Jovens da geração Z são os que mais pedem dispensa do emprego
Falta de flexibilidade nas empresas é um dos fatores que reduz atração e retenção
Jovens de até 29 anos, da chamada Geração Z, respondem por metade dos pedidos de demissão registrados no primeiro semestre deste ano no Estado. Foram 56.097 pedidos nessa faixa etária, o equivalente a 50,05% do total de desligamentos a pedido, segundo os microdados do Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego.
Entre as atividades que mais concentram pedidos de demissão nessa faixa etária estão supermercados, comércio de vestuário, cultivo de café, lanchonetes, restaurantes e hospitais. Juntos são aproximadamente 20% do total.
Eliana Machado, CEO da Center RH, afirma que a busca por qualidade de vida e valorização ajuda a explicar por que profissionais dessa geração deixam os empregos. “Essa geração tem esse olhar muito voltado para o bem-estar e a percepção de que o bem-estar dela tem que estar associado ao dia a dia dentro do trabalho”.
Além disso, também está mais disposta a pedir demissão caso não se sinta valorizada. “Não quer só estar ali, quer fazer parte, proporcionar melhorias. E, quando não percebe essa oportunidade, não vai ficar. Abre mão até de um melhor salário para poder ir a um lugar que sinta que sua contribuição está sendo valorizada”.
Neidy Christo, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos – Seccional Espírito Santo (ABRH-ES), tem observado que, principalmente entre os mais jovens, mudar de emprego se tornou uma estratégia de desenvolvimento da carreira.
É o caso do engenheiro eletricista Vinicius Melo, de 29 anos, que não via perspectivas de aumento salarial na empresa onde trabalhava e começou a buscar outra oportunidade pelo Linkedin.
Ao receber uma proposta para ganhar 30% a mais, pediu demissão. A mudança ainda trouxe um benefício que não esperava: o trabalho em home office, que, segundo ele, garantiu mais qualidade de vida. “Por ser jovem, desde o primeiro emprego, entendi que precisava ganhar experiência, ganhar bagagem. Fiquei seis anos lá e, depois, fui para outra empresa. Com o tempo, vi que não tinha perspectiva de aumento. Aí comecei a procurar”.
Para o economista Ricardo Paixão, os jovens possuem naturalmente maior mobilidade ocupacional. “Estão no início da trajetória e experimentando empresas, setores e ocupações. Também costumam possuir menor custo de mudança. O trabalhador mais velho pode ter filhos, financiamento imobiliário e outras obrigações financeiras que tornam mais arriscada a troca”.
Ambiente saudável é a chave
Ok. Os jovens estão pedindo mais demissão. Mas, em um cenário onde empresas até “roubam” talentos umas das outros, o que fazer para que eles e outras gerações permaneçam? Segundo especialistas essa é uma pergunta com várias respostas.
Para Sátina Pimenta, psicóloga, uma das soluções pode estar na adaptação à Norma Regulamentadora que trata da gestão dos riscos psicossociais nas empresas. “A geração Z pede mais demissão. É uma nova geração que opta por locais que sejam mais saudáveis para trabalhar. Então quando alinhamos a NR-1 na empresa, retemos talentos com maior facilidade”.
Investir na formação das lideranças, criar perspectivas de carreira, melhorar a comunicação e fortalecer políticas de reconhecimento pode impactar diretamente a retenção, segundo a psicóloga Gisélia Freitas.
“Acredito que a pergunta que toda empresa deveria fazer é: por que um bom profissional escolheria permanecer trabalhando aqui? Se a organização não consegue responder isso com clareza, provavelmente o profissional também não”.
Ela recomenda tratar gestão de pessoas como parte da estratégia do negócio e não apenas como responsabilidade do RH.
Falta de flexibilidade reduz atração e retenção
Uma organização que pode oferecer flexibilidade - como trabalho remoto ou híbrido - e escolhe não oferecer precisa entender que isso pode reduzir sua capacidade de atração de talentos e retenção em todas as gerações. É o que diz Gisélia Freitas, psicóloga e diretora de Liderança, Cultura e Diversidade do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.
“Hoje, muitas empresas disputam talentos não apenas com concorrentes locais, mas também com concorrentes de outros Estados e países. A flexibilidade se tornou um elemento importante da proposta de valor da empresa”
Ela cita um estudo publicado na revista Nature, com mais de 1.600 profissionais, que mostrou que o trabalho híbrido reduziu em cerca de um terço os pedidos de desligamento sem prejudicar o desempenho. “A flexibilidade pode ser uma vantagem competitiva, especialmente para profissionais qualificados”, diz.
Empresa podem perder funcionários por causa da possibilidade ou não de home office, concorda Ricardo Paixão, presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES).
“A pandemia demonstrou que várias ocupações podem ser desempenhadas fora da sede física da empresa. Isso alterou a percepção dos trabalhadores sobre tempo, deslocamento e qualidade de vida”, destaca.
Neidy Christo, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos Seccional Espírito Santo (ABRH-ES) ressalta que nem toda área ou trabalhador pode exercer seu trabalho de forma remota ou híbrida. Isso não significa que outros benefícios não possam ser oferecidos como forma de compensação ou recompensa.
Dicas e conselhos para empresas e colaboradores
Avalie bem
A troca de emprego não vai funcionar para todos. Por isso, é importante que o trabalhador avalie bem se o novo cargo vale a pena. Também precisa entender que toda nova empresa é um recomeço e que será preciso tempo para adaptação, mostrar seu serviço e contribuir.
Escute
Diante dos aumentos progressivos de pedidos de demissão, as empresas precisam escutar mais seus colaboradores e entender por que eles estão ficando ou saindo. Realizar pesquisas de clima ao menos uma vez por ano, analisar indicadores e praticar na empresa escuta ativa é fundamental, assim como conduzir bem as entrevistas de desligamento.
Treine
Benefícios não compensam uma liderança ruim no que concerne a permanência. Treine as lideranças diretas já que são elas que impactam a experiência do dia a dia no trabalho.
Fale sobre expectavivas
É importante que as empresas sentem com seus empregados e conversem sobre expectativas de carreira. Mesmo que sua empresa não tenha um plano de cargos e salários, é importante sentar com o colaborador e dizer onde ele pode chegar na empresa. Isso pode ajudar a retê-lo.
Ficar!
Juventude muitas vezes também significa impaciência. Mas não adianta ter pressa para mudar de emprego ou ganhar uma promoção. Às vezes vale mais ficar na empresa para aprender o ofício, amadurecer e evitar problemas.
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