“Estou conseguindo me desvencilhar do supergalã”, diz Reynaldo Gianecchini
Ator conta ao AT2 como seus trabalhos têm revelado sua maturidade e fala sobre “Um Dia Muito Especial”
Desde quando estreou nas telinhas, como o charmoso Edu de “Laços de Família” (2000), o paulista Reynaldo Gianecchini arranca suspiros do público.
Visto por muitos como um eterno galã, o ator chega aos 53 anos sem deixar que esse rótulo o defina, e seus papeis mais recentes no teatro são exemplos da sua versatilidade.
Após o musical “Priscilla, a Rainha do Deserto”, em que dá vida a uma drag queen, ele tem interpretado um homem recém-demitido por ser homossexual no drama “Um Dia Muito Especial”.
“Com a maturidade, estou conseguindo me desvencilhar do supergalã, e as pessoas conseguem enxergar mais o trabalho do que esse rótulo. Ao longo da carreira, fiz trabalhos que me desafiaram em outro lugar. Eu jamais me acomodaria”, afirma Gianecchini ao AT2.
A sensibilidade e a coragem silenciosa de Gabriele, seu personagem em “Um Dia Muito Especial”, poderá ser conferida pelo público do Estado em setembro, quando a peça estrelada por ele e Maria Casadevall fica em cartaz no Teatro da Ufes.
“Estou amando rodar por esse Brasilzão para contar essa história ambientada numa Itália fascista e com temas pertinentes”, diz.
Reynaldo Gianecchini ator
“Nesse mundo polarizado, ninguém para pra tentar acolher”
AT2 — O que faz de “Um Dia Muito Especial”, uma peça ambientada em 1938, atual?
Reynaldo Gianecchini — A maior questão da peça é falar sobre empatia radical. Hoje em dia, nesse mundo polarizado, ninguém para pra se ouvir, pra tentar acolher ou pelo menos entender o olhar do outro. E, quando a gente faz isso, como esses personagens fazem, você ganha uma grande oportunidade de se transformar, de rever, de mudar muita coisa.
Mas a peça fala de muitos assuntos importantes, como a condição da mulher invisibilizada e do homem gay numa Itália fascista, e essas ideias do fascismo ainda insistem em voltar. O mais legal é que a peça fala de tudo isso de uma forma leve. A gente canta e dança, mas não é musical.
Qual é a emoção de trazer essa peça ao Espírito Santo?
Estou feliz demais! Desde a primeira vez que fui aí, com uma peça também, fiquei apaixonado e com vontade de descobrir mais desse estado lindo. Espero, desta vez, poder conhecer mais.
Não é a primeira vez que a Itália atravessa sua trajetória. Já viveu imigrante italiano, gravou cenas de novela no país e agora estrela peça ambientada no território italiano. É uma forma de reencontrar sua própria história?
A Itália sempre me atravessa, de fato. De uma forma, ela me chama. Sempre tenho muito trabalho lá, quase todo ano. Acabei de tirar minha cidadania italiana e fui viver um pouco lá. Inclusive, quando recebi o convite pra fazer essa peça, eu estava lá, já muito imerso na cultura deles.
Essa peça é em cima de um filme italiano, com Marcello Mastroianni e Sofia Loren, e eu tinha acabado de reassistir. Estava apaixonado pela biografia desses dois atores, quando me chamaram. Eu achei de uma sincronicidade muito louca, e aceitei.
Mas a Itália me faz entender as minhas raízes. Toda vez que vou pra lá entendo muito de onde eu vim e tenho muito amor pela minha história e a dos italianos. Então é muito legal poder trazer um pouco dela pro Brasil.
O Marcello Mastroianni é uma referência?
Sim. Acho as escolhas que ele fez na carreira muito boas, então, fazer essa escolha de montar essa peça no Brasil, foi de um lugar muito pensado e acreditando muito em como eu posso crescer como ator fazendo ela.
Topar fazer essa peça tem a ver com os temas abordados e a sua relação com a Itália?
Acho que a história dela é muito importante ainda nos dias de hoje. A gente fala da luta da mulher, a luta do homem gay, tem o pano de fundo do fascismo...
A gente já conquistou bastante conhecimento sobre essas causas de tanto sofrimento ao longo da história. Mas é importante saber o que ainda precisa andar nessas pautas e trazer mais luz sobre esses temas pra que a gente possa viver numa sociedade melhor. A estrutura da peça faz isso muito bem.
Aos 53 anos, acredita que encontrou sua própria liberdade?
No meu caso, foi muito depois dos 40 anos, após quase passar por uma experiência radical de quase morte. Ali, eu repensei muito tudo. Essa vida é um sopro, então não faz sentido não viver de acordo com os nossos desejos. Foi a partir daí que fui conquistando esse espaço de não negociar quem eu sou de verdade de jeito nenhum.
