Guerra no Oriente Médio: preços devem parar de subir com alívio em conflito
Reabertura de rota estratégica traz alívio ao petróleo, mas impacto na economia depende de câmbio e cenário internacional
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Com a reabertura do Estreito de Ormuz – rota marítima crucial por onde passam cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo – e alívio em conflito, os preços devem parar de subir.
As próximas horas, segundo o economista Ricardo Paixão, serão decisivas para observar se haverá, de fato, um aumento no fluxo de navios pela região ou se as preocupações com segurança e possíveis cobranças manterão a cautela no setor de navegação internacional.
Para Daniel Carvalho, coordenador dos cursos de Relações Internacionais e Comércio Exterior da UVV, é importante pensar que houve um alívio “com cautela” por causa do cessar-fogo. Mas ele destaca que é fundamental lembrar da fragilidade desses acordos.
“Mesmo supondo que haja um acordo abrangente e que seja celebrada a paz, muito além do cessar-fogo, o choque logístico que aconteceu demora para voltar ao normal.”
De acordo com ele, a normalização ainda deve levar algumas semanas. “Os mais variados analistas — e eu estou nessa linha também — estimam que a normalização do tráfego em Ormuz, especialmente para navios petroleiros, deve acontecer por volta de meados de maio”.
Só depois os efeitos positivos devem começar a aparecer. “É a partir daí que começamos a ver a boa notícia, com os preços voltando ao normal. Antes do meio de maio, não devemos ver essa normalização”.
Ainda assim, ele pondera que a manutenção do cessar-fogo já pode trazer algum efeito imediato. “Com a manutenção desses acordos, a tendência é que os preços pelo menos parem de subir. Claro que outros fatores, como questões domésticas, ainda podem pressionar os preços, mas esse vetor específico, enquanto houver cessar-fogo — ou até um avanço para um acordo de paz — tende a deixar de empurrar os preços para cima”.
Já o economista e diretor da Faculdade Capixaba de Negócios (Facan), Marcelo Loyola, cita que o alívio nas tensões reduz um dos principais riscos recentes à economia global: a pressão sobre o petróleo.
“O cenário é favorável para interromper a alta de preços no curto prazo e até gerar quedas pontuais, especialmente em combustíveis. No entanto, é cedo para afirmar uma tendência consistente de baixa. O repasse ao consumidor depende de câmbio, política de preços e dinâmica interna”.
Estado adere a acordo para dar desconto no litro do diesel
O governo do Estado aderiu ao regime emergencial criado pela União para garantir o abastecimento de combustíveis e reduzir os efeitos da alta do petróleo, pressionada por conflitos no Oriente Médio.
A medida busca assegurar a oferta de diesel e gás natural e amenizar impactos no dia a dia, já que o diesel é base do transporte de cargas no País e sua alta pressiona os preços de praticamente todos os produtos.
“Nossa decisão busca proteger diretamente o bolso dos capixabas. Sabemos que o diesel é o motor do transporte de cargas, e qualquer alta chega rapidamente ao preço da comida, dos remédios e das roupas. Ao custearmos parte do litro importado, estamos agindo para conter um aumento em cadeia e preservar o poder de compra das famílias em um momento de incerteza internacional”, disse o governador Ricardo Ferraço.
O Regime Emergencial prevê o pagamento de uma subvenção de R$ 1,20 por litro de diesel para empresas importadoras. Subvenção é um apoio financeiro concedido pelo poder público para reduzir custos e evitar aumentos de preços ao consumidor. Desse total, R$ 0,60 serão pagos pela União e R$ 0,60 pelo Estado. Com a adesão, o Espírito Santo passa a bancar R$ 0,60 por litro de diesel importado.
A Medida Provisória (MP) do governo federal será aplicada em abril e maio, e ocorre em um contexto em que o Brasil importa entre 25% e 30% do diesel que consome, ficando sujeito às oscilações do mercado internacional.
Em contrapartida ao apoio financeiro, a MP estabelece que importadores e distribuidores cumpram exigências de transparência, como a comprovação de preços por meio do compartilhamento de informações com a ANP.
A Secretaria da Fazenda (Sefaz) informou que também acompanhará os valores praticados no mercado, para garantir que o benefício chegue ao consumidor final. A Medida Provisória prevê punições para práticas abusivas, como aumento injustificado de preços ou recusa no fornecimento.
As multas podem variar de R$ 50 mil a R$ 500 milhões, além da possibilidade de interdição das instalações do infrator. Segundo o secretário Benicio Costa, a estimativa é de um impacto de cerca de R$ 34 milhões na arrecadação estadual nos dois meses de vigência da MP.
SAIBA MAIS
Reabertura
> O Irã anunciou ontem a reabertura do Estreito de Ormuz durante o período de cessar-fogo, que deve durar até a próxima terça-feira.
> Após o anúncio, os preços do petróleo despencaram em todo o mundo. O preço do petróleo Brent, referência internacional, caiu cerca de 10%, para US$ 89,43 (R$ 444,04) o barril, pela manhã.
Como isso afeta o Brasil?
> O País pode se beneficiar desse novo cenário, já que a baixa do petróleo Brent invariavelmente deve atingir o mercado nacional, que contava, até então, com ajuda apenas de um pacote do governo federal para segurar o encarecimento dos combustíveis no País e o impacto da alta do querosene de aviação no preço das passagens aéreas.
Efeito nas bombas
> Mas o efeito da queda mundial do preço do barril de petróleo pode levar semanas para chegar às bombas.
Moedas
> Ao mesmo tempo, a bolsa e o real registraram apreciação ontem, diante do alívio na percepção de risco global com a reabertura do Estreito de Ormuz.
> Perto das 10h50, o dólar à vista era negociado em queda de 0,52%, a
> R$ 4,9667, depois de ter batido na mínima de R$ 4,9502, o menor patamar ao longo do próprio dia de negociação desde março de 2024.
E a taxa selic?
> A taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic, segue no radar em meio às mudanças no cenário externo. O economista e diretor da Faculdade Capixaba de Negócios (Facan), Marcelo Loyola, lembra que a previsão era de que a Selic chegasse ao fim do ano no patamar de 12,25%.
> “Com a guerra, essa projeção mudou. Entretanto, com o cenário externo mais estável, pode voltar a destravar uma redução mais consistente dos juros, o que aliviaria o endividamento das empresas”, afirma.
> No entanto, a trajetória da Selic ainda dependerá de fatores internos, como as expectativas inflacionárias e a política fiscal. Se o câmbio se acomodar e a inflação ceder, o Banco Central do Brasil ganha espaço para acelerar cortes. Caso contrário, o movimento será mais gradual.
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