De idade mínima a orientação familiar: medidas contra excesso de telas avançam
Exemplos mostram para famílias e educadores como o problema afeta o mundo todo e as soluções adotadas
O número de países que adotam medidas para reduzir o uso de celular entre crianças e adolescentes tem aumentado. Enquanto alguns restringem o acesso, outros investem em educação digital.
Apesar das estratégias serem diferentes, todas têm o mesmo objetivo: proteger o desenvolvimento infantil e incentivar um uso mais consciente da tecnologia. Para especialistas, essas iniciativas podem servir de exemplo para o Brasil.
Países como Austrália, Portugal e Reino Unido seguem a tendência de estabelecer uma idade mínima para a criação de contas nas redes sociais.
Já a Suécia tem apostado na orientação às famílias, com recomendações como guardar o celular durante momentos de convivência e criar ambientes livres de telas.
A pediatra Flávia Tavares diz que a principal lição que podemos tirar é perceber a importância da criança poder, de fato, ser criança.
“O ambiente digital consome muito tempo e energia, fazendo com que a criança deixe de estudar, brincar e conviver socialmente, coisas que são essenciais para o desenvolvimento.”
Por isso, essas restrições devem ajudar a família a buscar novas opções para entreter as crianças no tempo livre.
“A preocupação não é apenas com o tempo de tela, mas com tudo o que a criança deixa de fazer enquanto está diante do celular.”
Outra lição importante é a necessidade de valorização das relações sociais, algo que, segundo a psicóloga infantil Luiza Colonna se perde com o uso excessivo de telas.
“É nas relações presenciais que a criança aprende sobre limites, regras e convivência. Isso não acontece diante de uma tela.”
Para que isso aconteça, os pais precisam assumir o controle. “É fundamental incentivar esportes, atividades extracurriculares e tarefas do dia a dia, que desenvolvem planejamento, organização e concentração”.
Nesse processo, as escolas também têm responsabilidades. O psicopedagogo Rogério Maia diz que as instituições devem incentivar o olhar crítico no ambiente digital.
“É importante investir em educação digital, com projetos pedagógicos e debates sobre o uso seguro da internet.”
Excesso de tela
A fonoaudióloga Amanda Dassie, 37, mãe de Elisa, de 5 anos, e de Marina, de 7 meses, evita usar o celular perto das filhas.
“Trabalho com o desenvolvimento infantil e sei o quanto o excesso de tela é prejudicial nessa fase. A nossa rotina já é muito corrida, e o tempo que estou com elas precisa ser de qualidade.”
“Quando preciso usar o celular e elas estão por perto, eu as deixo com meu marido ou espero elas dormirem, conta.
Sinais que indicam uso excessivo
As proibições impostas pelos países para acesso a redes sociais tentam superar uma série de prejuízos, como quedas das notas e irritabilidade.
O exame Pisa Brasil 2022, por exemplo, revelou que 80% dos estudantes admitem que o uso do smartphone os distrai e prejudica a concentração durante as aulas. Isso se dá, segundo o psicopedagogo Rogério Maia, pela fragmentação da atenção.
“Para aprender, o cérebro precisa de tempo, silêncio e foco, enquanto as redes sociais oferecem estímulos rápidos e recompensas imediatas. Com isso, o aluno passa a achar a aula lenta e perde a capacidade de manter a atenção por longos períodos.”
Além disso, o cérebro passa a ter menos tempo de descanso para assimilar informações, o que não acontece com a hiperestimulação online.
“Sem esse tempo, as informações são recebidas, mas dificilmente ficam armazenadas de forma duradoura”, diz Rogério.
O excesso de telas afeta ainda o desenvolvimento emocional e social de crianças e adolescentes, segundo a psicóloga infantil Luiza Colonna.
“Crianças e adolescentes deixam de viver experiências no mundo real para se relacionar principalmente no ambiente digital.”
Por isso, é essencial buscar ajuda. “Quando perceberem que não conseguem conduzir a situação sozinhos, os pais devem buscar um profissional”, diz Luiza.
