“Já sofri preconceito por ser nordestino”, diz Thomás Aquino
O recifense Thomás Aquino conta, ao AT2, o que enfrentou por causa do sotaque e de suas raízes. Hoje comemora o sucesso!
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Prestes a completar 40 anos de idade e 20 de carreira, Thomás Aquino tem se destacado como um dos grandes nomes da dramaturgia nacional.
O ator, que nasceu no Recife, vem emendando trabalhos elogiadíssimos, ganhou a fama de galã e ainda está no elenco de “O Agente Secreto”, indicado em quatro categorias no Oscar deste ano.
Mas tudo isso não garantiu que ele ficasse imune ao preconceito por causa de sua origem.
“Já sofri preconceito. Acredito que todo nordestino já passou por esse momento. Ainda somos vistos como inferiores na sociedade. Infelizmente, é um preconceito enraizado, que precisa ser olhado com atenção”, destacou em entrevista ao AT2.
E dá para imaginar que ele já se sentiu o “patinho feio” por não seguir o padrão da sociedade? “Recebi muitos 'nãos' em testes para comerciais. O meu sotaque não era bem visto, tinha uma estrutura xenofóbica que vai te atingindo”, lamentou.
Apesar de tudo, ele segue em frente com a garra que já nasce com o nordestino! “Meu maior sonho é conquistar o mundo, fazendo filmes em várias culturas possíveis! Mas também posso dizer que já estou vivendo esse sonho. Pelo menos, o início”, avisa Thomás, que tem uma fila de diretoras e diretores, autoras e autores querendo trabalhar com ele.
“Isso me mostra que focar no que você ama pode trazer muitas possibilidades”, ressalta o galã, que começou a carreira em 2006, na peça “O Grande Circo Místico”, adaptação de obra de Chico Buarque e Edu Lobo; se destacou em “Bacurau”, brilhou em “Guerreiros do Sol” e agitou “Vale Tudo”. Hoje está em “Coração Acelerado”.
“Não pode ser resolvido com cerveja e mesa de bar”
AT2 — Você é um dos grandes nomes da dramaturgia atualmente. Foi difícil chegar até aqui?
Thomás Aquino — Foi uma luta! (Risos). Primeiro, fico muito lisonjeado de ter esse reconhecimento como um dos grandes nomes da dramaturgia atualmente. Não é fácil. Tem que ter muito foco e muita dedicação. Abrir mão de certos momentos, como festas, aniversários, viagens. E eu agradeço, inclusive, àqueles que estiveram e ainda estão juntos comigo nessa caminhada, que torna tudo isso possível e gostoso de ser realizado.
Como se sente ao ser chamado de “o novo galã da TV”?
Eu me sinto feliz, claro. Acredito que o amor-próprio é fundamental. Se conhecer, saber o que quer, ser quem é, se identificar e manter sua identidade. Eu não tenho problemas com isso. Acho que mais importante do que o título de galã é mostrar a essência, ser uma pessoa com valores dignos de humanidade. Isso, pra mim, é ser galã.
Em seus trabalhos, seu sotaque do Nordeste é nítido. Já te pediram para “neutralizar” o sotaque para algum papel?
Com certeza, já pediram. A pergunta que me faço e acredito que nós deveríamos nos fazer é: o que é sotaque neutro? Porque temos uma musicalidade enorme no nosso País e no mundo. Mas, voltando ao Brasil, cada região tem sua identidade. E isso é tão belo, tão natural, tão orgânico, tão vivo. Por que não ver isso nas telas e fazer as pessoas se sentirem representadas? Claro que, como ator, há desafios de fazer uma pessoa totalmente diferente de si.
Posso construir um personagem com outro sotaque sem ser o meu do Nordeste, se realmente é um personagem que nasceu numa região específica, e vou adorar fazê-lo. Mas por que também não fazer aqueles que foram excluídos? Estereotipados? Acho que a balança precisa ser equilibrada.
Sofre ou já sofreu preconceito por causa de sua origem?
Acredito que todo nordestino já passou por esse momento. Ainda somos vistos como inferiores na sociedade, embora tenhamos contribuído muito para a construção do nosso País, principalmente culturalmente. Infelizmente, é um preconceito enraizado, que precisa ser olhado com atenção.
É mais difícil para um artista que vem do Nordeste se destacar ?
Acredito que, socialmente, estamos evoluindo. Ainda há muito o que se reparar, o que se equalizar. Mas as vozes estão viajando e sendo ouvidas.
Para você, qual a importância de “O Agente Secreto” para o cinema nacional e o mundial?
Além de mostrar para o mundo que o Brasil tem qualidade e sabe fazer cinema, falar e debater sobre um assunto que uma parte da sociedade ainda não abriu os olhos para ver, ou quer deixar como um assunto esquecido.
Eu aprendi que quanto mais falamos do que nos incomoda, mas nos tratamos e aprendemos a lidar com o incômodo. O mesmo se ocorre socialmente.
Não podemos deixar que algo como ditadura ou machismo seja resolvido com cerveja e mesa de bar. Isso é camuflar o incômodo. E, claro, não posso deixar de dizer o quão importante é ter um filme nosso, nacional, viajando o mundo, o quanto isso influencia e dá mais forças e esperanças para nós, artistas, querermos ser os próximos a estar numa produção como esta. É possível.
Apesar de “O Agente Secreto” não ter levado o Oscar, acredita que é um bom momento para o cinema nacional?
Chegamos num momento incrível para o nosso cinema, onde, mais uma vez, em um ano seguido, concorremos a grandes premiações internacionais. Eu diria que ganhamos o prêmio por estarmos sendo vistos pelo mundo! Isso é mágico.
Imaginou algum dia estar em uma produção indicada ao Oscar?
Sempre sonhei! Mas, mesmo estando, ainda é difícil acreditar. Isso só me desperta que o céu, realmente, é o limite.
O que acha que chamou a atenção dos críticos e da academia em “O Agente Secreto”?
A obra, como um todo. A composição do elenco, o figurino, a fotografia, a direção de arte, a temática, a direção, tudo! A naturalidade de contar um filme com momentos de emoção, ação e suspense.
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