IA no Judiciário: "Estamos perdendo uma oportunidade histórica"
Para o desembargador Pedro Feu Rosa, Judiciário deveria se reinventar para aproveitar melhor a Inteligência Artificial
Quando tinha 12 anos de idade, o hoje desembargador Pedro Valls Feu Rosa deu seus primeiros passos no aprendizado da programação de computadores. Anos mais tarde, já no Tribunal de Justiça, seus conhecimentos na área permitiram idealizar e lançar o programa Justiça Volante, com um programa escrito por ele para agilizar as decisões judiciais e solucionar conflitos envolvendo acidentes de trânsito. Vencedor do Prêmio Innovare nacional, mantendo-se atento aos avanços tecnológicos e sempre buscando uma Justiça mais ágil e menos burocratizada, ele acabou por se ver no centro de mais um momento crucial para a instituição da qual é decano: enfrentar a utilização desenfreada da Inteligência Artificial por operadores do direito, sem que o Poder Judiciário tenha ainda resolvido suas mazelas históricas no Brasil. A seguir, a entrevista que ele concedeu ao podcast Estúdio Tribuna Online sobre o tema.
Luciano Rangel - O senhor é decano do Tribunal de Justiça do Espírito Santo e muito ligado à tecnologia. Como está sendo, no Judiciário, a chegada da inteligência artificial?
Desembargador Pedro Feu Rosa - Eu penso que o mundo das leis do Brasil está perdendo uma oportunidade histórica. Está perdendo um bonde da história para se reinventar e para aproveitar de uma forma plena a tecnologia. Eu vejo com pena, com muita tristeza, que o mundo das leis está simplesmente virtualizando e digitalizando o caos, a burocracia estúpida, improdutiva. Isso irá causar ainda um grande mal ao Brasil, particularmente à economia, em não muito tempo, porque nós não temos chegado ao cerne, ao âmago do problema da morosidade, da impunidade, da falta de acesso à justiça.
Nós estamos apenas nos preocupando em digitalizar uma burocracia que já não mais se sustenta. Eu vou pedir licença para colocar, de uma forma bem clara, um pequeno exemplo. Imaginem que eu seja responsável pelo Juizado A e também pelo Juizado B, cujo titular entrou de férias. Então eu estou respondendo temporariamente por dois juizados. Pela manhã, eu estou no Juizado A, preciso de uma informação de algum processo que esteja no Juizado B. Eu não posso atravessar o corredor, pegar a informação e juntar no processo, não. Eu tenho que mandar um ofício para mim mesmo, pedindo que eu me informe sobre aquele processo.
À tarde, eu estarei lá no Juizado B e aí eu vou deferir o que eu pedi a mim mesmo, eu vou preparar uma resposta para mim e eu gosto muito da última frase do ofício de resposta, quando eu digo que eu estarei sempre à minha disposição quando de mim eu precisar. Isso acontece ainda hoje, milhares de vezes, todos os dias pelo Brasil afora. Eu já mandei muitos ofícios para mim e já respondi.
E aí ficou a pergunta, adianta trocar o ofício para mim mesmo por um e-mail para mim mesmo? Não, é a mesma coisa. Adianta eu usar a inteligência artificial para preparar o ofício de pergunta e o ofício de resposta? Eu acho que é até pior, fica algo tão ridículo que aumenta o contraste entre a gente, entre a nossa instituição, o mundo das leis e a tecnologia e a realidade do século XXI. Então nós estamos muito preocupados em usar uma IA generativa para criar minutas, para criar textos e nós não estamos aproveitando a oportunidade para dar uma limpa na burocracia, no atraso, nos formalismos, nas nulidades. Nós não estamos aproveitando esse momento. É uma pena.
A implantação da inteligência artificial tem sido um dilema em todos os segmentos. No setor privado, não poucas vezes nós ouvimos relatos de como essa implementação é difícil. Então, também tem sido assim no Judiciário?
