A sociedade que produzimos sem querer
Viver em sociedade é viver no limite entre aquilo que esperamos dos outros e aquilo que aceitamos de nós mesmos
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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Quanto da liberdade que reivindicamos estamos dispostos a reconhecer nos outros?
Desaprovamos uma conduta e, ainda assim, nos sentimos prejudicados por não a adotar. Quando passamos a reproduzi-la, ajudamos a consolidar a regra informal que, depois, todos lamentamos.
A sociedade possui uma realidade própria, que ultrapassa a simples soma dos indivíduos. Nascemos em um mundo onde já existem regras, costumes, instituições e maneiras de agir que influenciam nossas escolhas. Ao mesmo tempo, nossas ações ajudam a preservar ou modificar aquilo que encontramos.
Desejamos uma sociedade com determinadas características e, mesmo sem perceber, reproduzimos as condições que impedem sua realização.
Ninguém precisa nos proibir de discordar. Basta percebermos que determinadas opiniões produzem constrangimento, afastamento ou perda de oportunidades. Aos poucos, aprendemos quais assuntos evitar, quais comportamentos serão bem recebidos e o que podemos dizer sem colocar nossas relações em risco.
A confusão entre aceitação e concordância nos faz viver cercados de consensos que ninguém chegou a construir. Evitamos o contraditório e passamos a acreditar que nossa opinião é minoritária, mesmo quando outros compartilham a mesma dúvida. O silêncio de uns reforça o silêncio dos outros. E silenciamos para pertencer. Com o tempo, passamos a exigir dos outros o mesmo comportamento que aprendemos a adotar. E, nesse processo, confundimos o respeito às individualidades com a simples aceitação de comportamentos socialmente esperados.
A sociedade que torna nossa liberdade possível também pode estabelecer os mecanismos que a restringem. Ajudamos a criar o que nos condiciona. As expectativas coletivas também influenciam aquilo que consideramos aceitável fazer, inclusive quando nossas escolhas impõem custos aos outros.
O incentivo individual entra em conflito com o interesse coletivo quando os benefícios de uma escolha ficam com quem a faz, enquanto seus custos são divididos entre outras pessoas. É o que acontece com a ocupação irregular de uma calçada. A conveniência pertence a quem estaciona; o obstáculo, a quem precisa passar.
O desrespeito reiterado às regras altera nossas expectativas sobre o comportamento dos demais. Quem antes respeitava uma fila pode passar a acreditar que será prejudicado se continuar respeitando. A desconfiança modifica comportamentos, e esses comportamentos alimentam novas razões para desconfiar.
Nem todos dispõem das mesmas condições para escolher. A renda, o acesso a serviços, a infraestrutura e as oportunidades limitam as alternativas disponíveis. Seria equivocado atribuir os problemas coletivos apenas às atitudes individuais. Também seria insuficiente imaginar que uma mudança nas estruturas dispensaria qualquer transformação na maneira como convivemos.
Viver em sociedade é viver no limite entre aquilo que esperamos dos outros e aquilo que aceitamos de nós mesmos. É possível que muitos dos resultados que lamentamos sejam produzidos diariamente por pessoas que, individualmente, desejam algo diferente. Inclusive nós.
Então, quanto daquilo que fazemos resulta de nossas próprias convicções e quanto decorre das expectativas que os outros impõem sobre nós?
Boa eleição!
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PÁGINA DO AUTOREntre Prateleiras
Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.