Professor capixaba está entre os melhores do Brasil
Rodrigo da Vitória foi selecionado entre mais de 3,9 mil inscritos com iniciativa que leva o ensino de ciências a detentos de Linhares
O professor capixaba Rodrigo da Vitória está entre os 12 melhores educadores do País. Ele foi reconhecido pelo projeto “Além das Grades: A Ciência como Ponte para a Liberdade”, desenvolvido com estudantes privados de liberdade em Centro de Detenção e Ressocialização de Linhares (CDRL), no Norte do Estado.
Realizado pelo Instituto Somos e pelo Ministério da Cultura, o Prêmio Educador Nota 10 recebeu mais de 3,9 mil inscrições. O projeto, criado pelo professor há cinco anos, leva educação ao sistema prisional, possibilitando aos detentos novas formas de reconhecimento, pertencimento e aprendizagem de projetos de vida.
O trabalho desenvolvido pelos detentos foi apresentado em uma Feira de Ciências realizada no ano passado dentro da unidade prisional. Os matriculados na escola da unidade atuaram como pesquisadores científicos, construíram protótipos e apresentaram as pesquisas.
Segundo o professor Rodrigo da Vitória, essa é uma estratégia para propagar a educação.
“Pessoas privadas de liberdade encontram barreiras físicas, institucionais e sociais para acessar universidades, museus, centros de ciência, laboratórios e outros espaços de cultura científica. A prisão limita a circulação dessas pessoas, mas essa limitação não pode significar a negação do direito ao conhecimento”.
Por meio do projeto, ele busca criar condições para que a ciência chegue até os detentos e, principalmente, para que eles próprios passem a produzi-la.
Desafios
Para o presidente do Instituto Somos, Guilherme Mélega, os projetos finalistas nascem de diferentes contextos e desafios.
“Essas são iniciativas que combinam conhecimento sobre a realidade local, intencionalidade pedagógica, uso de evidências e capacidade de mobilizar estudantes, educadores e comunidades”.
E acrescentou: “Ao dar visibilidade a essas experiências, queremos reconhecer quem está transformando a educação na prática e, ao mesmo tempo, inspirar outros profissionais a adaptar e construir soluções para suas próprias realidades”.
Confira entrevista
A Tribuna: Desde quando o projeto atua em Linhares?
Rodrigo da Vitória: O projeto Além das Grades teve início em junho de 2021, a partir da realização da primeira Feira de Ciências e Mostra Científica com estudantes privados de liberdade. Hoje, ele representa um percurso formativo que começa muito antes da culminância.
A Tribuna: Como surgiu a iniciativa da Feira de Ciências no CDRL?
Rodrigo da Vitória: A iniciativa nasceu de uma inquietação que surgiu da minha própria experiência como educador no sistema prisional.
Ao conviver com estudantes privados de liberdade, percebi que muitos chegavam à escola depois de longos períodos de afastamento com dificuldades de aprendizagem, baixa confiança em suas próprias capacidades e trajetórias marcadas pela evasão e pela exclusão educacional.
A Tribuna: Quais são os principais conteúdos abordados no projeto?
Rodrigo da Vitória: O projeto possui caráter essencialmente interdisciplinar. São articulados conteúdos de Química, Física, Biologia, Ciências e Matemática com conhecimentos de Língua Portuguesa, História, Geografia, Sociologia, Filosofia, Arte e Educação Profissional.
A Tribuna: Quais problemas reais eles conseguiram resolver com o projeto?
Rodrigo da Vitória: Os projetos desenvolvidos pelos próprios estudantes deram origem a soluções como hortas agroecológicas, produção de sabão a partir do óleo de cozinha utilizado na unidade, biodigestor para transformar restos de alimentos em gás e fertilizante, fabricação de desinfetantes de baixo custo, tecnologias assistivas, piscicultura com tilápias, reaproveitamento do isopor das embalagens de alimentação e produção de repelentes de baixo custo.
A Tribuna: Qual a importância desse projeto na ressocialização dos detentos?
Rodrigo da Vitória: Durante o desenvolvimento da feira, ocorre uma mudança: por algumas horas, aquele homem não é apresentado à sociedade a partir do delito que cometeu. Ele é apresentado pelo projeto que pesquisou e pela ideia que é capaz de defender, e passa a ocupar outros lugares sociais.
Fortalece a identidade estudantil, a autoestima acadêmica, os vínculos familiares, a capacidade de convivência e a percepção de que é possível aprender e produzir algo socialmente relevante. A educação oferece elementos para que outras trajetórias possam ser imaginadas e construídas.
Bolsa e prêmio em dinheiro
Prêmio Educador Nota 10
A premiação é realizada pelo Instituto Somos e pelo Ministério da Cultura.
Neste ano, o prêmio recebeu mais de 3,9 mil inscrições nas categorias Professor/Coordenador e Gestor Escolar.
Os primeiros colocados vão receber R$ 25 mil, bolsa integral de pós-graduação no Singularidades e acesso por 24 meses à plataforma PROFS, um ambiente exclusivo e gratuito que oferece cursos de atualização, em modalidade EAD, para educadores parceiros.
Os segundos colocados vão receber R$ 20 mil, bolsa de 50% na pós-graduação e acesso à PROFS por 12 meses.
Já os terceiros colocados vão receber R$ 15 mil, bolsa de 50% na pós-graduação e acesso à plataforma por 12 meses.
As escolas dos professores vencedores na categoria Gestor Escolar receberão R$ 25 mil.
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