Está sendo feita de uma forma muito perigosa e eu vou começar a minha resposta pelo Reino Unido. Há alguns anos, o governo do Reino Unido contratou uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, a Fujitsu, para conceber um sistema baseado em inteligência artificial para prevenir episódios de corrupção na administração pública. Contratou-se a Fujitsu, repito, uma das maiores empresas do mundo, das mais respeitadas e respeitáveis.
A Fujitsu preparou o sistema chamado Horizonte, em inglês Horizon, e colocou-o em funcionamento. Esse sistema começou a apontar desvio de recursos em dados setores e os responsáveis foram ora presos, ora exonerados, demitidos. Alguns se suicidaram por conta da vergonha da denúncia, outros perderam a família enquanto estavam na prisão e os advogados de defesa simplesmente não tinham como demonstrar a inocência de seus clientes porque toda a culpa estava demonstrada em relatórios brilhantemente redigidos, profundos, repletos de dados, de estatísticas, então simplesmente era quase que impossível demonstrar-se uma inocência.
Muitos anos depois, um dos acusados tinha guardado algumas anotações e por acaso então conseguiu comprovar que estava sem culpa, que era inocente. Disso nasceu um escândalo que virou no parlamento inglês o que nós chamaríamos aqui de CPI. Eu acompanhei essa CPI lá no parlamento inglês, através da imprensa. Me chamou a atenção a fala de um deputado, um membro da Câmara dos Comuns, dizendo que a empresa vai reparar os danos que esse sistema causou. Como? Como se repara o suicídio? Quem vai reparar a família desfeita? Como se recompõe a honra que foi quebrada? Como se recompõe a saúde de quem ficou doente por conta de um escândalo dessas proporções?
Essa fala desse deputado, desse parlamentar, chamou muito a minha atenção. Nós estamos aqui no Brasil começando a repetir este erro. Nós estamos usando a IA generativa sem considerar a possibilidade de se saber o que foi usado para fazer aquele texto, o que entrou na planilha de composição que levou à decisão. Nós estamos começando a usar a IA de uma forma atabalhoada.
Vou dar um pequeno exemplo. Há poucos meses entrou no meu gabinete, no Tribunal de Justiça, um colega. Disse que lá estava para me parabenizar porque eles tinham acabado de usar na Câmara Cível um precedente de minha lavra, e um precedente brilhante. E eu, meio assustado, argumentei que eu sou de Câmara Criminal. Não é possível que aquele precedente fosse meu. E fomos investigar o caso. E eu descobri, apavorado, que a IA generativa criou um julgamento, botou meu nome, criou uma data de julgamento e colocou, inclusive, em repositório de jurisprudência pelo Brasil afora.
Por acaso, eu descobri um. Eu sou um modesto magistrado de um estado pequeno da federação. Que se imagine São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, o nível nacional disso aí. Ou seja, nós estamos criando algo muito perigoso, uma prática muito perigosa. Não se passa mais uma sessão da primeira Câmara Criminal que eu presido sem que apareça lá um precedente que não existe citado por um advogado ou por um juiz em uma sentença.
Outro dia, passou pelas minhas mãos o caso de uma pessoa que foi incluída, indevidamente, em um inquérito pela IA. Essa pessoa passou anos e anos se chateando, sofrendo, tendo que pagar advogados. E ela era claramente inocente. Então, eu fico a me perguntar, com a legitimidade de quem foi um dos pioneiros da introdução da tecnologia no judiciário, e com a legitimidade que me confere mais de 40 anos de carreira, que mundo das leis é este que nós estamos criando?
É possível criar um sistema de defesa contra o mau uso da IA pelos operadores do direito no sistema Judiciário?
É possível, porém complexo. É possível. Eu defendo particularmente duas práticas. Tanto dentro como fora do judiciário. Primeira, todo aquele que for afetado por aquela decisão tem que ter o direito de saber que houve a participação da IA. Quem vai a um banco e tem um crédito negado para comprar uma casa própria, em uma decisão que foi feita pela IA, com a participação da IA, tem o direito de saber que um algoritmo participou daquela decisão.
