Luciano Quirino: “Carreira é maratona, não corrida de 100 metros”
Com quase 40 anos de trajetória, Luciano Quirino comemora sua boa fase e dá dicas para os atores iniciantes
Vida de ator não é brincadeira, e o veterano Luciano Quirino pode provar! Com quase 40 anos de carreira, ele está na sua melhor fase: interpretou Mendonça em “Dona Beja”, pela TV Tribuna/Band; vive o vilão Pascoal em “A Nobreza do Amor”, participa de filme inspirado no caso de Elize Matsunaga e prepara o retorno aos palcos com o monólogo “Maestro Selvagem – Um Encontro com Carlos Gomes”.
Em entrevista ao AT2, Luciano confidenciou qual conselho daria aos jovens atores que sonham construir uma carreira longa como a dele.
“Estudem sempre, cultivem a curiosidade e entendam que carreira é maratona e não corrida de 100 metros. O talento é importante, mas disciplina, preparo e persistência costumam fazer a diferença ao longo do tempo”, destacou.
Aos 60 anos, Luciano colhe os frutos de seu trabalho e vive hoje uma das fases mais importantes da sua trajetória.
“Talvez uma das mais maduras e conscientes. Tenho conseguido transitar entre diferentes linguagens e personagens muito diversos, além de desenvolver projetos autorais no teatro e no audiovisual. É um momento de muita gratidão e de muita criação”, diz.
Mas ele avisa que quer mais desafios: “Quero continuar me surpreendendo. Cada personagem é um território novo e cada trabalho exige ferramentas diferentes. O dia em que eu achar que já sei tudo talvez seja o momento de parar, porque a arte vive justamente da descoberta”.
Luciano Quirino ator
“Tem sido um momento muito rico”
AT2 — Você está na TV, no streaming e prestes a voltar ao teatro. Como tem sido administrar linguagens tão diferentes ao mesmo tempo?
Luciano Quirino Tem sido um momento muito rico da minha trajetória. Cada linguagem exige um tipo de escuta, de ritmo e de presença diferentes. Transitar entre esses universos me mantém em constante estado de aprendizado e renovação artística.
Em “Dona Beja”, você interpretou um personagem marcado por conflitos. O que Mendonça tem de diferente?
Mendonça é um homem dividido entre suas ambições, seus afetos e as expectativas da sociedade ao seu redor. Ele não é movido apenas pelo certo ou pelo errado, mas pelas suas fragilidades e contradições. Isso o torna muito humano e extremamente interessante.
É difícil interpretar um personagem com conflitos?
É desafiador, mas é exatamente esse tipo de personagem que costuma atrair os atores. Os conflitos internos exigem sutileza e profundidade.
Ver atores negros em papéis que vão além de escravizados em novelas de época emociona?
Me emociona profundamente. Durante muito tempo fomos limitados a determinados lugares dentro das narrativas históricas. Ver reis, nobres, estrategistas, médicos, advogados e protagonistas negros ocupando esses espaços é resultado de muitas lutas e de muitas gerações que abriram caminhos antes de nós.
O que mais chamou sua atenção em Pascoal, de “A Nobreza do Amor”, para aceitar o papel?
O que me atraiu foi justamente o fato dele não ser um vilão óbvio. Pascoal observa muito antes de agir. Ele entende rapidamente as engrenagens do poder e sabe se mover dentro delas. Gosto de personagens que trabalham mais no silêncio e na inteligência do que na explosão emocional.
Pascoal é calculista e silencioso. Quais foram os desafios para construir esse vilão?
O maior desafio foi encontrar a medida exata da contenção. Muitas vezes o ator quer demonstrar intenções e sentimentos, mas o Pascoal exige o contrário: esconder. O exercício foi fazer com que o público percebesse o que ele pensa sem que ele precise dizer.
Acredita que os vilões costumam despertar mais interesse no público do que os heróis?
Acho que os vilões despertam curiosidade porque eles vivem impulsos e desejos que a maioria das pessoas precisa reprimir na vida real. Eles revelam contradições humanas de forma mais explícita. Talvez por isso sejam personagens tão fascinantes para quem interpreta e para quem assiste.
No filme inspirado no caso Elize Matsunaga (condenada por matar o marido em 2012), você interpreta um delegado. Como foi a preparação para viver alguém ligado a uma história real tão conhecida?
Quando trabalhamos com fatos reais existe uma responsabilidade adicional. A preparação passa por pesquisa, observação e muito respeito pelas pessoas envolvidas na história. O objetivo é buscar autenticidade sem abrir mão da construção dramática.
Ao trabalhar em produções baseadas em fatos reais, qual é o equilíbrio entre fidelidade aos acontecimentos e liberdade artística?
A fidelidade deve estar na essência dos fatos e das pessoas retratadas. A liberdade artística entra na forma como se constrói a narrativa e as relações dramáticas, sempre respeitando os limites éticos da história real.
Quais personagens considera divisores de águas na sua carreira?
Cada fase teve personagens importantes, o Laerte em “Laços de Família”, Eduardo Villaverde em “9MM São Paulo”, Arthur Bispo do Rosário, Carlos Gomes e agora Pascoal marcaram momentos decisivos da minha caminhada.
Há algum papel ou gênero que gostaria de experimentar?
Tenho muita vontade de explorar ainda mais o suspense psicológico e o cinema policial, além de personagens históricos complexos e contraditórios.
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