Apagão de mão de obra: horário flexível, folga e até lanches para atrair talentos
Estratégias incluem flexibilidade, bem-estar, planos de carreira e mudança para escala 5x2; remoto e recrutamento externo ganham espaço
Com a escassez de mão de obra disponível, empresas no Estado já buscam por diferenciais que as tornem atrativas tanto para novos funcionários quanto para reter funcionários que já atuam na empresa.
A avaliação de especialistas é de que o salário deixou de ser o único fator de decisão para contratar ou reter funcionários. Gisélia Freitas, por exemplo, explica que as empresas que estão “vencendo essa batalha” estão oferecendo benefícios que incluem flexibilidade de horários, planos de carreira bem definidos, programas de bem estar e saúde física e mental.
“Eu costumo dizer que as pessoas entram pela vaga e saem pelo chefe. Aqui no Estado vejo clientes investindo em pesquisa de clima, em desenvolvimento de líderes e em cuidado com os riscos psicossociais, que inclusive agora se tornou exigência legal com a NR-1”.
Entre no nosso canal e receba notícias em seu WhatsApp
Especialistas chegaram a citar até mesmo casos no Estado em que candidatos foram presenteados com pizzas por terem participado de um processo seletivo. Em Vitória, uma empresa chegou a oferecer um vale-compras de R$ 300 por mês em caso de assiduidade do funcionário que fosse contratado.
Presidente da Associação de Empresários da Serra (Ases), Leonelle Lamas explica que há uma compreensão entre o empresariado do Estado de que formar e desenvolver pessoas deixou de ser uma responsabilidade apenas das instituições de ensino. “ É algo que passou a fazer parte da estratégia das próprias organizações”.
Até mesmo modificações na escala de trabalho já são parte da estratégia para atrair e reter funcionários. A Drogasil, por exemplo, relatou ter decidido adotar a escala 5x2 – onde se trabalha cinco dias na semana – em todas as suas lojas no Estado para cargos de gerência e farmacêuticos, visando reter talentos e reduzir a rotatividade de funcionários.
Outra empresa que também decidiu adotar a escala 5x2 para funcionários com essa mentalidade é o Grupo Coutinho, que em março deste ano anunciou a mudança relatando ter cerca de 300 vagas ociosas e explicando que a modificação é parte de um planejamento para reduzir esse número e também para reduzir a rotatividade de funcionários.
Saiba mais
Setores mais afetados
Seguindo a classificação estruturada pela ManpowerGroup no levantamento, 85% daqueles que empregam no segmento de serviços profissionais, científicos e técnicos enfrentam desafios de contratação. Eles compõem o setor mais afetado, diz a pesquisa. Em seguida está o segmento de informação, com 83%.
Habilidades em falta
No recorte nacional do levantamento da ManpowerGroup, as habilidades técnicas mais difíceis de encontrar são, pela ordem: desenvolvimento de modelos e aplicações de IA, letramento em IA, TI e Dados, front office e atendimento ao cliente, e marketing e vendas.
Entre as habilidades comportamentais mais valorizadas pelos empregadores brasileiros estão profissionalismo e ética no trabalho, comunicação e trabalho em equipe, adaptabilidade e disposição para aprender, pensamento crítico e resolução de problemas, e letramento digital.
8 em cada 10 empregados brasileiros (80%) afirmam ter dificuldade para encontrar os profissionais de que precisam, aponta a Pesquisa Global de Escassez de Talentos 2026, do ManpowerGroup, que ouviu 39.063 empregadores em 41 países entre 1º e 31 de outubro de 2025. A escassez cresce conforme aumenta o tamanho da companhia.
Trabalho remoto vira alternativa
A busca por mão de obra tem feito empresas trazerem talentos de outros estados, países e até mesmo abrirem vagas remotas para contratar profissionais que estão em outros continentes.
Segundo Flávio Cirilo, muitas empresas capixabas têm feito isso, especialmente para cargos de alta especialização técnica, tecnologia e gestão estratégica. Elas buscam talentos em estados vizinhos como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
“Ou até mesmo adotado o trabalho remoto para essas funções e contratado gente de qualquer lugar do País ou até mesmo de fora do Brasil”.
As obras na BR-101, rodovia que corta o Espírito Santo de Norte a Sul, são um exemplo concreto dessa situação: o diretor-superintendente da Ecovias Capixaba, Roberto Amorim, relatou que, embora a contratação de mão de obra lo cal seja priorizada, há dificuldade de encontrar profissionais qualificados para todas as funções demandadas de forma a se manter o ritmo dos canteiros e evitar impactos nos cronogramas.
“Já sentimos o desafio da escassez de mão de obra, tanto nas obras do Sul quanto do Norte do Estado. As construtoras contratadas têm buscado alternativas, justamente para evitar impactos nas entregas. Quando não encontram localmente, recorrem à contratação de trabalhadores de outros estados”, relata.
Presidente da Associação de Empresários da Serra (Ases), Leonelle Lamas afirma que, apesar de isso estar sendo adotado pelas empresas, o custo acaba tornando essa estratégia prejudicial à expansão de negócios.
“Há uma mentalidade de que é preciso expandir a formação de mão de obra local. Não podemos ficar dependentes de gente de fora, isso não é sustentável a médio e longo prazo. Nós da Ases fomentamos parcerias para aproximar a formação profissional das necessidades do mercado e reduzir essa busca em outros estados e até países, que realmente ocorre”.
Comentários