Isso não acontece nem fora do judiciário e nem dentro do judiciário, nem dentro do mundo das leis. E a segunda, deve ser criado um mecanismo de memória que permita a qualquer um que foi afetado pela decisão saber quais foram as variáveis consideradas para que se chegasse àquela conclusão. Então, hoje, nós vemos, em “n” casos, uma tomada de decisões opaca, porque ela não tem uma referência sobre as variáveis que foram utilizadas para que ela existisse.
Eu defendo, então, como segundo mecanismo que a gente possa proporcionar às pessoas um entendimento cabal do porquê, como se chegou a esse resultado. Eu acho que seriam duas medidas iniciais, isso não preveniria erros, mas seria um bom início de caminhada.
Eu entrevistei o professor Giancarlo Guizardi, que é um especialista em inteligência artificial, e nós falávamos sobre os diversos riscos que envolvem essa tecnologia. Segundo ele, no final das contas, as consequências e os riscos maiores estão no mau uso da inteligência artificial pelo ser humano.
Isso, e no caso do mundo das leis, o risco está na resistência a que se façam verdadeiras mudanças. Vou abrir um parêntese para dar um outro exemplo que chega a ser chocante. Em 1998, eu estive nos Estados Unidos para mostrar aquele primeiro programa meu que fazia sentença. Em 1998, era um sábado à tarde. Eu fui visitar um juizado, e era uma juíza que estava responsável, e lá pelas tantas alguém entrou na sala e falou que uma pessoa havia sido presa em flagrante a 40 quilômetros dali e conduzida a uma prisão.
Ela então nos convidou a assistir à primeira audiência com aquela pessoa. E nós fomos lá, sábado, 5 horas da tarde, 5 e meia, em 10 minutos aquela pessoa já tinha sido ouvida, já tinha sido fixada uma fiança, já tinha sido marcada para sexta-feira da semana imediatamente seguinte a audiência de instrução e julgamento. Aquela pessoa já foi avisada de que deveria comparecer com o advogado e com as suas testemunhas e que naquele dia seria proferida a sentença.
Na hora que a juíza terminou esse ato, eu perguntei a ela se sexta-feira realmente seria resolvido o processo, aí ela falou que sim, e eu fui indelicado, mas movido pela curiosidade, perguntei: mas tudo mesmo? Aí ela sorriu e falou assim: “Pedro, sexta-feira, assim que acabar a audiência, eu vou lhe mandar toda a documentação por e-mail.” E ela fez isso. Eu fico a pensar, já se passaram 28 anos desde aquele dia, e o Brasil até hoje leva anos para julgar coisas simples.
Então, antes de usar a IA, a gente deveria buscar esse tipo de simplificação, tornar a Justiça mais compreensível para as pessoas, mais ágil, mais simples, só depois entrar para lidar com aspectos burocráticos, procedimentos importantes, relevantes, só então usar a tecnologia. Nós estamos fazendo o contrário.
Em evento nacional recente, o senhor falou que a verdadeira modernização do Judiciário virá das mentes humanas, e não das máquinas. É necessário mudar a mentalidade das pessoas?
Eu vou lhe falar algo agora surpreendente. Essa opinião não é apenas minha. Eu, certo dia, estava à toa, futucando o Google Gemini Pro, e aí eu perguntei a ele em que consiste a modernização do sistema judicial, e aí ele me respondeu - um algoritmo, gente!: “Consiste principalmente na eliminação da burocracia e dos formalismos.” Então, ao final, até um algoritmo tem tido mais visão de futuro do que nós.
O senhor mencionou também nessa sua palestra sobre um futuro sombrio que se pode desenhar a partir de uma implantação atabalhoada da inteligência artificial em que máquinas poderão julgar e condenar antes que nós, seres humanos, tomemos o controle da situação. É um futuro distópico. Como é que o senhor avalia isso?
