Professor de Economia há 50 anos dá dicas para os mais jovens
É o que diz professor de Economia que já dá aulas há 50 anos na Ufes. Ele conta que viveu momentos históricos na faculdade
Siga o Tribuna Online no Google
Atuando como professor de Economia desde 1976, Luiz Antônio Saade, de 74 anos, recebeu homenagem de outros professores e alunos pelos 50 anos de magistério na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
“Meu primeiro dia como professor foi em 8 de março de 1976. Ensinar exige responsabilidade. Em todos esses 50 anos, ministrando aulas para os cursos de Economia, Administração, Ciências Contábeis e Direito, posso dizer que as condições para atuar como professor e pesquisador evoluíram bastante”, declarou o economista.
O professor, formado pela Ufes e com mestrado pela Memphis State University, nos Estados Unidos, já deu aula para figuras proeminentes do Espírito Santo, como o ex-governador Paulo Hartung.
“Ele era muito dedicado e sempre participou ativamente do movimento estudantil. Também foram meus alunos o ex-secretário de Estado da Saúde, Tyago Hoffman, e o presidente do Conselho Regional de Economia do Estado, Ricardo Paixão, ambos excelentes alunos. Fico orgulhoso de ter dado aulas para eles”, ressaltou.
O decano do curso de Economia da Ufes viveu momentos históricos, como o fim da ditadura militar, a hiperinflação dos anos 1980, o lançamento do Plano Real, atual moeda nacional, entre vários outros.
Uma aula inaugural, ministrada pelo decano, e também uma solenidade com coquetel, realizadas no auditório do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE) da Ufes, em março, marcaram o dia de homenagens.
A Tribuna — O senhor começou a dar aulas antes do fim da ditadura militar. Como era a economia brasileira até então?
Luiz Antônio Saade — Em 1976, o Brasil ainda era governado por Ernesto Geisel e vigorava o segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), que teve êxito, proporcionou crescimento econômico no País. Porém, deixou uma sequela: o endividamento externo com juros variáveis e nenhuma política anti-inflacionária. Enquanto o governo se preocupava com o crescimento econômico, esquecia da inflação, o que provocou o aumento da dívida externa. Para piorar, a dívida estava lastreada com juros variáveis. Ou seja, a cada variação de juros, a dívida e inflação cresciam na mesma medida. Tudo isso explode no começo da década de 1980.
Esse cenário econômico foi responsável por gerar a hiperinflação dos anos 1980?
Exato. Estávamos com uma dívida imensa. Os juros variáveis internacionais dispararam e isso começou a estrangular a economia brasileira. E então vieram os anos 1980, conhecidos pela economia como “década perdida”, quando a ditadura vai embora e deixa a batata quente para o mandato presidencial de José Sarney, que não soube controlar a inflação.
Como o Plano Cruzado se encaixou naquele momento?
O plano foi uma tentativa falha de combater a inflação. Congelou preços por tempo muito prolongado, o que provocou desabastecimento, havia filas enormes para comprar carne e outros produtos nos mercados.
O plano também tentou mudar abruptamente os índices econômicos do País, o que fez comerciantes cobrarem preços acima do que havia sido estabelecido pelo governo federal. Os famosos “fiscais do Sarney”, que monitoravam preços em mercados e faziam denúncias, não foram nem de longe suficientes.
Qual foi a solução encontrada para a inflação?
O Plano Real, que não cometeu os erros do Plano Cruzado. Houve mudança dos índices econômicos? Sim, mas foi gradativa, através da Unidade Real de Valor (URV). Todos os ativos econômicos do País foram indexados, aos poucos, no índice, que era corrigido sempre.
Em 1º de julho de 1994, a URV tornou-se a atual moeda: o Real. A verdade é que o Plano Cruzado foi o grande laboratório do Plano Real, a equipe do presidente Itamar Franco não cometeu os mesmo erros. A mesma equipe também começou a instituir políticas monetárias e cambiais para combater a inflação, e também uma política fiscal. Apesar dessa última não ter funcionado tão bem, o Plano Real logrou êxito.
Então, mesmo com o êxito do Plano Real, melhorias foram necessárias?
Claro, tivemos aperfeiçoamentos depois. Em 1999, no governo de Fernando Henrique Cardoso, vieram as metas para a inflação e para o superávit primário da economia nacional. Esta última medida funcionou por muito tempo, mas foi abandonada na administração de Dilma Rousseff. Há uma tentativa de reviver o superávit primário, que é o teto de gastos, implementado no mandato de Michel Temer, mas que não foi bem adotado.
Fatos recentes impactaram a economia do Brasil, como a pandemia de covid-19 e as tarifas impostas pelos Estados Unidos. Como você avalia a reação econômica nacional?
O Brasil sofreu o revés da pandemia como todos os outros países, mas é um momento que já passou. Não há mais influência econômica negativa gerada pela pandemia que afeta o Brasil. Sobre as tarifas impostas pelos Estados Unidos no ano passado, nós superamos muito bem essa turbulência.
O senhor viu e pôde abordar todos esses acontecimentos em sala de aula. Como é ser professor há tanto tempo?
O professor deve cumprir três objetivos: preparar-se para transmitir conhecimento, transmitir tudo o que aprendeu e verificar se o aprendizado ocorreu. A última etapa é um desafio muito grande. Eu sou considerado um professor rigoroso, mas isso é porque enxergo a responsabilidade em ensinar outro ser humano. Esses desafios independem da época.
Quais mudanças o senhor observa e quais os desafios da atualidade?
Tudo mudou completamente. Quando comecei a atuar na Ufes, ficávamos completamente isolados, não tínhamos nem telefone, que dirá internet. Ministrávamos as aulas e desenvolvíamos pesquisas, mas ficávamos isolados do mundo exterior. Agora, com a internet, computadores, celulares e novas tecnologias, conseguimos nos comunicar com alunos de forma eficiente, a pesquisa acadêmica ficou mais produtiva.
Porém, apesar de termos mais informação circulando, sem a censura de notícias e conhecimento que a ditadura impunha, é necessária mais conscientização com relação ao conhecimento econômico. Isso ainda é uma carência para a população.
E o que esperar da economia brasileira para 2026?
Um ano de dívida pública elevada e altos gastos. O Brasil ainda precisa de uma boa política industrial para termos crescimento sustentável do Produto Interno Bruto (PIB).
Quem é ele
Luiz Antônio Saade
- Natural de Vitória, formou-se em Economia em 1972, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
- Em 1974, ingressou em mestrado nos Estados Unidos, na Memphis State University, através do programa Latin America Scholarship Program at American Universities (LasPau).
- Ao retornar para o Brasil, em 1976, prestou concurso público na Ufes e ingressou no quadro de docentes do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE) em março do mesmo ano, onde atua como decano até o momento.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários