Especialistas alertam: carreira vai se alongar e renda na velhice exigirá poupança
Especialistas apontam pressão no INSS, possível nova reforma e avanço da previdência privada como complemento de renda
Apesar de avaliarem que o Brasil não viverá uma “era sem aposentadoria”, especialistas ressaltam que a tendência é a vida profissional se alongar cada vez mais e que a aposentadoria integral mais cedo é coisa do passado, e a próxima geração provavelmente terá de complementar sua renda por conta própria.
Advogado especialista em Direito Previdenciário, Cláudio Gasparini, afirma que a ideia de "trabalhar até morrer", apesar de um exagero retórico, possui um "fundo de verdade".
“O trabalhador de hoje precisa encarar a aposentadoria como um projeto de longo prazo, que combina a contribuição ao INSS com uma poupança ou previdência complementar — e quanto mais cedo começar, melhor”, explica.
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Gasparini avalia que o cenário do INSS é de pressão estrutural crescente, citando que o Regime Geral da Previdência Social fechou o ano passado com resultado negativo de cerca de R$ 317 bilhões, após já ter tido um déficit de cerca de R$ 304 bilhões em 2024.
"Estamos falando de um rombo que equivale a algo em torno de 2,5% do PIB nacional, e que tende a crescer à medida que a população envelhece. O próprio governo federal projeta que, se não mudarmos as regras atuais, o desequilíbrio vai quadriplicar ao longo das próximas décadas".
Gasparini explica que, tecnicamente, a Reforma Previdenciária de 2019 foi desenhada com regras de transição progressivas, o que endurece as regras ano após ano. Mas ele não descarta a necessidade de uma nova reforma ampla no setor.
“Ela é provável no médio prazo. Deve vir já no próximo ciclo de governo, inclusive”, afirma.
Presidente da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), Edson Franco, alerta que a janela para uma nova reforma da previdência está fechando.
Ele explica que, em 2040, o País terá 63 milhões de contribuintes para 50 milhões de beneficiários, e que será necessário realizar uma nova reforma previdenciária para evitar que o INSS “quebre” e deixe de pagar os aposentados.
Para o presidente da Fenaprevi, a questão não se resume ao envelhecimento da população, envolvendo também a falta de contribuições ao sistema formal de trabalho diante da transformação das relações trabalhistas com o crescente fenômeno da pejotização - com mais trabalhadores abrindo mão da carteira assinada para serem profissionais autônomos.
“Nós estamos envelhecendo em ritmo muito mais acelerado, entre duas a três décadas, e não enriquecemos ao longo desse processo”.
Previdência privada cada vez maior
Em um contexto de incertezas sobre a Previdência Social, a previdência privada tem se consolidado como uma alternativa, com o crescimento na procura por planos deste tipo.
Dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) apontam mais de 11,2 milhões de pessoas com planos de previdência privada no País. Desse total, em torno de 220 mil estão no Estado, segundo especialistas. Hoje, 53% das médias e grandes empresas brasileiras oferecem planos de previdência privada aos funcionários.
“O patrimônio acumulado em planos abertos (PGBL e VGBL) já passa de R$ 1,7 trilhão, o equivalente a cerca de 13,7% do PIB, com mais de 11 milhões de participantes. É o brasileiro, na prática, antecipando que não poderá depender só do INSS”, explica o advogado especialista em Direito Previdenciário, Cláudio Gasperini.
A servidora pública e advogada Paula Paraguassu, 44 anos, contou que tem previdência privada desde que foi aprovada em um concurso quando tinha 25 anos, e que fez para suas duas filhas desde bem pequenas.
“Trabalho desde os 13 anos, tinha meu dinheiro, guardava, mas não sabia investir, o que só fui fazer depois de passar no concurso. E minhas filhas – Helena, de 14 anos, e Manuela, de 11 anos – têm suas previdências. Já teve aniversário que, ao invés de presente ou o dinheiro na mão, o valor foi para a previdência”, contou.