Eu vou começar a minha resposta, e vou me alargar um pouquinho nela, em 1999, há 27 anos. Naquele ano, o Conselho de Inteligência dos Estados Unidos da América publicou um relatório chamado Global Trends, Tendências Globais. Era um relatório de trezentas e tantas páginas, muito longo, no qual eles buscavam prever cenários para o mundo das décadas seguintes. Eu li esse relatório da primeira à última página.
Sobre o Brasil, os pesquisadores norte-americanos disseram que vivia a ilusão de ser um país emergente. E eles nos corrigiram. Era apenas uma ilusão. Porque o Brasil, nominalmente, não é produtor de sequer uma calculadora de bolso. É apenas montador de calculadora de bolso. Nós ainda não tínhamos, como ainda não temos, uma única fábrica de chips. Nós somos um país que, basicamente, tem vivido do extrativismo. Então, eles colocavam como uma ilusão nós nos intitularmos emergentes.
Mas havia uma boa notícia. A partir de 2020, o Brasil seria um dos maiores exportadores mundiais de petróleo e de alimentos. E isso criaria as condições para um ciclo de desenvolvimento econômico sustentável e de longo prazo que, até 2030, nos levaria aos padrões de vida dos Estados Unidos e da Europa, desde que, até 2020, o Brasil reduzisse a níveis normais os índices de corrupção e criminalidade de rua.
Eles falaram que, se o Brasil falhasse nesse dever de casa, a maior parte da riqueza seria desperdiçada, a economia seria brutalmente internacionalizada e o Brasil seguiria rumo à realidade de um país dividido, conflituoso e profundamente desigual. A conclusão deles naquele estudo foi no sentido de que nós não conseguiríamos. E nós não conseguimos. Eu vou à janela hoje, contemplo o meu país e vejo que nós falhamos. E vem a pergunta, quem é nós? Nós falhamos. Quem é esse nós?
Esse “nós” não são os médicos, nem os engenheiros, não é o povo que está aí na rua trabalhando, o povo mais humilde, que muitos preconceituosamente falam Zé Povinho, não. Os culpados, esses nós, somos nós do mundo das leis. Nós que falhamos. Nós não conseguimos proporcionar ao Brasil estabilidade jurídica, nós não conseguimos reduzir no Brasil a impunidade, nós, doutores das leis, é que falhamos. E nós agora continuamos falhando com a adoção atabalhoada da tecnologia, sem considerar a necessidade do momento histórico brasileiro. Nós temos hoje uma Justiça repleta de processos, processos em profusão, muitos dos quais não poderiam existir, não necessitariam estar aí.
E nós, para acabar com isso, estamos começando a utilizar a tecnologia. Essa tecnologia não irá eliminar a morosidade, irá fazer apenas aumentar a estatística. Essa tecnologia continuará não proporcionando ao Brasil a segurança jurídica que ele precisa, a estabilidade, e isso custará ainda mais caro ao meu país nas próximas décadas. Eu vejo isso com muita tristeza. Há alguns anos, lá no Chile, em Santiago, o Centro de Estudos de Justiça das Américas fez uma experiência. Pegou todo o quadro judiciário, multiplicou por 4, e ao cabo de 10 anos, foi ver o que tinha acontecido.
E a morosidade não tinha sido alterada, a instabilidade jurídica continua a mesma. Aí eles cunharam uma frase que eu muito aprecio: “Mais da mesma coisa não adianta.” Nós estamos, aqui no Brasil, cunhando, fazendo mais da mesma coisa, só que digital. Em vez de a gente multiplicar por 10 o quadro de juízes, de promotores, de defensores, nós estamos colocando IA, nós estamos fazendo isso, e não estamos indo no âmago do problema.
