Empreendedorismo acadêmico: uma mudança saudável
Coluna é publicada no jornal A Tribuna
Evandro Milet
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As universidades brasileiras estão em meio a uma transformação profunda. Historicamente vistas como centros isolados do mercado, se convertem em celeiros de novos negócios.
O crescimento do número de pesquisadores empreendedores reflete a urgência de transformar conhecimento científico em riqueza. No entanto, as iniciativas precisam enfrentar barreiras culturais e gargalos tecnológicos.
O primeiro obstáculo é o preconceito ideológico contra a figura do empreendedor, uma herança cultural que remonta às simplificações da teoria marxista e com grande penetração no ambiente acadêmico federal.
Na visão clássica de Karl Marx, a dinâmica econômica se resume ao capitalista que detém os meios de produção e se apropria indevidamente da mais-valia gerada pelo trabalhador.
Essa lente ignora o empreendedor: o indivíduo que assume riscos, coordena recursos sob incerteza e gera disrupção através da inovação, a “destruição criativa” de Joseph Schumpeter.
Nos Estados Unidos, o ecossistema universitário é umbilicalmente ligado ao mercado, gerando gigantes a partir de Stanford e MIT, onde cerca de 30% das patentes se convertem em produtos. A China implementou planos estatais agressivos que transformaram universidades como Tsinghua em incubadoras de escala global.
Também, não adianta o governo investir massivamente em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D&I) se não houver empresas aptas a empregar esses pesquisadores, aproveitando ao máximo o que aprenderam. Sem isso, o investimento público vira fuga de cérebros.
O empreendedorismo ajuda a criar as novas empresas que vão absorver os cientistas que não queiram empreender. Programas como o Catalisa ICT, do Sebrae, tornam-se vitais ao unir laboratórios e o mercado.
Mais de mil propostas de pesquisadores para formarem suas startups deeptechs foram apresentadas e passam por um filtro para escolher aqueles que passarão por uma bateria de consultorias que os preparem para o mercado. Grande parte dos projetos são das áreas de saúde e agronegócio.
O Brasil é uma superpotência agropecuária graças a décadas de pesquisa de ponta da Embrapa e de universidades. Entretanto, a maior parte da cadeia tecnológica de equipamentos pesados, softwares de precisão e insumos biológicos ainda é dominada por empresas estrangeiras.
Somos dependentes da tecnologia externa que viabiliza a nossa maior riqueza. A tecnologia para saúde é uma das maiores esperanças da humanidade e grande necessidade no Brasil. A possibilidade de termos capacidade de inovar com empresas locais passou a ser fundamental em um mundo separado pela geopolítica.
Empresas estrangeiras são bem-vindas, criam empregos e investem no País. Porém, as decisões estratégicas e a propriedade intelectual permanecem em suas matrizes. Para dar o verdadeiro salto rumo ao desenvolvimento, o Brasil precisa de empresas nacionais como healthtechs e agtechs, capazes de projetar e desenvolver novos produtos.
O domínio do ciclo completo de inovação facilita com que os centros de P&D fixem os cérebros mais brilhantes no país.
Casos de sucesso industrial como Embraer, WEG, Gerdau e Marcopolo provam que o capital nacional, quando aliado à capacidade de engenharia, cria indústrias robustas e resilientes, independentes de diretrizes externas.
Se boa parte dos estudantes universitários agora preferem o empreendedorismo ao emprego, chegou a vez dos pesquisadores seguirem esse caminho.
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