Isso é uma forma muito potente de se viver, né? E, por incrível que pareça, as pessoas preferem abdicar disso em nome de várias outras coisas ao longo da vida, né? Mas com a maturidade a gente repensa as coisas.
O que te impediu de viver essa liberdade plena?
O que sempre te impede de ser totalmente livre é o medo. O medo de não ser amado, de não ser validado nessa sociedade onde tudo se julga e não tem espaço para os diferentes. É sempre uma luta até você entender que você pode quebrar com todos esses padrões.
“Um Dia Muito Especial” chega na sua vida após o sucesso de “Priscilla, a Rainha do Deserto”. O que aprendeu com a peça anterior e que traz para a atual?
Esses dois espetáculos foram muito importantes pra eu estar em contato com a minha coragem. No “Priscilla”, no caso, era a coragem de fazer um musical, que não é minha área, e ser drag queen. Nesse de agora, assim como no anterior, abordo temas importantes e que, muitas vezes, vão enfrentar resistência.
Desde o pós-pandemia, as minhas escolhas têm muito a ver com o que eu quero falar, com as minhas lutas pessoais também de aprendizado e de abrir os horizontes, e isso tem muito a ver com coragem.
“Priscilla” foi um marco na minha vida. A partir dali eu comecei a ter muita coragem pra também bancar os meus projetos porque não é fácil fazer teatro no Brasil.
Eu, como produtor dessa peça, estou entendendo isso cada vez mais, de como você precisa ter amor e coragem mesmo de bancar os projetos num país onde nem sempre é fácil fazer cultura.
A arte é a arma mais poderosa para vencer o preconceito e o autoritarismo?
A arte é a melhor forma da gente trazer luz sobre esses temas, porque a arte é mostrada pelo lado humano. Todo mundo se identifica e se emociona de alguma forma, porque o ser humano ele é muito parecido, independentemente de tudo. A arte não precisa ser agressiva ou panfletária nesse lugar de impor temas com violência ou na marra. Ela faz isso através da sutileza do olhar humano e isso é muito legal.
Como foi construir essa história ao lado de Maria Casadevall, atriz com quem até então você não tinha trabalho?
Tem sido demais trabalhar com a Maria. Ela é uma parceirona, uma atriz e mulher muito interessante. A gente troca muita ideia! Aprendo bastante com a Maria porque ela tem um olhar muito lindo sobre as questões humanas. A gente encontrou um território muito fértil e seguro para falar também das nossas vulnerabilidades e emprestar para os personagens com muita vontade de transbordar no palco.
Sua última mudança de visual dividiu opiniões na internet. Como recebeu esses comentários?
Foi uma loucura a repercussão que essa mudança de visual teve. Eu dou sempre uma olhada na internet, com um olhar muito curioso, mas não fico prestando atenção exatamente se gostaram ou não, porque não quero depender de nenhum tipo de aprovação para nada.
Pretende voltar ao grisalho?
Eu gosto de mudar muito, principalmente por função dos meus personagens. Acho uma bela desculpa, porque na vida também gosto de mudar. Foi uma mudança motivada por um personagem para filme.
O que pode falar sobre esse novo papel nos cinemas?
É um filme dirigido por Anita Barbosa. Um thriller com uma história que estou bastante apaixonado e que fala sobre saúde mental. Não sei se posso falar muito mais.
Está solteiro. Sente vontade de se apaixonar novamente?
Gosto muito da minha vida de solteiro, não tenho essa eterna carência de precisar estar com alguém. Mas é muito bom se apaixonar e estou sempre aberto. Acho lindo quando você vive uma história de amor, uma conexão profunda e uma relação com maturidade. Mas enquanto isso não acontece, eu vou ficando muito bem na minha vida de solteiro.
Qual é o espaço que a TV ocupa hoje na sua carreira?
Eu sempre fiz teatro. Sempre intercalava uma novela e uma peça. O cinema foi o que eu menos fiz e agora realmente tenho muito mais vontade de fazer. Eu só não tenho mais vontade de fazer novela porque o esquema todo de fazer esse tipo de produção, que eu fiz durante 20 anos, pra mim não faz muito mais sentido. Não tenho vontade mais. Gosto de fazer projetos menores, contados com um outro tipo de narrativa. Hoje em dia temos o streaming, então tenho muito mais vontade de ir por esse caminho.
Serviço
“Um Dia Muito Especial”
- O quê: Drama com Reynaldo Gianecchini e Maria Casadevall.
- Quando: Dias 5 e 6 de setembro. Sábado, às 20 horas, e domingo, às 19 horas.
- Ingresso: A partir de R$ 25 (meia)
- Venda: Site sympla.com.br
- Classificação: 12 anos.
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