Esse custo, para as gerações que me sucederão, que nos sucederão, será um custo alto, porque já dizia um empresário capixaba: “Dinheiro não suporta desaforo.” Não por acaso, 70% de nossas empresas estão sendo entregues a estrangeiros, não por acaso, cada vez mais brasileiros saem do País, porque dinheiro não suporta desaforo.
Se o senhor pudesse alterar a forma de agir do Judiciário hoje, por onde começaria?
Não se espante com a minha resposta. A primeira providência que eu adotaria seria eliminar a figura do juiz singular. Eu defendo com unhas e dentes que os julgamentos deveriam ser predominantemente orais, simples, rápidos e realizados por colegiados. Há uma frase norte-americana que diz o seguinte, justiça é o que o juiz comeu no café da manhã.
Eles querem com isso traduzir a ideia de que se o juiz está com a vida pessoal em ordem, está bem, está descansado, ele tenderá a ser misericordioso em seus julgamentos. Se ele está com problemas familiares, problemas de saúde, se ele está cansado, se ele está com fome, com nível de açúcar baixo, ele tenderá a ser menos misericordioso. Esse mais e menos, segundo a pesquisa que foi feita lá, chega a 30% na fixação de penas. Uma pesquisa similar foi feita lá em Israel e chegou-se ao mesmo resultado.
A quem disser que essa é a justiça dos homens, eu respondo na lata: desde que não seja você, seu filho, seu irmão, sua mãe, seu pai, seu amigo, a estar recebendo a pena 30% mais alta só porque o juiz está com fome! Essa é a justiça dos homens? É muito bom isso. Esse argumento é ótimo, é lindo, mas desde que não seja você a sofrer. Então, a primeira medida, penso eu, seria tornar o processo mais simples. Por que nós temos um processo tão complicado? É para proteger a sociedade dos erros de um só.
A partir do momento em que você tem um júri de juízes, um colegiado de juízes, você vai poder reduzir muita burocracia. Você vai poder voltar àquele exemplo que eu vi nos Estados Unidos em 1998: um julgamento mais rápido, mais simples, algo que as pessoas pudessem compreender. A partir daí, somente a partir daí, é que eu começaria a tratar desse aspecto tecnológico, de como tratar o que terá restado da burocracia. Eu faria isso.
O senhor tem uma iniciativa em andamento na questão da inteligência artificial na Justiça. Como ela funcionaria?
Antes de descrever minha iniciativa, eu quero deixar bem clara a minha posição. Conceitualmente, eu sou contra o que eu estou fazendo. Eu preferiria simplificar a justiça, modernizá-la efetivamente. Conforme o próprio Gemini Pro aconselhou. Agora, como isso não é possível, vamos lidar com a realidade. A gente não pode não fazer nada só porque está fora de alcance fazer tudo. Então, estamos implementando, de uma forma experimental, um sistema baseado em IA não para emitir minutas, não para gerar textos, mas para resolver a burocracia.
Vamos a um exemplo. Um processo chega ao meu gabinete. Um funcionário tem que ficar penosamente ao longo de muitos minutos conferindo se algum outro colega já despachou, já atuou, lá naquele caso. Isso consome tempo, esforço. Então, o sistema fará isso automaticamente. Poderá acontecer que aquele processo envolva um crime que já seja prescrito. Também consome tempo do funcionário. O sistema já fará isso. Para quem irá aquele processo? Para qual assessor? O sistema fará distribuição. O sistema atualizará a tabela de produtividade.
Eu hoje já recebo todos os dias de manhã um e-mail com toda a realidade desse quadro. Em seguida ao julgamento... Aliás, até antes do julgamento há que se fazer uma pauta de sessões. Isso consome horas. Já será feito em segundos. Automaticamente. Há que se depois emitir ofícios, mandados, intimações. E o sistema fará tudo automaticamente. Haverá aquele caso no qual esteja faltando algum documento. Então veio de um juizado sem um documento, sem contrarrazões, sem alguma coisa, sem alguma formalidade.
