Grupos recrutam jovens para espalhar mensagens nazistas
Radicais usam a “internet das sombras” para espalhar o ódio entre facções com até 20 mil participantes, de acordo com um estudo feito por especialistas em segurança na rede mundial de computadores
Com mensagens de ódio, grupos radicais têm usado a “dark web”, conhecida como “internet das sombras”, para recrutar jovens e propagar ideologias nazistas.
Um levantamento feito pelo pesquisador de segurança Mateus Gomes e pelo analista e perito digital Alan Amaral aponta para um conteúdo amplo de apologia ao movimento liderado pelo ditador Adolf Hitler, que matou cerca de 6 milhões de judeus. Também foram descobertos 17 grupos atuando com o Telegram. Entre os participantes, há pessoas de todo o País, incluindo o Estado.
Mateus contou que se surpreendeu com o conteúdo encontrado e, principalmente, com a quantidade de pessoas em grupos com essa finalidade. “Alguns chegam a reunir mais de 20 mil membros”, citou.
A reportagem não irá reproduzir os conteúdos encontrados, mas, entre eles, há fotos e frases que exaltam Hitler como uma figura que valorizava a juventude, ao lado de crianças, e textos de ódio destinados a judeus, reforçando a ideia de superioridade de raças.
Alan explicou que as mensagens de ódio são comunicações que inferiorizam ou incitam a discriminação racial, social e religiosa em determinados grupos.
No perfil de pessoas que integram os grupos, ele ressaltou que a maioria é do gênero masculino, em diversas localidades pelo Brasil.
A maior parte deles está escondida atrás de “apelidos” que não os identificam, além do uso de recursos como aplicativos de conexão com redes privadas, navegadores que permitem a troca de identidade entre os dispositivos ou endereços de e-mail temporários.
Alan explicou que a dark web acaba reunindo conteúdos ocultos, não indexados por mecanismos de pesquisas. Assim, não é possível que sejam localizados em ferramentas tradicionais, como o Google. “Para acessar, requer um determinado navegador ou autorização para acesso. A dark web é usada para manter atividades anônimas e privadas na internet”, frisou.
Mateus reforçou, porém, que, apesar de o uso da dark web e de aplicativos como o Telegram dificultarem a identificação, tudo o que é feito na internet deixa rastros e é possível de ser identificado.
Em alguns grupos destinados à propagação da ideologia nazista, também há venda de material de apologia, como bandeiras do partido, o brasão com a cruz suástica e ainda bustos do ditador alemão Adolf Hitler.
Os produtos podem ser comprados e enviados para todo o País, a partir de R$ 35, segundo as mensagens veiculadas pelos membros.
Na loja virtual, também são comercializadas roupas militares. No canal do Telegram, usado para propagar os produtos, eles chegam a afirmar que, “por questões de segurança, comprar apenas com o nosso @ oficial”.
De olho na comercialização proibida de produtos relacionados ao nazismo, no último dia 22, a Polícia Civil do Rio Grande do Sul instaurou um inquérito para investigar a venda de produtos ligados ao nazismo em uma plataforma digital.
Peças bordadas com símbolos nazistas eram comercializadas por um vendedor da cidade de Gravataí (RS) no Mercado Livre.
Bandeiras e estátuas de Hitler vendidas em grupos
O delegado Maurício Arruda, responsável pelo caso, afirmou que recebeu “notícias sobre o comércio de produtos que visam à divulgação da ideologia nazista” e, por esse motivo, uma investigação foi iniciada. O suspeito foi intimado para prestar depoimento.
Ao menos dois produtos comercializados na página faziam parte da simbologia usada por movimentos neonazistas: patches bordados de uma cruz de ferro com caveira e do símbolo da SS, a polícia de estado da Alemanha nazista. Cada bordado saía por R$ 17,49.
Na descrição, a empresa responsável pela venda informava que vendia no Mercado Livre desde 2010 e, desde então, já tinha vendidos mais de 100 mil peças.
Sobre a veiculação, o Mercado Livre afirmou à imprensa que colabora com as autoridades e que “é proibida a venda de produtos que incitem o ódio ou pregam a violência e a discriminação e isso inclui itens não informativos, relacionados ou que fazem apologia ao nazismo”. A empresa diz que “tais anúncios são excluídos e o vendedor é notificado”.
Lei prevê até 10 anos de cadeia por crimes
A apologia ao nazismo, venda de emblemas e discursos de ódio nas redes sociais são crimes previstos em lei no Brasil, com pena que pode chegar a 10 anos, se somadas.
O tema voltou a ser debatido no mês de fevereiro, principalmente após o apresentador e influencer Bruno Aib, conhecido como Monark, ter defendido a legalidade de um partido nazista brasileiro em um programa que debatia liberdade de expressão.
