Desemprego recua a 5,3%, menor taxa até julho na série histórica
Desemprego cai a 5,3%, menor taxa até julho desde 2012, com renda média em R$ 3.762 e ocupação puxada por construção e informalidade
A taxa de desemprego do Brasil recuou a 5,3% no trimestre até julho. É o menor patamar para esse intervalo na série histórica iniciada em 2012, apontam dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados nesta quinta-feira (27).
O indicador estava em 5,8% nos três meses encerrados em abril, que servem de base de comparação. A taxa de 5,3% ficou em linha com a mediana das projeções do mercado financeiro, conforme a agência Bloomberg.
Analistas afirmam que o mercado de trabalho segue mostrando força, mas deu novos sinais de uma leve desaceleração. O comportamento da renda é apontado como um desses indícios.
Na média, o rendimento do trabalho foi de R$ 3.762 por mês no trimestre até julho. O indicador recuou 0,7% ante o período finalizado em abril (R$ 3.786), mas o IBGE considera o resultado no campo da estabilidade.
Isso ocorre porque a variação não foi significativa em termos estatísticos, permanecendo dentro da margem de erro da pesquisa. Os números integram a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua).
"Por mais que o mercado ainda esteja em patamar positivo, há uma perda de ritmo em relação ao que a gente vinha observando até o final do ano passado", diz o economista Rodolpho Tobler, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
Segundo ele, o cenário está em linha com o esperado para a atividade econômica, que tem nos juros altos um desafio para o crescimento em 2026.
O IBGE associou a queda do desemprego ao avanço da ocupação. A população ocupada, que exerce algum tipo de trabalho, foi de 103,3 milhões de pessoas de 14 anos ou mais até julho.
É a maior da série para os diferentes trimestres. O número subiu 1% frente ao período até abril (mais 1 milhão).
"A população ocupada está aumentando e tirando pessoas da desocupação", disse o analista do IBGE William Kratochwill.
O nível da ocupação subiu a 58,9% até julho. O indicador mede o percentual de pessoas que trabalham em relação ao total de 14 anos ou mais.
A proporção é a segunda maior da pesquisa. Está bem próxima ao recorde de 59%, registrado até novembro do ano passado.
O aumento das pessoas ocupadas ocorre em um momento no qual parte das empresas relata dificuldade para preencher os postos de trabalho devido à escassez de mão de obra.
A população desempregada, que está à procura de vagas, recuou a 5,8 milhões até julho. É o menor número da série para esse trimestre. O contingente diminuiu 8% ante o período até abril (menos 503 mil).
CONSTRUÇÃO E INFORMALIDADE PUXAM ABERTURA DE VAGAS
O impulso para a ocupação veio da construção no trimestre até julho. Essa atividade teve acréscimo de 371 mil trabalhadores frente ao intervalo até abril, o que significa avanço de 5,1%.
Segundo Kratochwill, a Pnad detectou aumento de trabalhadores tanto na construção de edifícios quanto em obras de infraestrutura. Pedreiros estão entre os profissionais que conseguiram vagas no setor, disse o pesquisador.
Ele associou a alta do emprego na construção à leve variação negativa da renda no país. O setor reúne trabalhadores com salários menores, o que pode ter levado a média geral do rendimento para baixo.
Para Tobler, do FGV Ibre, a alta na ocupação da construção reflete uma combinação de fatores.
O economista cita a possível reabertura de vagas que haviam sido fechadas em trimestres anteriores, a realização de obras de infraestrutura antes das eleições e o eventual estímulo do começo dos cortes da taxa básica de juros. O BC (Banco Central) iniciou o atual ciclo de redução da Selic em março.
Do total de 1 milhão de ocupados a mais no trimestre até julho, 657 mil estavam em postos sem carteira assinada ou CNPJ, o equivalente a 65,6%. Ou seja, a informalidade deu uma contribuição maior para o crescimento da população ocupada ante o intervalo até abril.
"A renda está caindo um pouco também porque a composição das vagas geradas tem tido um pouco mais de peso da informalidade", afirma Tobler.
"Isso ajuda a reforçar a questão da desaceleração. Quando a gente vê o emprego puxado pela informalidade, é sinal de que não está tendo tanta geração de vagas do mercado formal", acrescenta.
O número de empregados no setor privado com carteira assinada teve variação positiva de 0,4% no trimestre até julho, com acréscimo de 139 mil pessoas frente aos três meses anteriores. O resultado é considerado dentro da margem de estabilidade pelo IBGE.
Ainda assim, o total de empregados com carteira renovou o recorde da série histórica: 39,4 milhões. O resultado mostra que não houve perda de vagas formais.
O rendimento médio da população ocupada (R$ 3.762) seguiu em alta se comparado ao trimestre até julho do ano passado (R$ 3.643). O crescimento nesse recorte foi de 3,3%. Os números consideram valores ajustados pela inflação.
Rodolfo Margato, economista da XP, fala em mercado de trabalho ainda robusto, embora os dados tenham fornecido sinais de desaceleração nas métricas de emprego e renda.
Para Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, os próximos meses devem mostrar uma acomodação gradual dos números, sem deterioração abrupta.
"O cenário-base permanece sendo de desemprego historicamente baixo, menor dinamismo das contratações formais e renda ainda resiliente em termos anuais, embora com perda de tração na margem."
O QUE EXPLICA O DESEMPREGO BAIXO?
Nas estatísticas oficiais, uma pessoa de 14 anos ou mais que não tem emprego precisa estar à procura de oportunidades para ser considerada desempregada. Não basta só não trabalhar.
A taxa de desocupação já havia registrado 5,4% até junho, mas o IBGE evita a comparação direta entre trimestres com meses repetidos. É o caso dos intervalos finalizados em junho e julho.
Conforme analistas, o desemprego baixo para os padrões brasileiros reflete uma combinação de fatores que inclui o crescimento da atividade econômica nos últimos anos. A economia segue com medidas de estímulo do governo Lula (PT) antes das eleições, enquanto o aperto dos juros altos atua em sentido oposto.
Outra questão citada por especialistas é a mudança demográfica em curso no país. Com o envelhecimento da população, a tendência é de que uma parcela dos brasileiros saia do mercado e deixe de procurar ocupação.
Isso reduz a pressão sobre a taxa de desemprego, mas desafia o sistema previdenciário, porque a demanda por aposentadorias tende a crescer.
O mercado de trabalho ainda é influenciado por vagas ligadas à tecnologia. Estudo do FGV Ibre estimou no ano passado que o trabalho em aplicativos reduzia o desemprego em um ponto percentual.
"Hoje em dia, com um telefone e uma bicicleta, você consegue trabalhar. A tecnologia está mudando o mercado de trabalho", afirmou Kratochwill, do IBGE.
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