O sistema já detectará isso e, automaticamente, devolverá. Então a preocupação desse projeto que nós estamos lançando, o nome é Farol, é exatamente focar na burocracia anacrônica, estúpida, que nós ainda temos. E resolvê-la na medida do possível. Essa é a ideia central deste sistema.
Nesse caso, o ser humano estaria no centro da decisão e a inteligência artificial apenas como uma ferramenta que potencializa e economiza tempo do servidor?
Eu vou me permitir, após 40 e poucos anos de carreira, fazer uma confissão. É muito bonito esse discurso, usado por muitos no mundo das leis, segundo o qual o ser humano está no centro da decisão. Que a inteligência artificial compõe uma minuta, mas quem decidirá sobre a aplicação dessa minuta será o ser humano. Esse discurso é bonito, esse discurso seduz, mas esse discurso é claramente inadequado diante da realidade.
Eu vou começar pelo que eu encontro às quartas-feiras, quando vou para a sessão da primeira Câmara Criminal, lá no Tribunal de Justiça. São centenas de processos, centenas, sendo julgados em uma tarde. Outro dia foram 400. Então vem a pergunta, quantos desses 400 eu e meus colegas tivemos condições de analisar com calma, conferir documentos, conferir circunstâncias? Quantos? Nós somos seres humanos, nós não temos condições de olhar esses 400. Então a tecnologia vai acabar nos substituindo em algum momento? Vai, isso já está acontecendo. Eu peço ao meu Deus que eu erre pouco, porque errar eu vou errar, mas que eu erre pouco.
Então esse quadro de dizer que o ser humano está no centro da decisão é bonito teoricamente, mas na prática não está acontecendo e não acontecerá. E se eu parar, se eu me detiver para olhar cada caso com o detalhe que seria exigido, exigível, minha produtividade irá lá embaixo e eu estarei sujeito aos mecanismos de controle. Então o meu nome aparecerá em uma relação de juízes que pouco produzem. Eu estarei sendo alvo de uma investigação para saber o que é que eu estou produzindo tão pouco. Isso acontece comigo e com todo mundo.
Isso acontece dentro e fora do poder judiciário. Daí a minha preocupação, antes de nós lidarmos com essa montanha de processo, seria interessante ver quais deles deveriam existir e quais não. Seria muito interessante que nós pudéssemos ser verdadeiros juízes, não para conferir minutas feitas pela IA, mas para olhar o processo e perceber com a experiência, com a alma de quem está há mais de quatro décadas em caminhada como juiz, poder entender quem é culpado e quem é inocente. Então, não adianta colocar a IA para fazer essas minutas sem que seja dada ao julgador a oportunidade de realmente apreciar o caso. Por isso que eu defendo que o julgamento seja feito de forma predominantemente oral por colegiados de juízes. Para que a gente possa voltar a ser juiz.
Isso seria uma revolução, não?
Não é exclusivo do Brasil esse problema não. Há uns 24 para 25 anos, eu escrevi até um livro sobre isso na época, sobre direito comunitário. Eu fui à Europa, estudar as bases da União Europeia, fazer um curso na França e na Alemanha. Desse curso saíram dois livros. Eu vou relatar uma experiência que eu vi. Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias. É um tribunal que funciona predominantemente de forma oral.
O processo é muito simples e a discussão entre os juízes é feita de forma direta, como nós estamos aqui dialogando. Esses juízes conversam entre si e chegam a um veredito. Eles conseguiram lá criar um tribunal liberto de muitas formalidades, de muita vaidade. Porque eles conversam de uma forma pouco ortodoxa, de uma forma direta, de uma forma simples. Eu vi isso funcionando lá há um quarto de século, há mais de um quarto de século. E até hoje, o nosso sistema judicial, o nosso sistema legal, permanece amarrado, atado àquele direito romano, a sistemas que, no final das contas, existem há mais de dois mil anos. Nós não estamos nos adaptando à necessidade histórica do século 21, principalmente no que toca à economia do Brasil.