Análise
“Desafios para a lei trabalhista com maior permanência”
“O aumento da permanência dos idosos no mercado de trabalho pode ampliar discussões sobre discriminação etária, saúde ocupacional, adaptação do ambiente de trabalho e inclusão produtiva em um mercado ainda muito marcado por preconceitos.
Outro desafio importante é a informalidade, porque muitos trabalhadores mais velhos permanecem ativos, mas em condições precárias e sem proteção adequada.
O cenário reforça a importância de aplicar, de forma cada vez mais efetiva, garantias já previstas no Estatuto da Pessoa Idosa e em outras normas antidiscriminatórias, além de estimular políticas concretas de permanência digna no trabalho.
A idade não pode servir como justificativa para reduzir direitos, restringir oportunidades ou afastar alguém do mercado. Combater a informalidade e garantir que o idoso, mesmo que aposentado, possa ter condições dignas no mercado de trabalho é essencial para uma população que cada vez mais está envelhecendo.”
Entenda
Previdência preocupa
Embora a última reforma previdenciária tenha ocorrido há menos de dez anos, em 2019, três fatores combinados pressionam as contas públicas e reacendem a discussão sobre novas alterações. São eles:
- Alta informalidade, acompanhada de transformações no mercado de trabalho, com ocupações que não contribuem para a Previdência;
- Benefícios indexados ao salário mínimo, com ganhos reais nos últimos anos;
- Envelhecimento da população, somado à queda da natalidade.
- A última reforma conseguiu conter o rombo, sobretudo em 2024 e 2025, mas projeções do próprio governo federal indicam que o déficit do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) pode mais que quadruplicar ao longo dos próximos 75 anos.
- A necessidade de novas mudanças também é reconhecida pelo governo. No ano passado, o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, afirmou que o sistema previdenciário brasileiro está pressionado e que o tema precisará ser discutido.
Recolhimento em queda
- Em 2025, a diferença entre o que foi arrecadado e o que o governo federal teve que colocar a mais para pagar benefícios, aposentadorias e pensões foi de R$ 436 bilhões.
- A maior parte desse dinheiro foi para cobrir o déficit do RGPS: mais de R$ 320 bilhões – R$ 17 bilhões a mais do que em 2024.
- Bernardo Schettini, consultor do Senado, destaca que a retração da arrecadação contrasta com o avanço das despesas. A política de valorização do salário mínimo, explica, eleva as despesas em ritmo superior ao da inflação, uma vez que mais de 60% dos benefícios são indexados ao piso nacional.
- ”É um desafio bem complicado. Nesse modelo que a gente tem hoje, não vejo sustentabilidade”, disse.
População envelhecida
- O consultor da Câmara dos Deputados, Leonardo Rolim, aponta que os dados demográficos também pressionam as despesas da Previdência Social. Rolim alerta que, no futuro, haverá menos contribuintes para sustentar um contingente cada vez maior de aposentados.
- Por isso, o quadro deve se agravar no futuro, com menos trabalhadores na ativa para financiar um contingente maior de aposentados — gerando um rombo crescente ao longo dos anos.
Número de benefícios
- Pedro Souza, analista da Instituição Fiscal Independente (IFI), observa nos últimos anos um aumento do volume de benefícios emitidos. Em termos de crescimento médio, a receita do RGPS aumentou 1,82% a.a., em termos reais, nos últimos 10 anos. A despesa cresceu perto do dobro, um aumento médio de 3,37% a.a.
Pilares sugeridos
- Para a Fenaprevi, a previdência sustentável baseia-se em quatro pilares. O primeiro seria um INSS com teto reduzido a R$ 3,5 mil para a maioria da população. O segundo traria uma contribuição individual obrigatória privada para quem ganha acima do teto. O terceiro pilar seria a previdência complementar voluntária atual. O quarto seria o sistema assistencial universal (estilo BPC), que acolhe idosos independente de terem contribuído.
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