Independência financeira: mais jovens adiam saída da casa dos pais
Dados mostram que o número de brasileiros entre 25 e 34 anos que continuam morando com os pais aumentou 137% em 10 anos
Em busca da sonhada independência financeira, muitos jovens têm adiado a escolha de ir morar sozinho. O que antes era um marco da vida adulta, agora acontece mais tarde, impulsionado pelo alto custo de moradia e por novas prioridades de vida.
Segundo um levantamento da Kantar Ibope Media, o número de brasileiros entre 25 e 34 anos que continuam morando com os pais aumentou 137% em uma década, um fenômeno conhecido como “geração canguru”.
De acordo com o professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Everlam Elias Montibeler, o alto custo de moradia está entre os principais fatores que explicam essa realidade.
“Vitória, por exemplo, tem um dos metros quadrados mais caros do Brasil. Isso encarece a compra e o aluguel dos imóveis, contribuindo para que muitos jovens posterguem a saída da casa dos pais.”
Além disso, o professor afirma que as mudanças no mercado de trabalho têm aumentado a insegurança financeira, com maior flexibilização das relações e dos contratos de trabalho. “Isso dificulta o planejamento e aumenta o desafio de manter o padrão de vida que os jovens tinham com os pais.”
Os gastos iniciais de uma vida sozinho também pesam na decisão, avalia o economista Ricardo Paixão. “São gastos com móveis, eletrodomésticos, adaptação do imóvel e, em muitos casos, necessidade de financiamento”.
Além do fator econômico, a psicóloga Sátina Pimenta, coordenadora de Psicologia da Estácio de Vitória, diz que os jovens hoje têm outras prioridades.
“Muitas vezes, eles preferem usar os recursos que têm para investir em viagens, estudos e outros projetos pessoais.”
Mas esse novo modelo de família não significa uma falta de amadurecimento, de acordo com a psicóloga Clislaine Oliveira.
“O amadurecimento é algo psíquico. Antes, era preciso um marco geográfico, como mudar de casa, para marcar a independência. Hoje, o conceito de ser adulto está mais ligado a uma autonomia financeira e à capacidade de gerenciar as próprias crises.”
Ainda assim, ela reforça que é preciso ter cuidado para que a convivência não cause uma estagnação do desenvolvimento.
“Se o adulto não contribui com as tarefas domésticas e não tem planos de autonomia ou se a dinâmica familiar impede o estabelecimento de uma identidade própria, essa relação passa a ser algo prejudicial”.
Planos para quando se formar
Enquanto busca estabilidade profissional e financeira, a estudante de Direito Marina Calviño Genelhu, de 23 anos, decidiu permanecer morando com os pais Robertha Genelhu Calviño, de 50 anos, Paulo Calviño Garcia, 52 anos, e com o irmão Bernardo Genelhu Calviño, de 20 anos.
Para ela, esse modelo ajuda a se organizar financeiramente para os próximos passos da sua vida.
“Essa facilidade de ter meus pais me ajuda a focar nos meus estudos e planejar a minha vida com mais tranquilidade.”
Ainda assim, ela reforça que sua família a incentiva a construir sua independência.
“Penso em morar sozinha quando me formar. Mas, por enquanto, esse apoio deles é fundamental e eu gosto muito da nossa convivência.”
“Conseguimos cuidar uma da outra”
Morar sozinha, por enquanto, não está nos planos da pedagoga Manuela Messias Farias, de 29 anos. Ela, que mora com a mãe Rosângela Messias Farias, 63 anos, diz que gosta do modelo porque as duas se ajudam.
“Eu sempre fui muito próxima da minha família. Eles sempre cuidaram de mim e, agora, que estou mais velha, acho que preciso retribuir tudo isso. Morando juntas, conseguimos cuidar uma da outra.”
Os números
137% aumento, em 10 anos, de adultos que residem com os pais no País
46% dos adultos voltam para a casa dos pais nos Estados Unidos
2,8 número médio de pessoas por residência, segundo o ibge
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