Um presente de amor no Dia dos Namorados: professora vai doar rim para o marido
A professora Lucimar Filomeno vai doar um dos rins para o marido, Joaldo Lima. Transplante está marcado para esta sexta-feira (12)
“Você sabe o que vai dar de presente para o seu marido no Dia dos Namorados?”. Foi com essa pergunta que a professora Lucimar Filomeno, 56 anos, recebeu uma ligação do Hospital Meridional informando que o marido, Joaldo Lima, de 54, faria o transplante justamente no Dia dos Namorados com o rim doado justamente por ela! Ele conta que esse foi o “maior presente que poderia ganhar”.
Joaldo trabalhava como empreiteiro da construção civil. Sua esposa conta que uma das funções que mais gostava era pintar prédio, sentado em um balancinho. Um ano e seis meses atrás sua vida mudou.
Ele descobriu em um exame que só tinha 8% da função renal. “Foi silencioso. Não senti nenhum sintoma. Eu só estava enfraquecendo, magro, e o médico me disse que eu ia precisar de um transplante. Foi desesperador”, conta.
O último ano e meio não foi fácil para o casal. Joaldo trocou os canteiros de obra pelo hospital. Três vezes por semana, em Guarapari, onde moram, fazia hemodiálise. “É horrível a sensação. Cheguei a desmaiar”.
Ele também já teve várias internações. Em uma, foi entubado e pensou que ia morrer. “Eu estava quase morto”, recorda Joaldo. Foram 19 dias. Foi nessa época que sua esposa recebeu outra ligação: a de que havia um rim compatível de um doador falecido.
“Ele não pôde fazer o transplante. Estava muito fraco”, recorda Lucimar. A doença não era novidade na família.
Há cerca de 7 anos, Joaldo viu o pai morrer pelo mesmo problema renal. “Ele resistiu por três meses. Não imaginava passar pelo mesmo que ele. Se eu soubesse, teria me cuidado mais”, diz.
Apesar de tudo que viveram, quando conversava por telefone com A Tribuna, ele e a esposa estavam felizes, rindo à toa.
Há cerca de uma semana descobriram que a cirurgia do transplante estava marcada. Lucimar decidiu doar o próprio rim. Para isso, o casal, que estava junto há seis anos, fez o reconhecimento de união estável.
Eles serão internados nesta quinta-feira (11) para o procedimento, que será realizado na sexta-feira (12). Entre risadas e planos para o futuro, aguardam com esperança. “Não estou 100%, mas vou ficar”, brinca Joaldo. “O maior sonho dele é beber um copão de água gelada”, acrescenta Lucimar.
“Eu parei de viver minha vida para completar a dele”
A Tribuna — Como foi decidir doar seu rim para o seu marido?
Lucimar Filomeno — Foi natural. Você vê a vida que a pessoa tinha e os problemas que vai enfrentando no dia a dia, as limitações, o que ele não pode fazer mais, o que não pode comer ou beber.
A cada dia a pessoa vai enfraquecendo. Fica preso naquela máquina quatro horas três vezes por semana. Isso não é vida para ninguém. Você vai vendo isso tudo. No meu caso, eu nem pensei. Posso ajudar doando meu rim? Então vamos ver se sou compatível. E deu certo.
Nunca se arrependeu da sua decisão?
Durante todo esse tempo, somos julgados. Por pessoas próximas e nem tanto. Dizem que sou corajosa, que jamais fariam, que sou doida, me parabenizam. Escutei de tudo que você pode imaginar. Mas nenhuma dessas opiniões me tirou o sentimento de doar, de continuar nesse caminho, nunca me desviei. Sempre fui aquela de fazer o bem.
Como foi para você esse um ano e seis meses desde que vocês descobriram a doença?
Eu parei de viver a minha vida para completar a dele porque praticamente tudo que faz tem que estar junto. A pessoa tem que caminhar junto.
Está ansiosa ou esperançosa pela cirurgia amanhã?
Estou ansiosa. Tenho esperança de que tudo vai voltar a 80% ou 90% de como era nossa vida antes. Só o fato de não ter que fazer hemodiálise já é uma qualidade de vida. Nunca mais vai poder pegar um balancinho e se pendurar em prédios para pintar como gostava. Mas vai poder realizar outras e descobrir novas formas de satisfação no trabalho.
Você concorda que a doação é o maior ato de amor que alguém pode fazer?
Concordo.
Fique por dentro
Doador pode ser vivo ou morto
O procedimento
- Cláudio Borges, urologista e coordenador da área de transplante da Rede Meridional, explica que, na cirurgia de transplante do rim, primeiro é feita a remoção do órgão da doadora. Numa sala vizinha, fica o receptor, já preparado. “O rim sai do corpo da doadora e é implantado em questão de poucos minutos”, diz.
- Normalmente, o paciente que recebe fica mais tempo internado. Já o que doa, entre um e dois dias. “É uma cirurgia de grande porte que tem riscos inerentes a ela, inclusive de não funcionamento”, afirma.
- O processo de doação de rim pode ser feito de duas formas: de um doador vivo ou morto. “No caso do doador falecido, é muito importante que as pessoas conversem com seus familiares para que saibam o que fazer nesse momento difícil”.
Causas da insuficiência renal
- As principais causas são hipertensão e diabetes. “Outro grande vilão é o uso indiscriminado de antiinflamatórios”, diz Cláudio Borges.
- O especialista explica também que há um grande número de pacientes em que não foi descoberto motivo exato para a insuficiência.
Sinais
- Nas fases iniciais, trata-se de uma doença silenciosa. A pessoa vai perdendo o funcionamento do rim e não percebe.
- Por isso, é importante a realização de exames periódicos, principalmente, relacionados à vigilância de glicose, hipertensão arterial e peso corporal. Atividades físicas regulares também são recomendadas.
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