Novas indústrias do petróleo vão ter salários até 6 vezes maiores
Setor prevê 5 mil empregos nos próximos anos em descomissionamento de plataformas, com remunerações de até R$ 40 mil
O Estado terá novas indústrias de petróleo e gás que vão ter salários até seis vezes maiores que a média do setor.
O descomissionamento offshore, indústria responsável pela desativação, montagem e reciclagem de plataformas de petróleo, terá criação de cerca de 5 mil empregos diretos e indiretos nos próximos anos com salários que chegam a R$ 40 mil, segundo o vice-presidente do Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico (CDMEC), Carlos Jardim Sena.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que os pagamentos são até seis vezes maiores que a média da indústria. Em 2024, a extração de óleo e gás pagou média de 17,5 salários mínimos (R$ 28.367,50), ante três salários mínimos (R$ 4.863) no conjunto da indústria.
A explicação para vencimentos tão elevados reside nas exigências internacionais da Convenção de Hong Kong, adotada em 2009 e em vigor internacionalmente desde junho de 2025, que precisa ser seguida por todo o segmento de descomissionamento, destacou Sena.
Ele explicou que o acordo estabelece parâmetros rigorosos de segurança, qualificação e proteção ambiental, impedindo o rebaixamento das condições de trabalho, levando aos pagamentos equiparáveis aos europeus.
“Um soldador ou um caldeireiro aqui vai ganhar em reais um valor equiparado ao que ganharia num porto de descomissionamento na Dinamarca”, afirmou.
A reportagem teve acesso em março ao quadro de funções e salários de uma empresa do segmento no Estado. Nela, o maior salário era de gerente de engenharia, que chegava a R$ 28 mil, e o menor, de ajudante industrial, de R$ 2.102,98, conforme a tabela abaixo.
Os padrões de remuneração serão mais altos que a média paga, por exemplo, no setor metalmecânico, também por conta dos contratos serem diretamente com os armadores (donos das plataformas), disse Hugo Marques, superintendente do Porto Nova Holanda, um dos empreendimentos previstos.
“Os salários pagos no setor de descomissionamento são exatamente aqueles pagos em plataformas offshore e, geralmente, existe sim a equivalência com salários pagos na Europa pois os armadores assim exigem por conta das convenções a que estão submetidos”, disse Marques.
EMPREGOS E SALÁRIOS
Até 5 mil empregos diretos e indiretos no Espírito Santo nos próximos anos. As oportunidades se dividem em diferentes áreas.
Os salários em funções especializadas variarão de R$ 28 mil a R$ 40 mil mensais. Isso ocorre porque a atividade segue o padrão remuneratório do setor offshore global e os parâmetros da Convenção de Hong Kong, que impedem a precarização das condições de trabalho e de renda nos países executores, no geral europeus.
SAIBA MAIS
O que é descomissionamento?
Consiste em um conjunto de atividades associadas à interrupção definitiva das operações de um sistema de produção. Em termos simples, trata-se da “aposentadoria” de uma plataforma de petróleo. Durante décadas, essas estruturas podem operar extraindo hidrocarbonetos do subsolo marinho. Quando a produção diminui a níveis que não justificam mais os custos de operação, inicia-se um processo planejado para desmontar ou adaptar a estrutura de maneira segura.
Potencial do Espírito Santo
O Espírito Santo possui uma das melhores condições para se tornar um polo competitivo de descomissionamento no Brasil. O Estado é o segundo maior produtor de petróleo do País e possui diversas instalações em sua costa com cronograma para serem descomissionadas, além de contar também com a existência de um parque industrial relevante.
O Espírito Santo reúne condições geográficas e industriais privilegiadas para se consolidar como polo de descomissionamento offshore no Brasil — mercado estimado em R$ 70,2 bilhões pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) no País.
Essa atividade tem potencial para movimentar mais de R$ 4,79 bilhões no Estado nos próximos anos. Como o custo médio de descomissionamento de uma única infraestrutura varia de R$ 300 milhões a R$ 500 milhões, o volume financeiro envolvido é expressivo.
O Estado já tem 26 projetos de descomissionamento aprovados pela ANP. Além disso, o Espírito Santo ganha em eficiência logística devido à sua localização geográfica intermediária na costa brasileira.
Fonte: Carlos Sena, Hugo Marques, CDMEC, Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Riscos e corrida contra o tempo
O Espírito Santo e o País enfrentam uma corrida contra o tempo para não perder investimentos no descomissionamento de plataformas.
Nos próximos anos, dezenas de plataformas de petróleo que operam na costa brasileira devem chegar ao fim da vida útil, mas atualmente há vários desafios que precisam ser superados, como preparação de infraestrutura portuária, entraves no licenciamento ambiental, insegurança tributária e regulamentação.
