O alerta de “Adolescência”: filhos abandonados no mundo digital
Confira a coluna de domingo (30)
A minissérie “Adolescência”, em exibição na Netflix, escancara uma realidade incômoda: o processo de amadurecimento de crianças e adolescentes está cada vez mais moldado pelas experiências que vivenciam no ambiente digital.
O drama vivido por Jamie Miller, um garoto de 13 anos acusado de um crime bárbaro, é ficcional, mas poderia estar nas manchetes de qualquer jornal brasileiro.
Mais do que nunca, diante de tantas tragédias reais envolvendo jovens, é essencial que os pais estejam presentes não apenas na rotina física dos filhos, mas, principalmente, em sua vida digital.
Saber com quem conversam, que tipo de conteúdo consomem e quais comunidades frequentam online não é invasão de privacidade — é dever, é cuidado, é amor.
Ignorar esse universo significa correr o risco de criar o que chamamos de “abandonados digitais”: crianças e adolescentes deixados à própria sorte, vulneráveis aos perigos da internet.
Esses perigos vão desde o acesso a conteúdos impróprios até a participação em desafios potencialmente fatais, passando por jogos violentos, aliciamento por pedófilos e o cruel cyberbullying.
Em todos esses casos, o desfecho pode ser trágico.
O que muitos pais ainda desconhecem é que a legislação brasileira já prevê consequências para quem negligencia esse cuidado.
O artigo 1.638 do Código Civil permite a perda do poder familiar por abandono — inclusive quando ele ocorre no ambiente virtual. Já o artigo 133 do Código Penal trata do crime de abandono de incapaz, cuja pena pode chegar a 12 anos de prisão se resultar na morte do menor.
E não faltam exemplos de situações on-line que colocam a segurança e a vida de crianças e adolescentes. Diante desse cenário, a melhor atitude é a prevenção. Os pais precisam buscar mecanismos eficientes para exercer seu dever de vigilância, estabelecendo limites e, principalmente, promovendo o diálogo.
Não se trata de proibir ou controlar com rigidez excessiva, mas de orientar, acompanhar e construir confiança. Ferramentas de controle parental, uso consciente das redes sociais e acordos familiares sobre o uso da tecnologia são estratégias valiosas.
O episódio chocante que abre a série — com a polícia invadindo a casa de Jamie para levá-lo à delegacia — serve como metáfora e alerta. Em vez de esperar que o pior aconteça, é preciso aprender com o exemplo.
A série nos mostra que ignorar os sinais pode custar caro. Por outro lado, famílias que se unem no propósito de educar com presença, escuta e diálogo abrem espaço para que seus filhos cresçam de forma saudável, com senso crítico e responsabilidade no uso da tecnologia.
A adolescência já é, por si só, uma fase desafiadora. Na era digital, os desafios se multiplicam — mas os caminhos para enfrentá-los também. A chave está no envolvimento ativo dos pais.
Mais do que vigiar, é preciso participar. Só assim a tecnologia deixará de ser uma ameaça e passará a ser uma aliada no processo de desenvolvimento das novas gerações.
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