Queijo e outros produtos com o grão ganham força no Espírito Santo
O café capixaba vai além da xícara e ganha espaço em queijos, doces, bebidas, chocolates e até cervejas
O Espírito Santo é o segundo maior produtor de café do País e tem mais de 131 mil famílias envolvidas na atividade. E, por aqui, o grão começa a ir muito além da xícara. Já virou queijo, doce de leite, energético, água saborizada e até uma guloseima coberta de chocolate.
Daniela Lopes é uma dessas produtoras, ao lado do marido Anderson Hollunder. Ela criou um queijo de coalho misturado com café, o Queijo Hollunder Ouro Negro, vendido a R$ 95 o quilo.
“Eu faço a base dele lavando em um café arábico premiado, o D'ccellente Café. O queijo também fica com a casca toda imersa no café. Quando eu parto, é como se fossem veias”.
A parte técnica da criação levou dois meses, enquanto cada queijo demora quatro dias para ficar pronto. Daniela conta que enviou uma amostra para o Prêmio Queijo Brasil 2026, em junho, com a intenção de receber uma avaliação técnica. Acabou ganhando uma medalha de bronze na categoria queijos finos.
Não foi o único produto da família premiado. O doce de leite com café solúvel e cacau, também produzido no Sítio Hollunder, levou bronze. O pacote, em pedaços, custa R$ 18. O pote cremoso é R$ 25.
Outro produto é o “Café para Comer”, criação da Vivian Pizzol, proprietária da empresa familiar de produtos artesanais Tem Café. Trata-se de um grão de café arábica inteiro envolto em chocolate, com uma aparência que preserva o formato do café. Custa entre R$ 15 e R$ 20.
“Brincamos que é uma experiência degustativa. Tem muita gente que não conhece o grão de café inteiro. Fazemos para o cliente poder ter essa experiência. Ao mesmo tempo, também tem a cremosidade do chocolate”, diz.
Vivian conta que seu “Café para comer” surgiu em 2022. O produto começou pequeno, com cerca de cinco clientes. Hoje, são mais de 100, com uma média de 2 mil caixas vendidas por mês.
“Também começamos a enviar pelo correio. Já foi para todos os estados do Sul. São Paulo e Rio é direto”.
Além dos produtores e empreendedores, o café também virou matéria-prima para pesquisas dentro das universidades capixabas. É o caso de Isabelli Moreira, mestranda em Ciência e Tecnologia de Alimentos da Ufes, que participa de um grupo que desenvolve bebidas à base do grão, entre elas um energético e uma água saborizada.
“Estou desenvolvendo uma bebida gelada à base de café cold brew, elaborado a partir de café conilon fermentado”.
Cerveja com café
A Catucaí, vendida a R$ 25 a lata de 473 ml, está no portfólio da Cervejaria Aurora desde a inauguração, há quatro anos. Proprietária e mestre cervejeira, Eliza Bottacini conta que a bebida é feita com infusão de café torrado.
“Apesar de ter a adição do café, não é uma cerveja escura. Ficou um sensorial bem interessante”.
Segundo Eliza, a produção de cervejas com café ainda está começando a se desenvolver no Estado. A produção da Catucaí é de cerca de 100 litros por mês. A bebida, conta, é comprada mais por curiosidade. Também ajuda a valorizar os cafés da região. “É impossível você vir a Venda Nova e não provar os cafés especiais. Então, é uma forma de valorizar também nossos produtores”. A cervejaria também prepara uma novidade: em parceria com o ID Coffee Lab, vai lançar em outubro um cold brew em lata, sem álcool.
Raio-X
ES é o 2º maior produtor de café
Consumo da bebida
- O café faz parte da rotina dos brasileiros: está presente em 98% dos lares e o País é o segundo maior consumidor do mundo.
- 21,409 milhões foram consumidas em 2025.
- Cada brasileiro tomou, em média, o equivalente a 1.400 xícaras ao longo do ano. O consumo per capita chegou a 4,82 quilos de café torrado.
- Boa parte do café que abastece esse mercado tem origem capixaba. O Espírito Santo é o 2º maior produtor de café do Brasil, responsável por cerca de 26% da produção e tem mais de 131 mil familias envolvidas
- Para 2026, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma safra de 17,974 milhões de sacas no Estado, a 2ª maior do País.
Como chegamos ao momento atual?
As ondas do café
- Você já ouviu falar nas “ondas do café”? O termo é usado por especialistas em café para contar a evolução da bebida e de seus hábitos de consumo pelos entendedores.
1ª onda: Café para acordar
- Inicia no Século XIX até meados do século XX. É quando o café se populariza e vira item básico da despensa.
- O foco está no consumo em massa, na praticidade e no preço. A qualidade do grão fica em segundo plano, com predominância de cafés comerciais e torras mais escuras.
2ª onda: Café vira experiência
- Começa por volta de 1960 a 1970. A bebida deixa de ser apenas um combustível para o dia e ganha espaço como produto de estilo de vida e ponto de encontro.
- A expansão das cafeterias ajuda a popularizar bebidas à base de espresso e leite, como cappuccinos e lattes. É também quando o consumidor começa a prestar mais atenção à origem e ao tipo de café.
3ª onda: O grão ganha protagonismo
- A partir dos anos 2000 baristas, cafeterias e pequenas torrefações passam a tratar o café com maior rigor técnico e sensorial.
- Ganham força os cafés especiais, a rastreabilidade, a origem do grão, as torras mais claras e métodos de preparo como V60, Chemex e Aeropress. É quando o café deixa de ser apenas uma bebida e passa a ser apreciado também pelos sabores e aromas que apresenta.
4ª onda: Café em casa, tecnologia e novas possibilidades
- A partir de meados de 2010, o consumidor passa a dominar diferentes métodos de preparo e, ao mesmo tempo, a tecnologia entra cada vez mais na cadeia do café.
- O barista ganha espaço como especialista e até como empreendedor.
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