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Redescobrindo o prazer de ler, escrever e crochetar

Encontros às terças-feiras na Casa Cultural Maria José Menezes estimulam leitura, escrita e criação manual como caminho de escuta, tempo e autoestima

Cláudia Sabadini | 27/07/2026, 18:04 h | Atualizado em 27/07/2026, 16:03
Tribuna Livre

Leitores do Jornal A Tribuna


          Imagem ilustrativa da imagem Redescobrindo o prazer de ler, escrever e crochetar
Cláudia Sabadini

Minha mãe nunca precisou ouvir falar tanto em desaceleração para viver em estado permanente de presença. Enquanto criava três filhas, atendia clientes no pequeno salão de beleza, organizava a casa e esperava meu pai voltar das constantes viagens de trabalho, suas mãos quase nunca estavam vazias. Havia sempre uma agulha de crochê ou de tricô entre seus dedos.

Naquele tempo, eu imaginava que ela tão somente fazia lindas peças, mas hoje entendo que fazia muito mais que isso; organizava pensamentos, cuidava das próprias emoções. Talvez tenha sido ali, sem que eu percebesse, minha primeira lição sobre o tempo.

Vivemos em estado de urgências, acordamos olhando o celular, respondemos mensagens enquanto caminhamos, lemos pouco, assistimos a vídeos curtos que nos ensinam a passar rapidamente para o próximo conteúdo. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil permanecer. Permanecer numa conversa, num livro, num pensamento e em nós mesmos.

Não é por acaso que tantas pessoas têm redescoberto práticas que pareciam esquecidas. Clubes de leitura, escrita à mão, bordado, crochê, tricô, cerâmica, jardinagem. O mundo passou a dar nomes sofisticados para aquilo que nossas mães e avós já praticavam intuitivamente: desacelerar para continuar cabendo em suas próprias rotinas.

Tenho pensado muito nisso nas minhas terças-feiras. Enquanto a cidade segue apressada entre o trânsito caótico, reuniões, notificações e prazos, um grupo de mulheres faz um movimento aparentemente simples: senta em roda, abre um livro, escreve algumas linhas, conversa, ri, compartilha histórias num caderno e deixa que uma linha de crochê encontre novamente o seu ritmo. Parece pouco, mas talvez seja exatamente o que mais esteja faltando ao nosso tempo.

É isso que tenho testemunhado no Projeto Entrelaçadas, idealizado ao lado da escritora Regina Menezes Loureiro e desenvolvido na Casa Cultural Maria José Menezes, às terças-feiras, no centro histórico de Vitória. Embora voltado a mulheres, com oficinas gratuitas que unem literatura, escrita e crochê, o que acontece ali diz respeito a todos nós.

Tenho visto mulheres que voltam a escrever depois de décadas. Outras descobrem que sua história merece ser escrita e contada. Algumas chegam em silêncio e, aos poucos, reencontram a autoestima, a confiança e o prazer de criar. Não há fórmulas mágicas; há escuta, presença e tempo. Tempo, talvez seja essa a palavra.

Hoje, quando vejo essas mulheres segurando uma agulha de crochê ou abrindo um livro com delicadeza, volto para a casa da minha infância. Entendo que minha mãe nunca estava apenas fazendo uma peça de crochê; ela construía – e ainda constrói – um lugar onde a vida pode respirar.

Quem sabe seja exatamente disso que precisamos? Menos urgência, mais presença, menos distração, mais histórias. E talvez as nossas terças-feiras — aquelas aparentemente comuns, sem qualquer glamour — ainda possam nos ajudar a encontrar o fio que nos entrelaça àquilo que importa: a nossa própria vida.

CLAUDIA SABADINI é jornalista, escritora e coidealizadora do Projeto Entrelaçadas, ao lado de Regina Menezes Loureiro

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