Como funciona o Retiro dos Artistas, abrigo famosos em situação de vulnerabilidade
Instituição estimula a retomada de atividades por meio de parcerias culturais e projetos profissionais
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Vira e mexe ele está na mídia. Seja por receber algum novo morador célebre ou por causa de alguma polêmica relacionada a quem já habita o local há algum tempo, o Retiro dos Artistas é velho conhecido de quem acompanha o noticiário de celebridades.
Mas como ele surgiu? Quem pode pleitear uma vaga por lá? E como vivem os moradores que vivem atualmente na instituição centenária?
Em 1918, quando o Brasil ainda não tinha previdência social, um grupo de artistas se reuniu no Rio de Janeiro para fundar uma instituição que cuidasse dos seus. Hoje, o Retiro dos Artistas continua sendo o único lugar do país a oferecer moradia, assistência médica e amparo a artistas idosos em situação de vulnerabilidade.
Localizado em Jacarepaguá, na zona oeste da cidade, o Retiro ocupa 15 mil metros quadrados de área com refeitório, teatro, cinema, biblioteca, piscina e salão de beleza, entre outros equipamentos. Nas varandas, atores, músicos, cantores, figurinistas e artistas circenses dividem o cotidiano de uma comunidade que, desde que foi fundada, já acolheu mais de 6 mil pessoas.
A maioria dos residentes chega por indicação de amigos ou familiares, mas o Retiro também busca ativamente quem precisa. Foi o caso do ator Marcos Oliveira, 69, conhecido pelo personagem Beiçola em "A Grande Família".
Oliveira foi convidado a se mudar para a instituição em abril de 2025, após enfrentar problemas de saúde e financeiros. A mudança aconteceu depois de ele declinar dois convites anteriores, em 2022 e em 2023.
A resistência, segundo Cida Cabral, diretora da instituição, não é incomum. Por muito tempo, o Retiro carregou o estigma de ser "o fim da linha", e muitos artistas hesitavam em aceitar a oferta. "Muitos acreditavam que viriam para cá para morrer", conta ela. Na prática, porém, é lá que muitos voltaram a criar.
O cantor Pedro Paulo Castro Neves, 73, passou 31 anos na França antes de adoecer e voltar ao Brasil. Chegou ao Retiro debilitado, indicado por amigos, sem saber muito bem o que esperar. O que encontrou foi fôlego para voltar ao trabalho. Hoje, prepara um recital e planeja ministrar um curso de canto.
Já a atriz Sônia Zagury, 91, chegou há dois anos. A pandemia e a solidão a deixaram perto de uma depressão. Amigos a convenceram a tentar uma vaga no Retiro. "Falei: será que vão me aceitar? Estou muito velha", lembra. Aceitaram. "Voltei para a minha arte. Estou felicíssima".
Parte desse estímulo vem de fora dos muros do Retiro. A instituição mantém parcerias com empresas e organizações culturais que levam os moradores a espetáculos, shows e encontros artísticos, que, às vezes, trazem oportunidades de trabalho.
Em 2024, a Netflix passou a recrutar moradores do Retiro para trabalhos de dublagem. A aposta veio para suprir a demanda por vozes para personagens idosos em filmes e séries. O projeto começou de forma discreta, num estúdio na Barra da Tijuca, também na zona oeste.
Após resultados positivos, a empresa instalou uma estrutura fixa dentro do próprio Retiro. Hoje, quatro moradores participam do processo de formação, que inclui treinamento técnico e adaptação à linguagem da dublagem.
Cida, diretora, também cita o Sesc Rio como grande parceiro da instituição. Em 2024, o Retiro passou a integrar a rede como um centro cultural, o que ampliou a programação oferecida aos moradores com oficinas, teatro, atividades de lazer, viagens e passeios.
"Do ponto de vista cultural, eu voltei a ser sacudido e estou com vontade de fazer ainda muita coisa", conta Osvaldo Sargentelli Filho, 80, diretor de comerciais. "Mesmo na minha idade."
O Sesc também instalou uma unidade móvel de atendimento odontológico e um ponto de distribuição de alimentos do programa Mesa Brasil, que conecta doadores de alimentos a entidades e beneficia tanto os residentes quanto a comunidade do entorno.
Para morar em uma das 58 casas do Retiro, é preciso comprovar atuação na área artística. Os critérios de seleção são socioeconômicos e priorizam quem está em maior situação de vulnerabilidade, sem renda, família ou rede de apoio. O processo passa por uma equipe multidisciplinar.
Como o espaço é o único do gênero no país, há fila de espera. Hoje, oito pessoas aguardam por uma vaga -número bem menor do que o registrado em outros momentos da história da instituição.
Um dos fatores que ajudou a reduzir a fila foi a ampliação da capacidade de acolhimento. No ano passado, a atriz Marieta Severo financiou a construção de mais oito casas, que ficaram prontas em janeiro deste ano.
Manter a estrutura funcionando custa cerca de R$ 300 mil por mês, verba arrecadada majoritariamente por meio de doações. Além da gestão administrativa, o Retiro mantém um quadro de funcionários de 40 pessoas.
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