Dívidas afetam sono, humor e saúde mental, diz pesquisa
Pesquisa revela que o bem-estar emocional de 87% dos brasileiros foi afetado nos últimos 12 meses por conta da situação financeira
Depois de superar a dependência do álcool e do cigarro, a vendedora Miriele Griffo, de 48 anos, encontrou nas roupas, nos sapatos e nos perfumes um novo “vício”, que resultou em dívidas.
Com as contas acumuladas, vieram a insônia e a ansiedade, enquanto ela também enfrentava um quadro de depressão, pelo qual já recebia tratamento.
A experiência de Miriele não é isolada. O bem-estar emocional de 87% dos brasileiros foi afetado negativamente em algum grau nos últimos 12 meses, por conta da situação financeira, segundo pesquisa da 99pay. Ansiedade, tristeza, medo, impotência e insegurança estão entre as manifestações associadas a esse tipo de preocupação.
O levantamento ouviu 1,5 mil brasileiros de todas as regiões do País, por meio de questionário online. Outro estudo, realizado pela Serasa em parceria com a Opinion Box, também identificou a relação entre dificuldades financeiras e perda de sono: sete em cada 10 entrevistados relataram que as dívidas já haviam prejudicado o descanso.
Mas por que o dinheiro mexe tanto com a saúde mental? De acordo com a psicóloga clínica Marcela Fernandes, sócia-fundadora da Cooperativa de Trabalho dos Psicólogos do Espírito Santo (Coopsi), o dinheiro não representa apenas números, mas funciona também como um importante intermediário social e emocional.
“Ele determina, em alguma medida, a quais lugares, experiências e grupos conseguimos ter acesso e está relacionado a necessidades humanas importantes, como segurança, autonomia e liberdade”, explica.
Por isso, segundo Marcela, quando uma pessoa está endividada, ela não está simplesmente olhando para um número negativo no aplicativo do banco.
“Ela pode estar lidando com a sensação de ter perdido o controle, de não ter conseguido dar conta das próprias responsabilidades e, muitas vezes, com a percepção social de que isso representa um fracasso pessoal. A dívida pode atingir a autoestima, provocar medo do julgamento e fazer com que a pessoa passe a se enxergar de maneira diferente”.
É preciso atenção para a seguinte situação, alerta o psiquiatra Gilson Giuberti Filho, da Unimed Vitória: à medida que o valor das dívidas aumenta, também crescem a angústia, a ansiedade e o desespero. “Nesse cenário, a pessoa pode adotar comportamentos impulsivos ou tentar fugir do problema, atitudes que, em algumas situações, podem trazer consequências bastante perigosas”.
“Sociedade prega consumo como meta de felicidade”
Com um shopping inteiro na palma da mão, comprar nunca foi tão fácil. Nas redes sociais, anúncios, influenciadores e tendências alimentam o desejo de consumir. O que começa como uma compra por impulso na internet pode se transformar em um hábito difícil de controlar.
“Em uma sociedade que prega o consumo como meta de felicidade, não há dúvida de que o endividamento será um dos sintomas sociais evidentes”, analisa o psiquiatra Gilson Giuberti Filho, da Unimed Vitória.
Segundo o médico, ter como meta a elevação do status por meio do consumo de marcas cada vez mais sofisticadas, caras e em dia com a moda, também traduz um esvaziamento do sentido da vida. “Não há felicidade duradoura nesses pseudocircuitos de consumo”.
Marcela Fernandes, sócia-fundadora da Cooperativa de Trabalho dos Psicólogos do Espírito Santo (Coopsi), aponta ainda que o comportamento financeiro também pode funcionar como uma tentativa de aliviar um sofrimento emocional.
“Em momentos de estresse, por exemplo, algumas pessoas podem recorrer às compras, à comida ou a outros consumos como uma forma de buscar prazer, conforto ou distração – o famoso 'hoje eu mereço' ou 'só se vive uma vez'. O problema é que esse alívio é imediato, enquanto as consequências financeiras aparecem depois”.
Quando a pessoa percebe que saiu do orçamento, podem surgir culpa, vergonha ou sensação de perda de controle, aumentando novamente o estresse e favorecendo a repetição do comportamento.
“Algo que começou como uma tentativa de lidar com o sofrimento pode acabar contribuindo para a manutenção ou o agravamento do problema financeiro”.
SAIBA MAIS
Dívidas e saúde mental
87% dos brasileiros afirmam que a situação financeira afetou negativamente o bem-estar emocional em algum grau nos últimos 12 meses.
Impactos emocionais por causa das dívidas
46% sentem ansiedade
40% sentem frustação
33% insegurança
26% tristeza
24% medo
23% impotência
Outros impactos pela pressão financeira
30% Já abriram mão de dormir bem
29% De investir nos próprios estudos
24% Adiaram ou deixaram de fazer consultas médicas
15% Deixaram de buscar atendimento psicológico
Fontes de desgaste emocional
37% - atraso no pagamento de contas e dificuldade de guardar dinheiro.
33% - medo de um gasto inesperado.
31% - crescimento das dívidas.
29% - necessidade de pedir dinheiro emprestado.
Quando procurar ajuda
Não existe um único sinal que determine a necessidade de acompanhamento psicológico, mas é importante observar três fatores:
> Intensidade: quando o sofrimento se torna difícil de administrar.
> Persistência: quando a preocupação deixa de ser pontual e permanece.
> Impacto na vida: quando há prejuízos no sono, no trabalho, nas tarefas cotidianas ou nos relacionamentos.
Sinais de que o endividamento está afetando a saúde emocional
> Estresse intenso e preocupação constante.
> Insônia ou dificuldade para dormir.
> Crises de ansiedade.
> Sentimentos de culpa.
> Isolamento social e afastamento da rede de apoio.
Sinais de que está afetando rotina e relacionamentos
> Dificuldade de concentração.
> Queda de motivação e produtividade no trabalho.
> Negligência de outras responsabilidades.
> Irritabilidade e conflitos familiares ou conjugais.
> Sobrecarga e exaustão.
Fator de risco
Alguém que evita encarar a realidade financeira, ignora contas ou teme abrir faturas do cartão de crédito, experimenta níveis muito maiores de estresse por não enxergar saída. Essa percepção de impotência é um fator de risco considerável para a saúde mental e, por consequência, para a prevenção do suicídio.
Fonte: 99Pay, psicóloga Marcela Fernandes e Ministério da Saúde.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários