Excesso de energia solar desafia o País a buscar superbaterias
Sob pressão para equilibrar a rede, governo prepara leilões em dezembro com mais de 6 mil projetos de armazenamento
O sistema elétrico brasileiro está desafiando o governo federal, diante do excesso de energia fotovoltaica – solar – gerada, a ter que buscar soluções imediatas e a longo prazo.
Uma das medidas são leilões públicos para superbaterias, sistemas de baterias gigantes (BESS), que armazenam o excesso de energia solar e eólica para uso noturno, previstos para dezembro.
Mais de 6 mil projetos se cadastraram para participar destes leilões, segundo a Empresa de Pesquisa Energética, que presta serviços ao Ministério de Minas e Energia.
Esses sistemas funcionam como power banks de celular, mas em dimensão muito maior, é claro. Eles guardam a energia renovável excedente no momento em que a geração está muito alta. Assim, ela pode ser usada em momentos de escassez, em especial à noite.
O Brasil tem uma grande oportunidade de liderar a transição energética, mas o crescimento das fontes renováveis precisa ser acompanhado pela modernização da infraestrutura elétrica, segundo Dayane Florentino, especialista em energia solar. “Transmissão, distribuição, armazenamento e gestão inteligente da energia precisam avançar juntos”, disse.
As baterias serão importantes para aproveitar melhor a geração solar, mas não devem ser vistas como solução isolada, avaliou.
“O governo deveria investir imediatamente em transmissão, armazenamento e inteligência na gestão da rede, e criar mecanismos que incentivem o consumo nos horários de maior geração renovável”, destacou.
Sobre as superbaterias, Carlos Sena, especialista em energia e diretor de Energia e Sustentabilidade do Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico (CDMEC), disse que a ideia é colocar sistemas de armazenamento em pontos estratégicos do sistema para criar um ponto de consumo e um suporte de geração.
Neste momento não dá para bater o martelo sobre qual será a solução definitiva, contou Sena.
“O que acontece é o seguinte: na medida em que há um desincentivo ao investimento nesse tipo de fonte, causado por esses problemas regulatórios e operacionais, dois movimentos ocorrem em paralelo: falta de novos projetos e migração para o grid zero (projetos que operam sem injetar energia na rede pública)”, afirmou.
Desafio do sistema elétrico
O sistema elétrico do Brasil enfrenta riscos de sobrecarga e blecautes não pela falta de energia, mas pelo excesso de geração de fontes renováveis — especialmente a energia fotovoltaica e a microgeração distribuída —, que criam fluxos reversos e desequilíbrios entre oferta e consumo nos horários de pico.
O forte crescimento da energia solar criou uma superoferta durante o dia que não encontra consumo imediato, forçando o corte de geração (curtailment). Para solucionar esse desequilíbrio e evitar sobrecargas na rede, o governo planeja leilões para contratar grandes sistemas de armazenamento de energia em baterias gigantes (BESS), as chamadas superbaterias.
E esse crescimento das energias renováveis está forçando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a fazer ajustes. O ONS tem pedido diariamente a algumas usinas de energia solar e eólica para segurar a produção para evitar instabilidade no sistema.
Cortes de geração
Para reduzir o excesso de geração de energia elétrica no Sistema Interligado Nacional (SIN), o ONS tem feito acionamentos do plano de gestão de excedentes nas redes das distribuidoras para equilibrar a oferta e a demanda de eletricidade.
No último dia 23, foi a segunda vez neste ano que a medida emergencial foi adotada.
Na prática, o ONS impõe uma interrupção na geração de energia de diferentes fontes para evitar um descasamento entre oferta e demanda que possa provocar algum tipo de apagão.
Leilão de superbaterias
O governo federal marcou para os dias 2 e 4 de dezembro o primeiro leilão de reserva de capacidade do Brasil voltado exclusivamente para BESS. A meta é contratar cerca de 5 a 6 gigawatts (GW) de potência para dar segurança ao sistema elétrico nos horários de pico. Uma será restrita a equipamentos com conteúdo nacional, e a outra permitirá componentes importados.
Ao todo, 6.091 projetos interessados em participar se cadastraram. Os empreendimentos vencedores terão contratos de reserva de capacidade com duração de 15 anos e início de suprimento em 1º de agosto de 2028.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) inclusive tentará antecipar a regulamentação da divisão dos custos da contratação de baterias, marcada para 2027, para dar mais segurança aos participantes dos leilões de dezembro.
Tecnologias de armazenamento
BESS
Os BESS (Battery Energy Storage System, ou Sistema de Armazenamento de Energia em Baterias) são baterias de íons de lítio. É o modelo mais comum e comercial atualmente.
Usinas hidrelétricas reversíveis
usam o excedente de energia para bombear água para um reservatório superior e, quando há necessidade de geração, liberam a água de volta para o rio passando pelas turbinas. Há estudos para isso ao longo do Rio São Francisco.
Termoacumulação
transforma o excedente de energia elétrica em calor, armazenando-o em materiais como pó de rocha, sais minerais, cristais de sal ou concreto. Quando se precisa de energia, gera-se vapor para alimentar uma turbina a vapor. É uma tecnologia muito utilizada em Israel.
Energia potencial gravitacional
Projetos (como os desenvolvidos na China) que usam o excedente de energia para subir blocos de concreto/rocha a uma grande altura e os soltam para gerar energia durante a descida.
Novas baterias
Empresas no Canadá desenvolvem baterias de íon de zinco, que são até 10 vezes mais baratas que as de lítio, não tóxicas e com capacidade similar, embora ainda estejam em fase inicial de mercado.
Sistemas para armazenar energia
O armazenamento de energia solar residencial e o conceito de grid zero estão transformando a relação dos consumidores com a rede elétrica.
Com o grid zero, o pequeno consumidor não vai deixar de colocar o painel solar, mas vai instalar associado a um banco de baterias, de tal forma que não vai nem injetar e nem consumir da rede elétrica, segundo Carlos Sena, especialista em energia e diretor de Energia e Sustentabilidade do Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico (CDMEC).
Ele disse que hoje instalar o sistema completo com baterias custa o equivalente a colocar dois sistemas solares residenciais.
“Se um sistema solar residencial de 5 quilowatts-pico (kWp) custa cerca de R$ 30 mil (gerando em torno de 600 a 650 kWh/mês), um banco de baterias proporcional para o mesmo porte vai custar aproximadamente a mesma faixa, entre R$ 20 mil e R$ 30 mil”, avaliou.
A geração distribuída veio para ficar, e a tendência é o consumidor caminhar cada vez mais para a autonomia com o grid zero, disse Sena.
Comentários