Capixaba Nick Cruz canta o amor
Em tempos de ódio, o cantor capixaba Nick Cruz, 22, celebra o amor. Até mesmo quando o ato de amar dói.
“Quero escrever não só sobre o amor romantizado, mas o real”, diz ele, que acaba de lançar seu 1º single pela Warner Music, “Até de Manhã”, falando sobre relacionamentos passageiros e instáveis.
Tal escolha deve-se ao fato de que o artista já viveu os dissabores desse sentimento e, como homem trans, teve de enfrentar o preconceito para ter a liberdade de conjugar o verbo “amar”.
“Nós, transgêneros, sofremos bastante com as relações efêmeras. Ora não somos assumidos pelos nossos parceiros, ora somos vistos como uma 'cota' para o outro matar o seu desejo e a sua curiosidade. Então, é isso que eu trago na minha música. Não é só um sofrimento por um amor líquido. Escrevo sobre essa solidão trans que temos que lidar desde pequeno”, observa.
Seu novo single, composto com o trio Pablo Bispo, Ruxell e Sérgio Santos – que já trabalhou com Iza, Anitta e Pabllo Vittar –, chega pouco mais de um ano após “Me Sinto Bem”, cujo clipe ultrapassou 1 milhão de visualizações no YouTube.
Nesse meio tempo, muita coisa aconteceu na vida do artista, que mistura pop, funk e hip hop. Ele assinou com a Warner Music, por intermédio de Bruno Caliman, baiano que mora no Espírito Santo e que compôs hits românticos de Luan Santana e Dilsinho, e se apresentou no estande da gravadora no último Rock in Rio.
“Foi uma das coisas mais incríveis da minha vida. Lembro que, antes disso acontecer, recebi muitas críticas da minha família por acharem que estava perdido. Então, quando liguei para dar a notícia de que cantaria no festival, tirei um peso imenso das minhas costas. Foi um sinal de que realmente as coisas iriam dar certo. E está dando até agora”, diz ele, que é natural da Serra, mas hoje vive no Rio.
Contrariando o que alguns familiares achavam, Nick já demonstrava saber aonde queria chegar aos 9 anos, quando cantava de Tim Maia a Sandy e Junior no karaokê, junto de sua mãe, Rosângela, e do irmão mais velho, Jeorge.
“Na época, vendia aqueles DVDs com microfone e que te davam até nota depois de cantar. A gente se divertia muito! E, como eu era muito criança, não entendia isso como algo profissional. Mas, com certeza, foi essencial para saber que cantar é o que mais me deixa feliz”, afirma ele, que, aos 15 anos, saiu de casa em busca de sua independência.
Nick Cruz | Cantor e compositor “Tudo o que é bom prevalece”
AT2: Saiu de casa aos 15 anos. Foi difícil chegar até aqui?
Nick Cruz: Foi muito difícil, porque não tinha dinheiro, então sempre trabalhava de bico. Fui garçom, pintor, servente de pedreiro, assistente de elétrica... tudo o que você pode imaginar. Passei perrengue de comida e aluguel.
A gente sai de casa achando que vai ser maneiro, mas, com 15 anos, a gente sonha muito, né? Fora as relações que eu tentava construir, mas a família da outra pessoa nunca aceitava o nosso namoro.
Como se deu o contrato com a Warner Music?
Foi muito inesperado. Quando ainda morava em Vitória, fui à casa de Bruno Caliman para pegar o cartão de memória de um amigo meu – o Edu Donna. Ele produziu a minha música “Me Sinto Bem” e estava prestando um serviço de audiovisual para o Bruno.
Chegando lá, trocamos uma ideia, mostrei as minhas músicas e, como Bruno é uma pessoa de influência, ele já ligou para pessoas no Rio para falar do meu trabalho. Viemos para cá para ver quem poderia apoiar o meu trabalho, até que chegamos no Sergio Affonso, da Warner Music.
Como é essa parceria entre você e o Bruno?
Ele é fundamental na minha carreira. Ele tem me ajudado em tudo, em todo o tipo de estrutura que eu preciso para dar o meu máximo nesta nova etapa.
Teve um período em que o Bruno disponibilizou um apartamento para eu ficar, e foi inspirador. Ele recebia muitas pessoas para conversar, compor... Uma delas foi o Gustavo Mioto.
É um homem trans que tem realizado seus sonhos. Há um significado maior por trás dessa conquista?
Com certeza! Realizar o meu sonho dentro do país em que mais se mata LGBTs no mundo não é qualquer coisa. Nós passamos por uma solidão muito grande até nos assumirmos trans. Achar pessoas que te abraçam e que apoiam o mesmo sonho é muito importante.
Como foi o processo de transição de gênero?
O começo foi muito delicado, porque eu não tinha estrutura nenhuma. Estou começando a ter agora. É muito complexo, mexe muito com a cabeça da gente. E, quando você é uma pessoa sozinha, não tem apoio, não tem amigos para te compreender e conversar. É difícil descobrir isso tudo sozinho.
Ser um homem trans no Brasil me dá medo de perseguição, de violência... É uma luta diária encarar o preconceito e o olhar das pessoas. Ainda mais agora, que estou lançando a minha música. Tenho trabalhado muito a minha cabeça para lidar com isso. Mas acho que tudo o que é bom prevalece. Pouco a pouco, vou construindo o meu espaço e o meu respeito.
Crê que artistas LGBTQIA+ têm uma tarefa importante na luta contra o preconceito? E quer levantar a bandeira da diversidade com o seu trabalho?
Ah, sem dúvida! O meu corpo é esse em qualquer situação – seja no trabalho ou no lazer. Então, não posso esconder a minha bandeira e a minha luta. Quero que o público entenda que o transexual pode e deve escrever sobre relacionamentos da mesma maneira que uma pessoa cisgênero. E esse é o papel dos artistas LGBTQIA+. Também choramos e sofremos por amor. Então, precisamos colocar para fora o que sentimos e mostrar o nosso ponto de vista nas músicas. Às vezes é doloroso, mas nós também lutamos contra o preconceito mostrando o nosso lado mais vulnerável.
Comentários