“O Brasil precisa ter mais atenção com a matemática”, afirma especialista
Apesar de avanços, desempenho na disciplina segue abaixo do esperado e expõe dificuldades desde os primeiros anos
Apesar de mostrar avanços na educação brasileira, as notas alcançadas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mostram que o aprendizado em Matemática ainda é um desafio no País.
Os dados mostram que, a aprendizagem da matéria no 9º ano permanece no nível básico, enquanto no ensino médio permanece abaixo do básico, com lacunas em habilidades básicas e intermediárias.
Para a coordenadora de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, Natália Fregonesi, esse resultado é um alerta. “O Brasil precisa ter mais atenção com a Matemática. Tivemos um avanço em relação a 2019, mas isso ainda é muito pequeno quando olhamos para a pontuação”.
A Tribuna — O cenário da aprendizagem em Matemática no Brasil é preocupante?
Natália Fregonesi — Sim. O caso da Matemática é sempre mais desafiador. Quando olhamos para o nível de aprendizagem e para a quantidade de estudantes com aprendizagem adequada, Matemática sempre fica muito atrás.
As defasagens já começam cedo. Desde os primeiros anos, os estudantes já estão tendo dificuldade para desenvolver a aprendizagem adequada.
Como a Matemática é uma área cumulativa, se o estudante não compreende bem conceitos que são fundamentais, como as operações básicas e as frações, que são aprendidas no início da educação básica, é muito difícil conseguir acompanhar ao longo da trajetória escolar.
É possível recuperar essas defasagens depois?
É possível recuperar, mas é muito mais difícil, porque as lacunas já são muito grandes. Se o estudante não consegue desenvolver algumas habilidades que são pré-requisitos para tudo o que vai vir pelo caminho, ele não vai conseguir se desenvolver em temas mais complexos.
Essas dificuldades também podem afetar a motivação dos estudantes?
Sim. Se esse estudante chega e não consegue acompanhar as aulas, vai ficando cada vez mais difícil se motivar. É um processo que se acumula com o passar dos anos.
Por isso, chegamos hoje ao ensino médio com níveis baixíssimos de estudantes que têm aprendizagem adequada em Matemática.
Você comentou que a aprendizagem em Matemática sempre foi um desafio no Brasil. Por que isso acontece?
É difícil cravar com certeza qual é o principal motivador. Existe esse ponto de a Matemática ser cumulativa e o fato de que essa matéria, muitas vezes, não está inserida na realidade do aluno, porque não é algo que ele usa com frequência.
Ao contrário disso, no caso da Língua Portuguesa, por exemplo, o Português é algo que os estudantes utilizam mais no dia a dia, seja como falantes ou até escrevendo.
Além desses fatores, há também o desafio de um currículo muito extenso a ser trabalhado no ensino de Matemática, que conta com muitas habilidades a serem desenvolvidas com os estudantes.
Como um currículo extenso pode agravar a situação de quem já tem dificuldades?
Se esse estudante já tem dificuldade com as habilidades básicas e chega às etapas seguintes com um currículo muito grande, com muito conteúdo a ser explorado, é muito difícil desenvolver tudo isso ao longo do ano letivo.
A formação dos professores também pode influenciar esse resultado?
Com certeza. Hoje sabemos que a formação inicial de professores é muito defasada, o que também pode afetar os resultados em Matemática.
Não significa que devemos responsabilizar apenas os professores pelos resultados insuficientes, até porque existem vários outros fatores que contribuem para isso, mas é algo que deve ser levado em consideração.
Esse baixo desempenho em Matemática pode trazer consequências para outras áreas do País no futuro, como na tecnologia e nas engenharias?
Acredito que sim, mas não só o baixo desempenho em Matemática. Por mais que a gente tenha um cenário pior em Matemática, em Língua Portuguesa também estamos longe do ideal.
Quando temos tantos estudantes se formando na educação básica com um nível de aprendizagem muito abaixo do esperado, isso é preocupante para as mais diferentes áreas.
O que pode ser feito, então, para melhorar a aprendizagem em Matemática?
Não existe uma medida única, como para tudo que lidamos na educação. Por isso, precisamos ter uma agenda sistêmica que olhe para esses problemas.
Primeiro, como já foi dito, a formação de professores é fundamental. Considerando aqui tanto a formação inicial quanto a formação continuada, que vai ser ofertada pelas redes de ensino.
Depois, é importante adotar estratégias de recomposição de aprendizagem, resgatando conhecimentos e habilidades essenciais que os estudantes não conseguiram desenvolver.
Além disso, é preciso que as redes de ensino também tenham suas próprias avaliações diagnósticas e formativas, que consigam acompanhar, ao longo de todo o ano letivo, quais são as dificuldades dos estudantes e quais habilidades eles estão realmente deixando para trás. Isso ajuda a direcionar melhor os conteúdos e a preparar materiais que sejam mais adequados.
Existe alguma iniciativa nacional que possa ajudar nesse processo?
Em nível nacional, temos o Compromisso Toda Matemática, que foi instituído pelo Ministério da Educação (MEC). Mas é preciso garantir que esse compromisso seja, de fato, implementado. Priorizar essa agenda na educação nacional vai ser muito importante.
Considerando as diferenças entre as redes e regiões do Brasil, como fazer com que essas políticas consigam chegar às diferentes realidades do País?
Cada estado e município tem diferentes capacidades. Uma coisa importante é que o MEC consiga prever, em seus programas e políticas, algum tipo de apoio às redes de ensino nesse processo de gestão e de fortalecimento da capacidade estatal.
É preciso olhar para o contexto de cada rede, conseguir fortalecer essa gestão educacional e firmar uma prioridade política. Esse é um ponto bastante relevante quando pensamos em toda a diversidade nacional.
Perfil
Natália Fregonesi
É coordenadora de Políticas Educacionais da Organização Todos Pela Educação.
Licenciada em Química e especialista em Implementação de Políticas Educacionais, Natália compõe a frente técnica de apoio consultivo à gestão pública.
Foi professora do Ensino Médio na rede pública do Espírito Santo e também atuou na Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul.
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