O marco legal que estabeleceria as regras tramita no Congresso há cinco anos sem votação e o regime tributário aplicável também segue indefinido. Mas o principal gargalo apontado no Estado hoje é o timing do licenciamento ambiental perante os órgãos de controle, segundo o vice-presidente do Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico (CDMEC), Carlos Jardim Sena.
“Contratos de descomissionamento são fechados com 3 a 4 anos de antecedência. Se você não tiver um licenciamento que caminha junto com esse timing, você perde. O Espírito Santo já perdeu várias plataformas que saíram do Brasil e foram ser descomissionadas na Dinamarca”, disse.
Outro ponto crítico é a necessidade de alterações na legislação de cabotagem do Brasil. O objetivo é proibir que embarcações estrangeiras realizem o desmonte das plataformas em alto-mar sem trazer o ativo para os portos brasileiros, segundo Sena.
O Estado já tem alguns empreendimentos previstos, como o Porto Nova Holanda, que inclusive trabalha para conseguir o contrato com a SBM Offshore, para a atracação da FPSO (navio-plataforma) Cidade de Ilhabela, que aconteceria em dezembro de 2028.
A partir de amanhã, o tema será um dos principais durante a ROG.e (antes chamada Rio Oil & Gas), maior festival de energia do planeta, organizado pelo Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP) no Rio, e que terá participação da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e do CDMEC, destacou Hugo Marques, superintendente do Porto Nova Holanda.
“O descomissionamento abre uma agenda importante para o Espírito Santo, especialmente pela força que o Estado já possui nos setores de petróleo, gás, energia, indústria, logística e serviços especializados”, disse o gerente-executivo de Articulação e Competitividade da Findes, Ícaro Gomes.
Preparação para atuar no mercadoA mão de obra necessária para as atividades de descomissionamento no Estado terá de ser formada ou minimamente adaptada, explicou Hugo Marques, superintendente do Porto Nova Holanda e presidente da Associação Brasileira de Descomissionamento Sustentável (ABDS).
O Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico (CDMEC) está estruturando um programa de qualificação articulado com instituições de ensino como a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Instituto Federal do Estado (Ifes), Universidade Vila Velha e Senai, segundo o vice-presidente do CDMEC.
Ele disse que a proposta abrange desde a formação técnica básica e cursos de extensão até programas de pós-graduação.
Além disso, o IEL-ES lança na próxima terça-feira, um curso inédito voltado ao tema do descomissionamento: Offshore Decommissioning: Brasil e Mar do Norte.
A programação, que antecede o início das aulas, contará com uma masterclass internacional e faz parte das iniciativas que a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) levará para a ROG.e 2026, maior festival de energia do planeta, no Rio de Janeiro.
Segundo o presidente da Findes, Paulo Baraona, o próximo salto industrial do Espírito Santo nasce no mar, ganha força na indústria e se concretiza nas pessoas. “Entendemos o descomissionamento como uma oportunidade concreta para atrair investimentos, fortalecer cadeias produtivas e gerar empregos qualificados no Estado”, afirmou.
OS DETALHES
Desafios e perspectivas para o Espírito Santo
Mesmo com as melhores condições, o Espírito Santo, assim como o País de uma forma geral, enfrenta diversos desafios para liderar a desmontagem de plataformas, como licenciamento ambiental, preparação de infraestrutura portuária, mão de obra qualificada, e o ambiente regulatório e tributário.
Licenciamento ambiental
Existe um problema de timing e fragmentação nos processos do Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
O licenciamento precisa caminhar no mesmo ritmo dos contratos, que são fechados com 3 a 4 anos de antecedência.
Infraestrutura portuária
É necessário ter berços preparados para receber as plataformas para o descomissionamento.
Mão de obra qualificada
A atividade é nova e altamente complexa, exigindo formações específicas que hoje não existem em quantidade suficiente no Estado.
Diante disso, a Findes e a academia já firmaram parcerias internacionais estratégicas com órgãos como a Decom Mission (Reino Unido) e a Universidade de Aberdeen para transferência de know-how.
Cadeia de fornecedores e destinação de resíduos
O setor metalmecânico capixaba é forte, mas precisa se adaptar ao porte das estruturas. Há necessidade de tratamento adequado para resíduos perigosos como amianto, óleos e NORM (Naturally Occurring Radioactive Material — materiais radioativos de ocorrência natural que se concentram nas estruturas).
Parte da reciclagem de aço e outros itens poderá ser absorvida por empresas locais, e esse mercado pode atrair novas empresas e indústrias para o Estado.
Ambiente regulatório e tributário
O marco legal que estabeleceria as regras tramita no Congresso há cinco anos sem votação e o regime tributário aplicável também segue indefinido.
Além disso, o Brasil precisa ratificar a Convenção de Hong Kong e alterar a legislação de cabotagem para proibir que embarcações estrangeiras façam o descomissionamento em alto-mar sem trazer o ativo para a costa brasileira.
Fonte: Carlos Sena, Hugo Marques, Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e Porto Central.
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