Apenas 10 alunos tiraram nota 1.000 na Redação do Enem
A pedido de A Tribuna, professores explicam o que diferencia os textos que recebem nota máxima na prova de Redação do Enem
A Redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) aplicado no ano passado teve apenas 10 participantes com nota máxima (1.000 pontos) em todo o País, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A pedido de A Tribuna, especialistas explicam o que diferencia esses textos e os motivos que levaram seus autores a alcançar a pontuação máxima.
No Espírito Santo, nenhum aluno conseguiu obter a nota 1.000 em Redação, cujo tema foi “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. Os estudantes que alcançaram a pontuação máxima são da Bahia (2), Rio Grande do Sul (1), Ceará (2), Rio de Janeiro (2), Pernambuco (2) e Alagoas (1).
No ano passado, apenas 12 alunos no País tiraram nota mil. O número verificado na edição 2025 é o menor na série disponível desde 2014.
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Lorena Altoé, professora de Redação da Escola Crescer PHD, destaca que as redações nota 1.000 mostram que a pontuação máxima não é resultado de uma fórmula pronta, mas de um processo consistente de domínio da escrita, que exige prática e atenção aos critérios da prova.
“O que conseguimos ver em comum nesses textos é o domínio consistente da escrita, o uso de estratégias argumentativas produtivas e de argumentos baseados em fatos comprováveis”, diz.
Além disso, acrescenta a professora, os critérios de correção exigem que os estudantes apresentem uma proposta de intervenção detalhada para os problemas discutidos no texto, o que as redações nota mil fazem de forma consistente. Outro diferencial é o uso do repertório sociocultural de acordo com as normas do Inep.
“O texto de Lucas Rodrigues, por exemplo, já começa com um repertório sociocultural adequado à temática. Ele cita um livro que aborda a história de uma senhora idosa.”
Raquel Frontelmo, professora de Redação que atua há mais de 10 anos e mantém um curso com seu nome, também destaca o repertório sociocultural pertinente ao tema. “Hoje você precisa apresentar um repertório que esteja totalmente dentro do tema e de acordo com as suas ideias.”
Segundo ela, esse repertório pode incluir filmes, documentários, livros e conhecimentos filosóficos e sociológicos, entre outros.
“Também falamos de repertório sociocultural, o que inclui músicas, jogos e animes. Um aluno meu chegou a 960 pontos usando anime. Outra conseguiu nota semelhante com cinderela”, conta.
O que eles dizem
Referência
“Destaco alguns pontos. O primeiro mérito é que a tese de todos os participantes está presente no final da introdução. Todo participante precisa estar ciente disso. O segundo mérito é a organização do texto: início, meio e fim. O pulo do gato é que, quando você faz uma referência sociocultural produtiva, deve ter total conexão com o tema.”
Lúcio Manga, professor de Redação do Leonardo Da Vinci
Repertório
“O texto nota mil é uma combinação entre competência linguística, conhecimento de mundo, capacidade argumentativa e técnica de estrutura textual. Os alunos têm de saber usar conhecimento de outras áreas, como filosofia e cinema. A redação do Carlos Eduardo Gomes é um bom exemplo do uso de repertórios culturais. É uma redação completa.”
Emanuelly Valente, professora de Redação do Madan
Trechos de duas redações nota 1.000
Lucas Rodrigues, de Lauro de Freitas (BA)
O livro “A casa dos budas ditosos”, escrito pelo baiano João Ubaldo Ribeiro, conta a história de CLB, uma idosa que, enfrentando estereótipos associados à velhice, mantém-se ativa e se recusa a encarar a senescência como fim. Para além da literatura, contudo, são outras as perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira: cada vez mais há idosos doentes, invisibilizados e inativos.
Nesse sentido, estabelece-se um cenário hostil, sustentado pelo Estado e pelas empresas, que prejudica a qualidade de vida e acelera a morte. À vista disso, tanto o descaso estatal quanto a má conduta do setor privado impulsionam esse problema.
Sob essa lógica, convém destacar a negligência do Estado como agravante dessa problemática. Isso ocorre, porque tal instituição não oferece políticas em quantidade e eficiência suficientes para os idosos, comprometendo a sua qualidade de vida.
Acerca disso, Achille Mbembe, filósofo camaronês, afirma, a partir de seu conceito de "Necropolítica", que o Estado decide quem vive e quem é destinado a um projeto de morte. Nesse rumo, percebe-se que a ideia do filósofo é assertiva e aplicável ao contexto do envelhecimento na sociedade brasileira, uma vez que, devido à composição hegemônica do corpo político (deputados e senadores majoritariamente distantes dos 65 anos, isto é, alheios à realidade da velhice), são escassas as políticas públicas, como a garantia de equipes especializadas em geriatria nas UBS, destinadas a esse público (...)
Carlos Eduardo Gomes dos Santos, de Mombaça (CE)
O sociólogo e professor Boaventura de Sousa Santos afirma que a sociedade vive uma “sociologia das ausências”, uma vez que os saberes e o modo de vida de determinados grupos tendem a ser invisibilizados por não se encaixarem na lógica da racionalidade ocidental.
Nesse sentido, ao analisar o hodierno contexto brasileiro, é perceptível que a população idosa é marcada pela sociologia defendida pelo professor, já que o envelhecimento desses indivíduos testemunha um descaso social de desassistência e preconceito, marcado por perspectivas que dificultam a qualidade de vida e a inclusão social.
Por isso, urge uma discussão sobre essa problemática, a qual é sustentada não só pela negligência estatal, mas também pela omissão midiática.
(...)
Portanto, cabe ao Poder Executivo, por meio do Ministério da Saúde — órgão responsável pelas diretrizes nacionais do sistema de saúde — em parceria com os CREAS, desenvolver atividades físicas de grupo e movimentos interativos, como dança e pintura, que despertem a população idosa para o cuidado físico, bem como campanhas de prevenção nas UBS às doenças da terceira idade, com a finalidade de garantir uma qualidade de vida saudável. Além disso, os veículos midiáticos devem retratar a personalidade do envelhecimento em figuras e espaços de poder para combater o idadismo. A partir dessas execuções, as perspectivas do envelhecimento no Brasil serão outras, agora não mais a da “sociologia das ausências”.
Fonte: Reprodução redes sociais.
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