Cinebiografia de Michael Jackson é filme chapa-branca sem polêmicas
Filme estreia nos cinemas nesta quinta-feira (23)
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Algumas camadas se impõem entre "Michael", cinebiografia de Michael Jackson, o maior astro pop do século 20, e o espectador. Para vê-la como ela é, ou seja, como um filme, é necessário ter em mente suas implicações e complicações.
Em primeiro lugar, a polêmica em torno da omissão de toda e qualquer menção aos casos de pedofilia envolvendo a estrela. Foram rios de dinheiro despejados para que esse passado não viesse à tona, o que é compreensível, embora não desejável de um ponto de vista pedagógico.
Em segundo lugar, a despeito dos milhões de discos vendidos, a música e a dança do astro são de primeiríssima ordem, com passos que marcaram história e sucessos até hoje cantados -"Beat It", "Billy Jean", "Thriller", "Don't Stop 'Til You Get Enough", entre muitos outros.
Em terceiro lugar, é um filme chapa-branca. E neste caso não teria como ser diferente. Toda a família está envolvida. Até o sobrinho de Michael, Jaafar Jackson, no papel principal, contribui para a impressão de filme em família.
O diretor é o competente Antoine Fuqua, mas precisaria trabalhar nas entrelinhas se quisesse contrabandear alguma ideia subversiva. Não foi o que fez.
Convenhamos, é um fenômeno. Um artista com voz, malemolência e carisma raros. Michael Jackson só nasce um. E é como um cometa -tão especial que parece não ter como durar muito. Meio século é muito para alguém tão fora de série, no melhor dos sentidos.
Com tantas coisas boas para dizer, claro que teriam coisas ruins também. Algumas delas estão sugeridas, na incapacidade de crescer, na infantilidade que chega a irritar, na falta de jogo de cintura para lidar com o pai conforme conquistou fama e fortuna.
Talvez o elemento mais interessante nesse sentido seja a presença do segurança Bill Bray, vivido por Keilyn Durrel Jones. É ele que acompanha Michael o dia inteiro, testemunha seu sofrimento, suas angústias, as coisas não externadas.
Em muitos aspectos, "Michael" se limita a ser uma declaração de amor dos irmãos ao grande rei do pop, o ser humano incrível que se preocupa com crianças doentes e ama os animais.
E tem a música, que o fez e o formou. A maior parte de tudo. A música é a responsável por Michael Jackson ter chegado no Olimpo. E é nesse quesito que o filme tem seus maiores problemas, ainda que no fim se sustente porque, justamente, a música é muito boa. E como é uma produção familiar, ouvimos sempre as gravações originais, o que é uma maravilha.
Vamos, porém, aos problemas. Num filme desse tamanho, não faz muito sentido se preocupar tanto com a veracidade dos fatos. Mas custa informar que "Off the Wall", de 1979, não é o primeiro disco solo de Michael Jackson, como fica sugerido, mas o quinto?
E quando ele informa que já está trabalhando no álbum e que pediu umas músicas para Rod Temperton, o grande compositor inglês, custa tocar o segundo maior hit do disco, "Rock With You", tão acachapante quanto o primeiro, "Don't Stop 'Til You Get Enough"?
Obviamente não são faltas graves, mas revelam um certo descaso com a história da discografia, comum a tantas outras biografias musicais, para não dizer a todas. Não se trata de pedir didatismo, mas um pouco mais de cuidados com a história dos lançamentos.
Nesse sentido, o disco solo anterior do astro, "Forever, Michael", de 1975, tem uma das canções mais lindas de todo o repertório da família, "One Day in Your Life", também ausente do filme.
A carreira solo de Michael Jackson cresceu em paralelo com o aumento do sucesso dos Jackson 5, rebatizado mais adiante como The Jacksons. Por mais que seus discos solo recebessem mais atenção da gravadora, seu pai tirânico cuidava mais dos trabalhos dos cinco irmãos, que eram muito bons, de fato.
O filme pula todo esse caminho paralelo e preguiçosamente dá a entender que "Off the Wall" surgiu do nada, como um capricho do astro, quando na verdade ele já estava há quatro anos sem lançar nada sozinho.
O destaque vai para a época do disco "Thriller", de 1982. Vemos o cuidado com as coreografias, as filmagens dos videoclipes de "Beat It", "Thriller", a pressão de Michael Jackson e da CBS para que sejam veiculados pela MTV, que lamentavelmente ainda era segregacionista no começo dos anos 1980, a explosão do disco nas paradas.
O filme não vai muito além do sucesso. Não entra nos anos mais problemáticos, em que as constantes operações plásticas o deixam mais recluso, quando começam as acusações de pedofilia esmiuçadas em reportagens e documentários.
Assumir que é um recorte da construção do fenômeno foi um acerto nesse sentido. Para dar conta de tudo mais, seria necessário muito mais que um longa.
"Michael" nos mostra por que um garoto negro de Gary, Indiana, se tornou o maior astro do século 20. E ainda se dá ao luxo de escamotear algumas grandes canções no caminho.
MICHAEL
Avaliação Bom
Quando Estreia: nesta quinta (23), nos cinemas
Classificação: 12 anos
Elenco: Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long
Produção: Estados Unidos, 2026
Direção: Antoine Fuqua
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