Conheça novas técnicas que ajudam casais a realizar sonho de ter filhos
Pesquisas envolvendo IA e técnicas mais eficientes para congelar óvulos estão entre os avanços na medicina reprodutiva
Técnicas mais eficientes de congelamento de óvulos, testes genéticos e até pesquisas envolvendo inteligência artificial (IA) estão entre os avanços na medicina reprodutiva, que buscam ajudar casais a realizarem o sonho de ter filhos.
Entre os recursos já utilizados em clínicas está o Diagnóstico Genético Pré-Implantacional (PGT). A ginecologista Bruna Machado, que atua em reprodução humana na clínica Futuro Fértil, explica que o exame permite identificar alterações nos embriões antes da transferência para o útero.
“Esse exame detecta, por exemplo, alterações cromossômicas. Assim, os resultados ajudam a selecionar os embriões com mais chance de sucesso, especialmente em casos de idade materna avançada, histórico de abortos recorrentes ou falhas anteriores”.
Outra tecnologia que tem chamado atenção é o uso de IA para selecionar embriões com maior potencial de desenvolvimento. No entanto, a ginecologista Brenda Battestin, especialista em Reprodução Humana, ressalta que a técnica ainda não é amplamente usada.
“Atualmente, existem incubadoras chamadas de ‘time-lapse’, que possuem câmeras instaladas e permitem acompanhar o desenvolvimento dos embriões em tempo real. Com o auxílio de softwares, essas imagens podem ajudar na seleção embrionária. Mas ainda não há comprovação de que isso faça diferença nos resultados de todos os casos de fertilização”.
Tecnologias em alta e o que ainda está em estudo
Entre as técnicas que vêm sendo incorporadas ou estudadas na reprodução assistida, especialistas destacam:
Vitrificação de óvulos e embriões: técnica de congelamento ultrarrápido que permite preservar óvulos e embriões para uso futuro, aumentando a sobrevivência das células após o descongelamento
Teste genético pré-implantacional (PGT): identifica alterações no número de cromossomos dos embriões antes da transferência, auxiliando na seleção
IA para seleção de embriões: softwares analisam imagens do desenvolvimento embrionário (como as obtidas por incubadoras “time-lapse”), mas a eficácia ainda precisa de mais comprovação
Maturação in vitro (IVM): coleta óvulos ainda imaturos para amadurecimento em laboratório; pode reduzir a necessidade de estimulação hormonal em casos específicos, porém ainda é pouco difundida
Criopreservação de tecido ovariano: congela fragmentos do ovário para preservação de fertilidade, especialmente antes de tratamentos como quimioterapia; pode haver reimplante em situações selecionadas
Bioimpressão 3D: tecnologia experimental para desenvolver tecidos reprodutivos em laboratório; ainda não está disponível como tratamento
A bioimpressão 3D, por exemplo, é apontada como promissora, mas ainda depende de validação científica. O ginecologista Roney Guimarães, especialista em Reprodução Humana Assistida e diretor médico da Clínica Essya, afirma que são necessários mais estudos.
“Não adianta apenas ter uma estrutura parecida com o tecido. É preciso que ela funcione, receba vasos sanguíneos e seja integrada ao organismo com segurança”.
Mesmo com os avanços, os custos dos tratamentos seguem como desafio. A médica Vickie White, especialista em Reprodução Humana da Clínica Jules White, explica que isso ocorre porque parte dos insumos é importada. “Assim, acabamos ficando reféns das variações do dólar”.
Ainda assim, na avaliação dela, o tratamento se tornou mais acessível ao longo dos anos.
“Há 30 anos, o custo de um procedimento assim era alto, mas em um nível inacessível. Já hoje, é muito mais dentro da realidade. Existem clínicas de baixo custo e até mesmo algumas possibilidades de parcelamento”.
Idade e tempo: quando procurar um especialista
Mesmo com os avanços da medicina, médicos alertam que adiar a busca por tratamentos de reprodução assistida pode reduzir as chances de gravidez. O ginecologista Roney Guimarães explica que o momento de procurar avaliação depende da idade da mulher.
“Se a paciente tem menos de 35 anos, ela pode tentar engravidar durante 12 meses e, se não conseguir, já existe indicação de avaliação de um especialista. A partir de 35 anos, esse tempo cai para seis meses de tentativa”.
Para mulheres acima dos 40 anos ou com condições que podem comprometer a fertilidade — como endometriose ou histórico de quimioterapia — a recomendação é procurar um especialista imediatamente.
“São pacientes que apresentam um risco aumentado, então não dá para esperar”, diz o médico.
A preocupação com a idade se dá pela redução da quantidade e da qualidade dos óvulos com o passar dos anos, processo que se torna mais significativo entre os 35 e 37 anos, e pode comprometer o tratamento. Por isso, as ginecologistas Bruna Machado e Brenda Battestin recomendam planejamento reprodutivo precoce, mesmo quando a mulher ainda não pretende engravidar.
“Uma possibilidade é pensar em congelar óvulos em idade mais jovem para usar no futuro. O problema é que, muitas vezes, as mulheres só pensam nisso quando estão mais velhas e podem enfrentar mais dificuldades, porque uma fertilização in vitro não reverte o envelhecimento dos óvulos”.
Além da queda na qualidade dos óvulos, as médicas apontam que o avanço da idade pode exigir vários ciclos de estimulação ovariana para congelar uma quantidade considerada adequada para tentativas futuras.
Para Vickie White, a maior circulação de informações sobre infertilidade e tratamentos pode contribuir para que mais pessoas busquem orientação.
“Vejo que não existe mais um tabu. As pessoas estão mais informadas sobre o assunto, sem sentir vergonha. E esse é um movimento muito importante”.
Histórias como a de Lívia Salvador Cani, 39 anos, e do marido Igor Suzano Machado, 45, ilustram o tema. Após priorizarem a carreira, o casal recorreu à fertilização in vitro e conseguiu engravidar na primeira tentativa. Hoje, a filha do casal, Marina, está com cinco meses.
“Nós demoramos a comemorar a gravidez por medo de dar algo errado. Quando ela nasceu, lembro que falei: 'Você é de verdade!'. Depois de tudo, era até difícil acreditar que tinha acontecido. Hoje, ter a nossa família é gratificante”.
Após dois anos tentando engravidar naturalmente, Rogéria de Oliveira Carletti, 41, e o marido Marcos Pedro Zanotti, 59, também recorreram à fertilização in vitro. “Psicologicamente, é um processo que traz muita ansiedade para o casal, principalmente para a mulher”, conta Rogéria. O casal conseguiu dois embriões congelados e um deles resultou na gestação de Isabela, hoje com três anos.
Principais orientações citadas por especialistas:
Até 35 anos: procurar avaliação após 12 meses de tentativas sem sucesso (se não houver fatores de risco)
A partir de 35 anos: procurar avaliação após seis meses de tentativas
Acima dos 40 anos: buscar um especialista imediatamente
Com fatores de risco (como endometriose ou tratamentos oncológicos): não adiar a consulta
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