O delegado regional de Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal, Ivo Silva, explicou que a legislação brasileira define na lei 7.716, artigo 20, que é crime praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência.
“Nesse caso, estão incluídos os crimes de discriminação contra os judeus, por exemplo, defendido pelo nazismo. A pena de reclusão, neste caso, é de um a três anos”.
Ele reforçou que é ainda maior a pena no caso da comercialização de objetos com esses fins.
Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para divulgação do nazismo, tem como pena reclusão de dois a cinco anos.
Já se os crimes são cometidos por intermédio dos meios de comunicação, a pena também é aumentada, de dois a cinco anos. “Desta forma, se a pessoa pratica o preconceito, incita o ódio, por meio de grupos de mensagens, e ainda oferece ou comercializa esses símbolos, a pena pode chegar a 10 anos, somando as duas. Lembrando que esse tipo de crime é inafiançável”.
Ivo Silva reforçou que a atribuição de investigar a prática é da Polícia Federal.
“Apesar de a evolução das tecnologias permitirem que as pessoas busquem o anonimato nesses casos, a Polícia Federal não fica para trás, com a aquisição de equipamentos e capacitação dos profissionais para identificar pessoas que praticam esses crimes. Eles têm uma falsa sensação de anonimato e impunidade, mas estamos atentos”, afirmou.
O delegado não comentou sobre investigações em andamento.
Crescimento
No País, o número de investigações de crimes relacionados à apologia nazista tem aumentado. A Polícia Federal, como um todo, abriu 51 inquéritos entre janeiro e outubro do ano passado; outros 110 ao longo de 2020; e 69 no ano anterior. Nos três anos, o total de investigações sobre o tema supera a média da última década, de 12 inquéritos por ano, entre 2010 e 2018.
“Não houve período igual”, dizem os especialistas
Após mais de 100 anos da criação do nazismo, a existência de grupos exaltando os ideais que mataram milhões de pessoas preocupa especialistas.
Membro do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o professor Sérgio Feldman salienta que o crescimento desses grupos preocupa muito.
“Temos visto pessoas comparando as mortes do nazismo ao comunismo. Mas não há que se comparar. Não houve período igual. O comunismo não é um mar de rosas. O comunismo soviético e o chinês têm um débito grande de supressão de direitos humanos e de mortandade”.
Ele ressaltou, no entanto, que a violência empregada foi diferente pela temática.
“No comunismo soviétivo e chinês, ainda que se matou muito inocente, eram pessoas que resistiam o sistema e que não queriam permitir sua implantação. O sistema considerava que o comunismo era uma forma de resolver o problema das lutas de classe”.
Para ele, não há o que se comparar com o nazismo, em que a destruição foi feita de forma sistemática, organizada, acreditando que a civilização estava relacionada com um certo grupo étnico e racial.
“Negar, diminuir o holocausto, é negar o mal que nazismo fez aos outros povos, não só aos judeus”, afirmou, citando a morte de ciganos, homossexuais e deficientes físicos. “Partia da ideia de que existiam puros e impuros”.
O coordenador do Mestrado em sociologia política da UVV, Pablo Ornelas, fez um alerta importante. “Uma pesquisa evidenciou o crescimento de mais de 270% desses grupos nos últimos anos. Isso causa preocupação, pois são radicais”.
Sobre a atração de jovens para ideias como do nazismo, a psicóloga clínica Marina Miranda destacou que a adolescência faz parte de um período da busca por uma identidade própria, para que o jovem se sinta autêntico.
“Por isso, neste período, existe uma tendência maior de se unirem em grupos. Alguns se juntam em torno de ideais violentos”, disse.
Ela reforçou que o que os atrai diz muito sobre a criação e crenças familiares. “Muitos buscam manter ideias preconceituosas ou de violência que tiveram reforçadas. Outros conseguem quebrar esse padrão na adolescência e construir uma identidade diferente”.
Durante a investigação de uma ameaça de ataque a uma escola, em dezembro de 2021, a Polícia Civil encontrou símbolos nazistas na casa de um adolescente, em Vitória.
Na época, o titular da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC), delegado Brenno Andrade, revelou que o adolescente de 15 anos de Vitória e outro de 17 anos, de Belo Horizonte, Minas Gerais, estavam sendo investigados por fazerem uma publicação em uma rede social, em que afirmavam que realizariam um ataque em uma escola da capital capixaba.
Após investigações, a polícia informou que foram encontrados símbolos da suástica nazista nos aparelhos dos adolescentes.
No dia da ameaça, a direção da escola registrou boletim e agentes da Guarda Municipal reforçaram a segurança no colégio, pois os jovens afirmavam que iriam matar os alunos a tiros e também iriam utilizar um canivete para ter certeza de que ninguém sairia vivo.
