Perigo com bicicletas: capixaba que perdeu a perna sofre novo acidente
Ciclista, que já havia sido atropelado por caminhão em 2020, foi atingido por moto enquanto pedalava em direção ao trabalho
Pedalar por vias urbanas e rodovias é um desafio que flerta diariamente com o perigo. No Espírito Santo, o cenário não é diferente e o ciclista Bruno Freitas de Moraes, de 39 anos, conhece bem essa realidade. Ele foi atingido por uma motocicleta enquanto pedalava em direção ao trabalho.
De acordo com o Departamento Estadual de Trânsito do Espírito Santo (Detran-ES), somente neste ano o Estado já registrou 42 acidentes envolvendo ciclistas.
Bruno é atleta desde os 12 anos e já havia se envolvido em um acidente grave antes, em 2020. Ele estava em uma motocicleta e perdeu o pé após ser atropelado por um caminhão. Posteriormente, decidiu amputar mais acima, na canela, por indicação médica.
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No segundo acidente, ocorrido no último dia 8, ele precisou ficar internado após fraturar as vértebras C4 e C5. Parte de sua protese também quebrou, além da bicicleta em que estava.
Apesar do novo susto e de passar a integrar a estatística capixaba, a resiliência de Bruno permanece intacta.
“A maioria das pessoas que amputa fica desanimada. Eu virei essa chave. Ia para a rodovia e chorava de dor. Mas não desisto, meu sonho não tem limite. Se o médico falar que posso voltar a rodar, eu volto. Não desanimo não”.
O número acende um alerta sobre o perigo. O especialista e consultor em segurança viária Anthony Moraes Costa lembra que a cooperação coletiva é a chave para evitar tragédias.
“Respeito aos espaços e ao próximo é a receita básica para um deslocamento seguro. O motorista, ao passar por ciclistas, deve diminuir a velocidade e aumentar a distância lateral, enquanto os ciclistas devem estar sempre à margem da via e, se em grupo, trafegar em fila indiana”.
O tenente Lucas Gabriel Lourenço, chefe da Comunicação Social do Batalhão de Trânsito da Polícia Militar (BPTran), reforça que, embora equipamentos como o capacete sejam altamente recomendáveis, itens como campainha e sinalização noturna são exigências legais indispensáveis.
“É importante que ele tenha a consciência que, pela fragilidade do veículo que utiliza, o cuidado deve ser dobrado, devendo ele se preocupar com todos os aspectos que facilitem o trânsito seguro”.
“Resolvi partir para cima”
A Tribuna — Como foi que amputou a perna?
Bruno Freitas — No início, amputei só o pé. Foi no primeiro acidente, em 2020. Logo depois, consegui uma prótese. Só que usá-la tendo apenas o pé amputado foi ruim demais. Depois de seis meses, fui aos médicos e perguntei o que fazer. Um deles me disse: “Se fosse meu filho, eu amputaria na canela”.
Foi outra situação muito difícil, ter que decidir amputar mais um pedaço da perna. Em 2021, decidi seguir o conselho dos médicos e amputar na canela. Foi a melhor coisa que fiz. Troque a prótese. Aí eu voltei para o paraciclismo. Desde 2021, tenho sido campeão em todas as modalidades: mountain bike, estrada e circuito. Já faz cinco anos que estou ganhando tudo.
Quando o ciclismo surgiu na sua vida e de onde veio essa vontade?
Eu pedalo desde os 12 anos de idade, já tenho quase 30 anos de estrada. Meu pai, que infelizmente faleceu agora em março, aos 55 anos de ciclismo aqui no Estado, também pedalava, e foi ele quem me levou para o esporte.
Quando comecei, com 12 anos, já me destaquei. Com 14, eu já competia e fui campeão na categoria estreante. Depois, fui campeão por mais de três anos seguidos nas outras categorias: sub-23, sub-30 e elite. Fui campeão de tudo.
Por meio de apoios, cheguei a ir para a França competir no L'Étape. Conheci a França graças ao ciclismo.
Depois eu dei uma parada por falta de patrocínio. Fiquei alguns anos sem competir, só rodando mesmo. Foi quando, em 2020, aconteceu o acidente em que perdi a perna. Mas, mesmo perdendo o membro, pensei: “Sabe de uma coisa? Agora eu vou voltar ao esporte”.
Diante das dificuldades, decidi que não ia ficar em casa adoecendo no sofá. Resolvi partir para cima e voltar a treinar. Voltei em 2020 mesmo, logo após perder a perna, e sinto dores que não são fáceis. Vida de amputado é dolorosa.
Qual foi a importância do apoio da família e dos amigos?
Isso foi fundamental. Em 2020, a minha esposa foi uma guerreira. Ela e a família toda, os amigos, ajudaram, mas ela cuidava de mim diretamente. Imagina você ter que limpar um curativo na carne viva de uma amputação? Na primeira vez, ela quase desmaiou olhando. Ela foi muito guerreira.
Na época, eu até conversei sério com ela, porque não gosto de dar trabalho para ninguém. Falei: “Olha, não quero te dar trabalho. Se você quiser tocar a sua vida, eu entendo”. E ela me respondeu: “Você está doido!”.
Você conheceu a competição em duas realidades diferentes: a convencional e, agora, o paraciclismo. Existe muita diferença entre as duas?
Sim, eu tenho experiência nas duas. Quando eu tinha as duas pernas, já era um atleta de ponta no Estado. Ninguém me vencia por aqui. Ganhei por mais de 10 anos seguidos em todas as categorias em que passei. Parei no auge, ganhando, por falta de apoio financeiro. Tive que trabalhar e estudar, me formei em Direito e fui para a luta.
Aí, em 2020, veio o acidente. A diferença é que a maioria das pessoas que sofre um acidente e amputa um membro acaba desanimando, fica no sofá e não quer fazer mais nada. Eu virei essa chave.
No início de 2021, quando fiz a segunda amputação para melhorar a saúde, eu ia para a rodovia treinar e chorava de dor. Doía demais, mas eu insistia: pedalava meia hora em um dia, na semana seguinte passava para 40 minutos, no outro mês fazia uma hora... fui aumentando aos poucos. Sempre que eu fazia mais força, doía tudo de novo. Estou há cinco anos nessa luta e até hoje dói, mas eu não desisto.
Saiba Mais
Sinistros de trânsito
- Somente neste ano, o Espírito Santo já registrou 42 acidentes envolvendo bicicletas.
Cuidados
- Visibilidade Máxima: É obrigatório por lei o uso de iluminação na bike (dianteira, traseira e lateral), buzina e retrovisor esquerdo. Roupas claras ajudam os motoristas a enxergarem o ciclista à noite ou sob pouca luz.
- Lugar Certo na Via: Use sempre ciclovias ou acostamentos. Se não houver, pedale na margem direita da pista, no mesmo sentido dos carros (nunca na contramão). Se estiver em grupo, ande em fila indiana.
- Pontos Cegos: Nunca pedale ou pare perto de caminhões e ônibus. Certifique-se de que consegue ver o motorista pelo retrovisor dele; se você o vê, ele também vê você.
- Proteção Essencial: Embora não sejam obrigatórios por lei, o capacete, as luvas e os sapatos fechados reduzem drasticamente a gravidade de lesões em quedas ou impactos.
- Cuidado Mútuo: O trânsito seguro depende de todos. Motoristas devem reduzir a velocidade e manter 1,5 metro de distância das bikes; pedestres devem evitar caminhar nas ciclovias para não forçar o ciclista a desviar para a pista de rolamento.
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