Empresas precisam contratar 50 mil, mas candidatos não têm qualificação
Escassez de mão de obra no Estado tem causado dificuldade a empresas, que têm mantido oportunidades abertas por meses
A escassez de mão de obra qualificada no Espírito Santo tem feito empresas de diversos segmentos relatarem dificuldade para preencher oportunidades de emprego.
Empresários e especialistas em RH que atuam no Espírito Santo relatam que há cerca de 50 mil vagas em aberto no Estado que não são preenchidas por falta de mão de obra qualificada.
Gisélia Freitas, psicóloga e diretora de Liderança, Cultura e Diversidade do Ibef-ES, relata que a dificuldade não é exceção de uma empresa ou outra, mas se tornou regra no mercado de trabalho atual.
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Ela conta que atende empresas de setores da indústria, serviços, hotelaria e comércio exterior no Estado e que o cenário está ocorrendo em praticamente todos os processos seletivos, que segundo ela estão mais longos e mais difíceis.
“Tem posições que ficam abertas por meses porque os candidatos chegam sem a qualificação técnica ou sem as competências comportamentais que a função exige”.
Gisélia avalia que as empresas, atualmente, não buscam apenas diploma, e que características como adaptabilidade, comunicação, pensamento crítico e capacidade de trabalhar com tecnologia e inteligência artificial deveriam estar sendo desenvolvidas ainda no ambiente acadêmico.
“E as empresas também precisam fazer a sua parte: precisam assumir o protagonismo na formação de seus talentos e ter um olhar sério para a retenção de profissionais. Não adianta atrair alguém se ela vai embora em seis meses”.
Um exemplo dessa realidade está no setor de supermercados. Segundo a Associação Capixaba de Supermercados (Acaps), cerca de 6 mil vagas no segmento estão abertas e não são preenchidas por falta de mão de obra para preenchê-las.
CEO da Qualisaude, Flavio Cirilo avalia que o cenário se tornou mais evidente por a taxa de desemprego no Estado estar atingindo mínimas históricas – atualmente, está a 3,2%, segundo dados recentes da PNA Contínua do IBGE.
Segundo Cirilo, o fato de o mercado estar próximo do pleno emprego faz com que o foco das empresas mude de uma simples geração de vagas para a capacidade de encontrar – e também manter – bons trabalhadores.
“As empresas estão cada vez mais adotando uma postura de tentar reter talentos que correspondem ao nível de serviço que elas procuram”.
Saiba mais
Desemprego em baixa criou escassez de mão de obra
O Espírito Santo vive um cenário próximo ao pleno emprego atualmente: sua taxa de profissionais desempregados fechou o primeiro trimestre de 2026 em 3,2%, a terceira menor do País e abaixo da média nacional de 6,1%.
Se o dado é positivo por um lado, por outro, segundo economistas e empresários, acabou criando um efeito colateral: a dificuldade das empresas em encontrar mão de obra para preencher a demanda de profissionais que possuem atualmente.
Isso ocorre porque, apesar de haver mais pessoas desocupadas do que vagas abertas, nem toda pessoa desocupada está no município onde a vaga existe ou tem qualificação profissional para atuar naquelas vagas.
Isso significa que em torno de 66 mil pessoas no Espírito Santo estão desocupadas.
Problema é generalizado
Uma pesquisa do ManpowerGroup de 2026 mostra que 80% dos empregadores brasileiros têm dificuldade para contratar, bem acima da média mundial de 72%, e esse número está estável há quatro anos.
“Não é crise passageira, é problema estrutural mesmo. Aqui no Espírito Santo, um estudo da Findes mostrou que a falta ou o alto custo do trabalhador qualificado voltou a liderar o ranking de desafios da indústria capixaba no primeiro trimestre de 2026”, afirma Gisélia Freitas, psicóloga e diretora de Liderança, Cultura e Diversidade do Ibef-ES
Um exemplo concreto está no setor supermercadista: de acordo com a Associação Capixaba de Supermercados (Acaps), mesmo com cerca de 60 mil empregados, o segmento enfrenta dificuldades para preencher vagas e atender à demanda cada vez mais crescente. Os relatos são de “apagão” de cerca de 6 mil vagas que estão abertas no Estado, mas que não encontram candidatos para preenchê-las.
Fatores
Empresários no Estado avaliam que a falta de qualificação técnica específica é o pilar central desse desafio. Para eles, o mercado evoluiu muito rápido, incorporando novas tecnologias e exigindo habilidades que a formação tradicional, muitas vezes, não conseguiu acompanhar no mesmo ritmo.
Mas esse fator não seria o único culpado A transição geracional e a mudança nas expectativas dos trabalhadores também tiveram suas influências para a situação de escassez de mão de obra no Estado.
Especialistas relatam que o profissional hoje não olha apenas para o salário, mas também analisa a cultura da empresa, a flexibilidade, a qualidade de vida e, fundamentalmente , a segurança e o bem-estar que a empresa pode proporcionar a ele e à sua família.
Além disso, o próprio aquecimento da economia capixaba gerou uma competição acirrada. Com mais empresas se instalando ou expandindo no Espírito Santo, a demanda por talentos disparou, pulverizando a oferta de profissionais disponíveis.
Capacitação precisa ser o foco
Empresas no Estado e no País precisam entender que o mercado de trabalho não irá entregar profissionais “prontos” e é necessário trazer suas expectativas para uma realidade possível, avalia o CEO da Hublue, Lito Aguiar.
Aguiar explica que vaga aberta não necessariamente significa que há talento disponível e que, em muitos casos, é preciso que a empresa adapte suas expectativas sobre os profissionais disponíveis no mercado.
“Em muitos casos, faltam pessoas prontas para o nível de complexidade que a empresa exige. É comum que a empresa ache candidatos interessados, mas sem domínio técnico suficiente. Mas aí entra uma questão: as empresas precisam entender que o mercado não vai mais entregar profissionais prontos”.
Aguiar relata que já há empresas que entenderam essa situação e perceberam a resposta: formação e contratação precisam caminhar juntas.
“Isso significa investir em capacitação contínua, programas de entrada, trilhas de desenvolvimento, parcerias com instituições de ensino, requalificação. Não se deve buscar o candidato ideal, mas o candidato possivel e com potencial”.
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