cena, um envolvimento romântico com outra mulher. Embora talvez não pareça, sou tímida, então fiquei um pouco travada no início. Mas estávamos entre amigos, a equipe me deixou muito à vontade e logo consegui me soltar. O clipe traduz bem essa atmosfera de flerte, desejo e brincadeira da música.
Há quanto tempo está morando no Espírito Santo? Por que a mudança? E como tem sido se adequar ao cenário local?
Estou morando em Vitória desde fevereiro de 2025. Antes, eu e minha esposa morávamos em Salvador, na Bahia, e nos mudamos para o Espírito Santo por uma questão profissional: a Gabriela foi transferida. No início, confesso que precisei de um tempo para me adaptar. Acho que o Espírito Santo tem suas particularidades e que os capixabas levam um pouco de tempo para criar vínculos e se abrir para quem chega de fora.
Hoje, porém, sinto que estou muito mais integrada e, principalmente, que fui construindo meu espaço por aqui. Foi no Espírito Santo, por exemplo, que conheci o produtor André Akira, com quem produzi quatro faixas dentro dessa estética Synth MPB. A última delas é um feat com uma cantora-compositora capixaba, que pretendo lançar ainda este ano.
Comentários