As lições
1. Austrália
A Austrália foi o primeiro país a proibir o uso de celulares para menores de 16 anos. A medida, de 2025, restringe o acesso ao Instagram, Facebook, TikTok, YouTube e Snapchat e outras plataformas.
A lei prevê multas para as empresas que não criarem medidas que impeçam menores de 16 anos a manterem suas contas e já baniu milhares de contas desde sua implementação, que busca combater o cyberbullying.
2. Reino Unido
O Reino Unido anunciou que vai proibir menores de 16 a acessarem redes sociais como TikTok, Facebook, Instagram e X, o antigo Twitter, em 2027. Aplicativos de mensagens como o WhatsApp não serão afetados.
As autoridades também estudam adotar um toque de recolher das redes durante a noite para adolescentes de até 18 anos, tentando combater o impacto no sono, e restringir o uso da inteligência artificial.
3. França
Com proibição total do uso de celulares nas escolas desde 2018, a França apresentou um projeto para proibir menores de 15 anos de acessarem as redes sociais, exigindo que as empresas responsáveis adotem mecanismos de verificação de idade.
O projeto ainda está em fase de aprovação, e, segundo as autoridades, é uma resposta a crescentes preocupações sobre bullying online e riscos à saúde mental dos jovens.
4. China
A China possui um dos sistemas mais rígidos de restrição de redes sociais para menores de 18 anos, exigindo que as plataformas adotem o chamado “modo menor”.
As regras incluem toque de recolher digital, com bloqueio de acesso entre 22h e 6h, limites de tempo diários baseados na idade, recursos para filtro de conteúdos para os pais e restrições a exposição infantis e atuação de influenciadores mirins.
5. Suécia
O país recomenda que as crianças não tenham um smartphone próprio antes de completarem 13 anos e sugere limites diários de tempo de tela de acordo com a idade.
A Agência de Saúde Pública da Suécia também lançou uma série de recomendações oficiais com orientações para os pais, que incluem não usar celular nos momentos com os filhos e reforçando a importância do exemplo.
6. Noruega
Seguindo medidas adotadas em outros países, a Noruega deve apresentar até o final deste ano uma medida que proíbe o acesso de menores de 16 anos às redes sociais, sujeito a responsabilização das plataformas.
Com a aprovação, jovens com menos de 16 anos não poderão criar novas contas e as já existentes serão suspensas, sendo liberadas apenas no dia 1° de janeiro do ano em que completam 16 anos.
7. Dinamarca
A Dinamarca anunciou um acordo parlamentar para proibir que menores de 15 anos tenham acesso a redes sociais, com necessidade de checagem obrigatória de idade.
A legislação propõe que jovens a partir de 13 anos utilizem as plataformas apenas com autorização expressa dos pais ou responsáveis.
As plataformas que não comprovarem a idade dos usuários podem ser multadas em até 6% de sua receita global.
8. Grécia
A partir de janeiro de 2027, a Grécia vai proibir o acesso de menores de 15 anos a redes sociais com o objetivo de combater o vício e os impactos negativos do uso de telas na saúde mental dos jovens.
O bloqueio visa aplicativos focados em fluxo contínuo de conteúdo, como Instagram, Tiktok, Facebook e Snapchat, deixando de fora aplicativos de mensagens, como o WhatsApp e serviços de vídeo, o YouTube.
9. Portugal
Portugal implementou regras severas quanto ao uso de redes sociais e celulares por crianças e adolescentes.
Nas escolas, o uso de celulares é proibido para alunos até o 6º ano, durante as aulas ou nos momentos de intervalo.
Quanto às redes sociais e sites de aposta, a criação de contas por menores de 13 anos é proibida. Entre 13 e 16 anos, o acesso precisa de autorização expressa dos responsáveis.
10. Emirados Árabes Unidos
Os Emirados Árabes Unidos serão o primeiro país árabe a proibir o acesso a redes sociais para menores de 15 anos. A medida prevê um período de transição de 12 meses.
Segundo a resolução do gabinete, as plataformas de redes sociais deverão monitorar e desativar as contas criadas por menores de 15 anos. Caso contrário, poderão ser até mesmo bloqueadas no país.
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