Segundo o delegado, o adolescente de 15 anos estava tendo aulas em casa, de forma online, e não queria que as aulas presenciais retornassem. Eles alegaram, na época, que tudo seria uma “brincadeira”.
A Polícia Civil, no entanto, reforçou que esse tipo de caso não é tratado como brincadeira.
ENTENDA
Nazismo
Foi um movimento político e social que surgiu na Alemanha logo após a Primeira Guerra Mundial e alcançou notoriedade em 1933, quando Adolf Hitler tornou-se chanceler da Alemanha.
A partir de então, Hitler impôs mudanças no país, implantando uma ditadura. A cruz suástica tornou-se o grande símbolo do nazismo.
Mortes
A ideologia nazista foi a grande responsável pelo extermínio de cerca de seis milhões de judeus durante o Holocausto.
Além dos judeus, outras minorias (como ciganos, homossexuais e negros) foram perseguidas e aprisionadas em campos de concentração.
Superioridade
Entre os vários pontos que marcaram o nazismo, estava a ideia de que existiam povos biologicamente superiores, surgindo, assim, o ideal de uma raça ariana, que via as pessoas nascidas na Alemanha ou descendentes, como superiores.
Levantamento
Um levantamento feito pelo pesquisador de segurança Mateus Gomes e pelo analista e perito digital Alan Amaral, por meio de conteúdos indexados na internet e na dark web, encontrou conteúdos e grupos no Telegram que promovem discursos de ódio e propagação da ideologia nazista. Pelo menos 17 grupos no aplicativo de mensagens reúnem pessoas com tais propósitos.
Mensagens
Entre as mensagens em grupos com conteúdos referentes ao nazismo no aplicativo Telegram, está a de que Adolf Hitler “valorizava a juventude”. O texto é seguido de várias fotos dele com crianças e jovens.
Também afirmam que os jovens não devem acreditar em nada que é ensinado em livros e nas escolas, que chamam de uma forma de controle de escravidão dos povos.
Em diversos momentos, eles convidam jovens a se juntarem ao ideal e também compartilham vídeos sobre o tema e documentários.
Alguns grupos chegam a reunir mais de 20 mil pessoas.
Anonimato
Na tentativa de permanecerem anônimos na internet, os participantes têm usado aplicativos de conexão com redes privadas e navegadores que permitem a troca de identidade entre os dispositivos.
O pesquisador de segurança Mateus Gomes reforçou que as mudanças permanecem durante determinado período de tempo, até que esse endereço seja modificado por outros, dificultando o rastreamento da origem dessa mensagem.
Outra forma usada para permanecerem anônimos é a criação de endereços de e-mail temporários. Os endereços são criados de forma automática e aleatória e são expirados, após o tempo definido pelo usuário.
Brasil
A lei 7.716/1989 estabelece que é crime:
Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena de reclusão de 1 a 3 anos.
Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo: pena de dois a cinco anos.
Se qualquer dos crimes previstos é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza: a pena é de reclusão de dois a cinco anos.
França
Contestar a existência de crimes contra a humanidade é crime desde 1990, podendo gerar prisão de até um ano e multa de 45 mil euros (R$ 271,6 mil). A legislação também cita como delito o ato de minimizar ou banalizar os genocídios.
Reino Unido
Não há crime em negar o holocausto especificamente –ainda que a legislação enquadre manifestações contra indivíduos de minorias étnicas, raciais e sexuais como crime de ódio.
O país baniu ao menos cinco grupos neonazistas com base em leis de combate ao terrorismo.
Alemanha
proíbe negar publicamente o holocausto e divulgar propaganda nazista. Isso inclui compartilhar imagens como suásticas, usar um uniforme da SS e fazer declarações apoiando a ideologia.
Estados Unidos
O direito ao livre discurso é considerado universal e, por isso, a legislação do país proíbe que pessoas sejam processadas por suas crenças.
Na prática, permite grupos extremistas, mas há punição para aqueles que cometem crimes violentos nesses contextos.
Austrália
Não há legislação específica que trate da proibição do uso de símbolos nazistas. A comunidade judaica pressiona parlamentares a aprovarem leis que vetem manifestações do tipo pelo país, enquanto cresce o número de suásticas e símbolos associados ao regime de Hitler em protestos contra medidas impostas para conter o avanço da pandemia.
União Europeia
Em 2008, a União Europeia (UE) recomendou aos países-membros que incluíssem em suas legislações tipos penais relacionados à negação de crimes cometidos pelo nazismo. Ao menos 17 dos 27 seguiram a diretriz.
Na Hungria, nos cinco anos que se sucederam à aprovação de uma lei nesse sentido, em 2013, mais de 50 pessoas foram processadas. O mesmo se deu na Lituânia, na República Tcheca, na Áustria, na Polônia e na Eslováquia.
Fonte: Especialistas e pesquisa A Tribuna.
Fonte: Pesquisa AT.
Comentários