Cresce número de alunos com mais de 40 em cursos técnicos
Levantamento feito pela reportagem de A Tribuna revela que de 2020 até o momento já são mais de 13 mil matrículas
Eles já possuem décadas de experiência no mercado de trabalho, mas decidiram recomeçar. Uma onda de profissionais com mais de 40 anos está invadindo os laboratórios e salas de aula de cursos técnicos do Espírito Santo em busca de aperfeiçoamento, recolocação profissional ou de uma mudança de carreira.
Um levantamento exclusivo feito pela reportagem de A Tribuna junto às principais instituições de ensino do Estado – Senai, Senac, Ifes e Cedtec – revela que de 2020 até o momento já são mais de 13 mil matrículas apenas desse público.
No Senai, por exemplo, o número de matrículas nessa faixa etária triplicou entre 2021 e 2026, passando de 70 para 215. No Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), o volume de ingressantes passou de 11 para 223 no mesmo período, aumento de 1.927%.
No Senac, somente no primeiro semestre de 2026, foram 956 novas matrículas, o equivalente a 72% de todo o volume registrado em 2025.
Já no Cedtec as matrículas do público 40+ correspondem a 17% do volume total. O curso de Enfermagem é o que de 2020 até o momento teve mais pessoas acima dos 40 anos matriculadas, com 1.617, seguido do curso de Segurança do Trabalho, com 929.
“O aluno acima de 40 anos deixou de ser exceção. O que mudou foi o mercado: a pessoa tem 15, 20 anos de experiência, faz o serviço bem feito, mas na hora da contratação ou da promoção pedem o diploma. Aí ela vem para a instituição formalizar o que já sabe fazer”, afirmou Felipe Pertel, diretor do Cedtec.
Para a diretora de Educação Profissional do Senac, Dianimer Dutra, além da busca de recolocação e mudança de carreira, a expectativa de vida tem levado esse público à sala de aula.
“Hoje, se a pessoa tem 40 anos mas sabe que ainda trabalhará por mais 20 anos, ela busca se requalificar. O curso técnico também possui uma rapidez no retorno, já que o índice de empregabilidade é alto para a formação técnica”.
A pró-reitora de Ensino do Ifes, Sanandreia Perinni, aponta que na instituição houve um aumento de oferta dos cursos voltados exclusivamente para quem já terminou o ensino médio.
“Antes, tínhamos mais oferta de cursos concomitantes (simultâneos ao ensino médio). Agora temos um pouco mais de oferta dos subsequentes, voltados para quem quer uma qualificação específica para mercado de trabalho”.
Incentivo dos filhos foi decisivo
O incentivo dos filhos foi decisivo para que Eduardo Fernandes de Oliveira, de 57 anos, e Renilda Gomes, de 52 anos, voltassem para a sala de aula. Os colegas estudam no Ifes de Cariacica e fazem o curso técnico de Logística.
Renilda, que é formada em Pedagogia e no momento não está trabalhando, conta que sua filha fez o mesmo curso e a encorajou a buscar uma nova qualificação. “Vejo essa formação como uma oportunidade de crescimento profissional”.
“Penso que idade não determina a capacidade de aprender. Voltar a estudar não é uma questão de ter idade certa, mas de ter vontade de crescer, adquirir conhecimento e alcançar seus objetivos. O melhor momento para aprender é quando você decide começar”, afirma Renilda.
Já Eduardo, que está em seu segundo curso técnico, trabalha como supervisor de expedição e foi motivado por seu filho mais novo, Luiz Gustavo, a encarar os livros novamente. Ele divide com o filho a sala de aula. Há 40 anos, Eduardo frequentou o Ifes de Vitória, onde fez técnico em Mecânica.
“Trabalho na área e, quem sabe, com o novo curso, eu possa ter outras opções dentro da minha área de atuação, que muda muito rápido. Temos visto coisas novas quase todo o momento. Além disso, nosso Estado passa por um momento especial de desenvolvimento”.
“Nunca é tarde para buscar conhecimento. O mundo muda rápido todos os dias e precisamos estar atentos”, enfatiza.
Feliz com curso
A experiência como auxiliar de saúde bucal fez com que Selma Fantoni, de 51 anos, se matriculasse no curso de prótese dentária do Cedtec. Desempregada no momento, Selma afirma que já tem onde trabalhar após a conclusão.
“Estou feliz com o curso, acabou um pouco com minha ansiedade. Aconselho a quem puder que estude, mesmo que seja depois dos 50 anos. Conhecimento nunca é demais”.
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