Redução no número de estudantes de Engenharia no ES assusta
Conforme dados do Censo da Educação Superior do INEP, o número de estudantes matriculados em Engenharia em 2024 era de 2.023
O cenário de preocupação aparece também nos cursos de Engenharia no Espírito Santo e no Brasil. Em quatro anos, o número de estudantes caiu em 1.775 no Estado.
Conforme dados do Censo da Educação Superior, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), eram 3.798 estudantes em cursos de Engenharia em 2020.
O número caiu para 2.827 em 2021, 2.529 em 2022, 2.231 em 2023 e 2.023 em 2024, dado mais recente disponível.
No País, o número de estudantes matriculados em Engenharia caiu de aproximadamente 1,25 milhão em 2015 para 894 mil em 2023.
Segundo a 16ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil 2026, do Instituto Semesp, os cursos de Engenharia registram evasão acima da média geral. No ciclo 2020–2024, a taxa chegou a 57,2%.
Existe também um descompasso entre as especialidades disponíveis e aquelas exigidas pelos novos investimentos, segundo o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES), Jorge Silva.
“Não basta aumentar simplesmente o número de diplomas. É preciso formar profissionais nas áreas que estão efetivamente sendo demandadas e, ao mesmo tempo, atualizar quem já está no mercado, e isso o Crea-ES vem fazendo fortemente nos últimos anos.”
A escassez de mão de obra não é apenas um problema setorial, mas um entrave ao desenvolvimento nacional, segundo o diretor-executivo do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon), Humberto Rangel.
“A produtividade não depende apenas da expansão da infraestrutura, mas da combinação entre investimento e capital humano qualificado. Sem enfrentar esse desafio, o País continuará operando abaixo do seu potencial e nossa ambição pelo desenvolvimento seguirá impactada”, destacou Rangel.
Em maio, o Sinicon apresentou uma cartilha com diagnóstico sobre a escassez de mão de obra e um conjunto de propostas para enfrentar o problema.
Entre as medidas estão a ampliação da formação em Engenharia, com maior aderência às demandas do mercado, o fortalecimento da qualificação técnica e profissional, a melhoria do ambiente institucional, com maior previsibilidade de investimentos, e o avanço na integração entre o setor produtivo e as instituições de ensino.
Escolas de formação e parceria com instituições
Uma das formas de as empresas contornarem a falta de mão de obra especializada é buscar parcerias com instituições de ensino e criar escolas internas de formação, afirma o consultor empresarial e CEO da DVF Consultoria, Durval Vieira de Freitas.
“As empresas vão precisar buscar parcerias com instituições de ensino e montar escolas internas de formação especializada. Vemos isso já acontecendo com a GWM junto ao Senai, preparando cursos específicos”, disse.
Para Jorge Silva, presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-ES), também é necessário aproximar universidades, empresas, conselhos profissionais e entidades de classe.
Ele defende ampliar laboratórios, visitas técnicas, projetos integradores, estágios e metodologias baseadas na solução de problemas, além de incorporar temas como automação, Inteligência Artificial, análise de dados, sustentabilidade, descarbonização, eficiência energética, segurança, gestão de projetos e inovação.
Segundo Silva, o Crea-ES também atua na formação continuada dos profissionais, aproximando-os das inovações tecnológicas, das novas exigências do mercado e das transformações das áreas. A entidade oferece centenas de capacitações gratuitas, entre cursos e outras atividades de aperfeiçoamento.
Entre as iniciativas, ele cita os Cursos Avançados de Aerolevantamento com Uso de Drones, voltados à Topografia e ao Georreferenciamento, que deram aos profissionais acesso a tecnologias e metodologias mais recentes.
Industrializar processos
A industrialização dos processos é fundamental para elevar a produtividade, reduzir custos e enfrentar a escassez de mão de obra, segundo especialistas.
Durval Freitas afirma que muitas empresas ainda não se preocupavam com isso. “Vemos isso acontecendo em grande escala na Coreia do Sul, na China, nos Estados Unidos e na Europa. Aqui, a construção civil é um exemplo, com pré-moldados. São peças que chegam prontas ao local e são montadas. São menos trabalhadores e mais segurança. No Estado, empresas como Imetame, Estel, Tereme e Fortes estão bem adiantadas com isso”, disse.
Para Weverton Horsay, gestor de obra da Recanto Construtora, algumas empresas já buscam inovação, mas a mudança é gradual.
“Quando falo em industrialização, não estou falando simplesmente em substituir pessoas por máquinas. Estou falando em levar para a construção mais planejamento, tecnologia, padronização e produtividade”, afirmou.
Ele cita estruturas metálicas, pré-moldados, lajes industrializadas, painéis pré-fabricados, drywall, steel frame, banheiros modulares e kits elétricos e hidrossanitários.
“O Espírito Santo precisa formar e reter talentos em escala”, diz conselheiro da ABRH-ES
“O Espírito Santo vive uma oportunidade extraordinária, mas os investimentos anunciados só se converterão plenamente em desenvolvimento se também houver pessoas preparadas para executá-los.
O desafio se apresenta em qualificar, principalmente, engenheiros, técnicos, eletricistas e profissionais de manutenção, logística e operação.
Projetos como os Parklogs e a fábrica da GWM em Aracruz, para citar alguns, ampliarão essa demanda, enquanto a formação exige antecedência. Empresas, poder público, escolas técnicas e universidades precisam compartilhar projeções e construir trilhas conectadas às competências requeridas, combinando conhecimento técnico, segurança, tecnologia e habilidades humanas.
Também será necessário requalificar quem já trabalha, atrair jovens e mulheres para carreiras industriais, logísticas e oferecer perspectivas de desenvolvimento e permanência. Mais do que disputar profissionais escassos, o Espírito Santo precisa formar e reter talentos em escala. Essa é uma agenda estratégica de competitividade e inclusão produtiva.”
Cenário na formação
Redução do número de estudantes de Engenharia
No Espírito Santo, segundo o Censo da Educação Superior do Inep, em 2020 foram 3.798 graduandos em cursos de Engenharia, 2.827 em 2021, 2.529 em 2022, 2.231 em 2023 e 2.023 em 2024.
No Brasil, o número de estudantes matriculados em Engenharia caiu de aproximadamente 1,25 milhão em 2015 para 894 mil em 2023. A queda também aparece entre os formandos: eram mais de 128 mil em 2018, aproximadamente 95,6 mil em 2023 e 87,5 mil em 2024, segundo levantamentos baseados no Censo da Educação Superior do Inep.
Apenas 12% dos estudantes do ensino médio pretendem cursar Engenharia, segundo levantamento do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) em parceria com o Instituto Locomotiva.
Comparação com outros países
Outro indicador preocupante é a comparação internacional. O Brasil forma entre três e quatro engenheiros para cada 10 mil habitantes, enquanto países como Alemanha, Japão e Estados Unidos formam cerca de 14 na mesma proporção. Em outra métrica, são aproximadamente 5,6 engenheiros por 100 mil habitantes no Brasil, contra cerca de 25 em economias avançadas.
O que deve ser feito
- A Engenharia precisa unir base sólida e problemas reais desde o início.
- É preciso aproximar academia e mercado e integrar prática, tecnologia, sustentabilidade e inovação.
- Especialistas defendem reforço em exatas, formação prática, requalificação e carreiras mais atrativas.
Números
- 2.023 estudantes estudantes de Engenharia o Estado tinha em 2024
- 57,4% evasão em cursos de Engenharia entre 2020 e 2024 no País
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