A iniciativa para essa transformação, desembargador, deveria vir do CNJ? Deveria vir de onde?
A iniciativa deveria vir de um conjunto, o conjunto do mundo das leis. O CNJ teria sua participação, os tribunais, a advocacia, o ministério público, a defensoria e também a sociedade civil organizada. A imprensa teria sua participação. Agora, o que nós estamos vendo é a materialização daquela frase de Emílio Girardin, jornalista francês, que dizia o seguinte: “Todos falam de progresso, mas ninguém sabe da rotina.”
Nós falamos até agora de uma rotina de absurdos que parece interminável. Tanto é que o senhor está caminhando para o quinto volume de seus livros sobre esse tema. Como é essa experiência?
Bom, primeiro é o título. Por que a rotina do absurdo? Um dos maiores patrimônios que um povo pode ter é a capacidade de pensar. De se abstrair, de se dirigir rumo a um ponto de observação um pouquinho mais distante, e poder interpretar a realidade, compreendê-la, analisar problemas e buscar soluções. Aqui no Brasil, nós já perdemos essa capacidade. Nós vivemos pulando de reforma em reforma. Nós desmoralizamos o escândalo.
Antigamente o escândalo era uma coisa séria, hoje não dura mais do que dois ou três dias nos jornais. Nós estamos vivendo perplexos. Qualquer barulho mais forte nos assusta. Então nós perdemos a capacidade de pensar. Se nós nos afastarmos um pouquinho, respirarmos fundo e olharmos o nosso dia a dia, nós começaremos a perceber que a realidade do Brasil é uma realidade de absurdo. Sem perceber, nós já estamos vivendo uma rotina absurda, fora do normal. Sob todo e qualquer aspecto.
Eu não posso, por exemplo, compreender como é que o Brasil já está sendo considerado pelo mundo narco-estado. E talvez seja verdade, porque nós vemos já aqui em Vitória, regiões ocupadas pelo crime organizado, a céu aberto. Os oficiais de justiça lá do tribunal reclamam que só conseguem cumprir mandado se negociarem entrada nos bairros com traficantes armados à luz do dia. Isso é um absurdo. Isso acontece a 500 metros daqui. E nós não nos damos conta, a gente vai levando.
No Brasil de hoje, vítima virou culpada. Quando alguém nos fala que foi assaltado, levaram o celular na rua ou alguma coisa, logo vem o comentário: “Mas também deu bobeira, estava na rua com o celular.” Então a vítima virou culpada. Isso é um absurdo. Eu não posso compreender como é que aqui no Brasil morrem 20 crianças por dia por falta de esgoto. Doenças causadas por falta de esgoto. E a gente já se acostumou. Isso é um absurdo. E nós não nos damos conta. De exemplo em exemplo, a gente chegará então à conclusão de que o Brasil precisa refletir um pouco melhor sobre sua própria realidade.
Por que um país continental como o nosso não tem ferrovias? Como é que se explica isso? Por que nós somos ainda reféns do extrativismo? Como é que nesse mundo tão tecnológico nós ainda não podemos fabricar uma calculadora de bolso? São absurdos. Então a proposta do livro é analisar a partir de um ponto de vista mais distante esses absurdos da nossa rotina, do nosso cotidiano. É um livro muito bom para curar a insônia dos leitores.
Quem tiver dificuldade de dormir, na segunda página já estará repousando em berço esplêndido. E lançamento só se for na maré para os peixinhos lerem. Então é uma contribuição pequena, mas é a minha contribuição que eu quero dar para uma meditação, uma reflexão por parte de alguns poucos. Nós todos somos responsáveis por alguma parcela de mudança no país. Nós todos, cada um de nós. Então se nós pudermos em algum ponto começar a meditar, a refletir sobre o que está acontecendo aqui no Brasil, aos pouquinhos eu acredito que nós poderemos promover e impulsionar alguma mudança. Eu acredito nisso.
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