“Perdi R$ 1 milhão em crack e hoje ajudo a saírem do vício”, relata cuidadora
A cuidadora Marita Ramalhete, de 47 anos, conta como deu a volta por cima após superar o vício com a ajuda de uma missionária
Unhas com esmalte branco, cabelos escuros e brincos dourados e brilhantes, como o sorriso de gratidão. A cuidadora Marita Ramalhete, de 47 anos, vive uma de suas melhores fases. Mas nem sempre foi assim.
Em mais de 30 anos de dependência em drogas ilícitas, como a cocaína e o crack, ela já perdeu mais de R$ 1 milhão, viveu durante quatro anos em situação de rua e hoje descobriu uma missão: ajudar quem quer deixar as drogas.
Oriunda de uma família de classe média alta de Vitória, Marita recebeu, por mais de 12 anos, uma pensão de mais de R$ 12 mil, após a morte de seu avô, além de já ter sido proprietária de um restaurante no centro de Vitória.
O dinheiro, contudo, era destinado à dependência de drogas. A caminhada para a renúncia às substâncias psicoativas não foi fácil: foram mais de 40 internações. O contato com as drogas começou na adolescência.
“Comecei a usar maconha e cocaína aos 13 anos, com a ‘turma da pesada’ da escola. Um dia, ao sair de um restaurante italiano, uma pessoa me ofereceu crack e, então, tudo piorou na minha vida. Vivi por quatro anos em situação de rua e tive de me prostituir. Foram os anos mais difíceis da minha vida. Pensei que nunca sairia daquele lugar”.
A família já havia desistido de ajudá-la e, já descrente de que sairia da situação, Marita conheceu seu anjo da guarda: a missionária Maurina da Silva, de 70 anos. A idosa a acolheu e a ajudou a reconquistar suas esperanças por meio da fé.
“Deus me deu novos propósitos de vida. Perdi R$ 1 milhão em drogas e hoje ajudo quem quer deixá-las. Já consegui um emprego, iniciei o curso técnico em Enfermagem e passei o último Natal em família, depois de muitos anos. Estou com mais esperança na vida”, comemora Marita.
Com mais de 40 anos de dedicação a ajudar pessoas como Marita, a missionária Maurina não tem dúvidas: o propósito de sua vida é dar acolhimento e fé a quem já não tem força para seguir em frente.
“Meu chamado é ajudar as pessoas. Existe um Deus. Recebo ligações de pessoas desesperadas, pedindo socorro, e faço o possível para ajudá-las. Já ouvi histórias assustadoras. Acredito que Deus muda vidas”, conta a idosa.
Vida nova com os estudos e o apoio em consultas
A Tribuna - Olhando em perspectiva, você acredita que há algo em sua vida que te levou às drogas?
Marita Ramalhete - Tive uma infância em berço de ouro, acesso às melhores faculdades, viagens para os Estados Unidos e Europa. Tinha até motorista para ir à escola, mas comecei a usar maconha e cocaína aos 13 anos.
Ao mesmo tempo em que tive tudo isso, eu sentia uma falta de paz, vivia um vazio e nada fazia sentido. Nada me preenchia e sentia uma profunda falta de pertencimento a qualquer lugar. O meu excesso de festas escondia esse vazio.
Como você lida com a abstinência?
Já não tenho mais vontade de usar drogas. Nos trabalhos nas ruas, conto meu testemunho.
Como a fé te ajudou?
Deus me levantou! Perdi muito dinheiro, mas ganhei a vida. Se tivesse R$ 20 mil em um mês, eu gastava tudo em drogas.
Acredito que hoje estou liberta. Jesus me reergueu. É preciso muito cuidado. Qualquer droga pode levar à dependência.
Faço minhas consultas com uma psicanalista e com um psiquiatra, além do acolhimento da irmã Maurina. Tudo isso me fortalece muito para enfrentar a situação.
Você tem novos propósitos de vida?
Quero ajudar pessoas a saírem da dependência. É um caminho que exige muita força. O primeiro passo é, sem dúvidas, querer.
Estou reconstruindo meus sonhos. Faço o curso técnico em Enfermagem e, quando estiver pronta, quero alugar minha própria casa. A hora certa irá chegar.
Está mais fácil desenvolver dependência, afirma médico
A dependência em drogas é multifatorial, ou seja, depende de questões biológicas, psicológicas e sociais. Nos últimos anos, com a maior disponibilidade de novas drogas e um cenário de liderança mundial em ansiedade no País, há maior facilidade em se desenvolver a dependência.
A análise é do professor de Psiquiatria da Ufes Valdir Campos. O especialista reforça a necessidade de se tratar a dependência em drogas como o que ela é: uma doença.
“Hoje, é mais fácil desenvolver uma dependência. Isto já é comprovado. Nos últimos anos, houve um aumento de novas drogas que imitam o efeito de drogas conhecidas, como a maconha, a anfetamina e a heroína. Essas substâncias estão mais disponíveis”.
O psicólogo e psicoterapeuta Gerson Abarca reitera que toda dependência pode ser superada.
“Aqueles que se superam em abstinência passam por um esforço pessoal muito grande, e são pessoas que já revelam muita força. O processo de recuperação é a consciência da dependência e a superação diária em manter-se em abstinência”.
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