“Grupos de mulheres são estratégias para garantir a saúde mental”, diz especialista
Grupos femininos fortalecem a saúde mental, reduzem o isolamento e impulsionam mulheres na vida pessoal e profissional
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Se você é mãe ou empreendedora e ainda não participa de nenhum grupo feminino, talvez seja hora de mudar de ideia. A psicóloga Juliana Nascimento, mestra e doutoranda sobre psicologia e carreira pelo Programa de Psicologia da Ufes, aponta que esses espaços podem ser considerados como “estratégias importantes de prevenção em saúde mental”.
“A literatura mostra que suporte social é um dos fatores protetivos contra sofrimento psíquico. Quando mulheres compartilham experiências, constroem rede, validam sentimentos e elaboram coletivamente soluções, elas reduzem o isolamento, que é um dos maiores agravantes do sofrimento materno”.
Juliana aponta ainda que esses grupos incentivam o autocuidado, o investimento na formação, na carreira e na vida social.
“Uma identidade mais ampla favorece equilíbrio emocional e reduz sentimentos de culpa quando a mulher investe tempo em si mesma”.
E quando uma mulher se torna mãe pela primeira vez os desafios podem ser ainda maiores. Foi justamente por isso que a psicóloga perinatal e parental Nayara Teixeira, de 44 anos, criou, em 2019, o grupo Grão Materna, que em março completa 7 anos. Hoje, Nayara e a psicóloga perinatal Caroline Ramalho conduzem o grupo.
“Vi no trabalho com grupos de mães a possibilidade de oferecer o apoio que tanto me fez falta na gravidez e no pós-parto. Acreditamos que, ao acolher e fortalecer as mães, de certa forma abraçamos toda a família, e isso traz impactos positivos para o desenvolvimento do bebê e das relações familiares. Assim, buscamos contribuir para a promoção de saúde mental materna e para experiências de maternidade mais saudáveis e menos solitárias”, afirma Nayara.
Com encontros virtuais gratuitos, mais de 288 mulheres de todo o Brasil já fizeram parte, como a bióloga Alana Ribeiro, de 33 anos, e a oceanógrafa Nathália Betzel, 33. Há ainda grupos fechados, como a Grupoterapia de Mães e o Pré-Natal Psicológico.
“É um espaço onde podemos falar e ser ouvidas, mães carecem disso. E onde também podemos desromantizar a maternidade sem julgamentos”, afirma Nathália.
Para Alana “toda mãe deveria ter um grupo assim”. “Participar do 'Grão' é como se fosse um verdadeiro colo coletivo, principalmente para mim, que largou emprego para viver 100% da maternidade”.
Conexões ajudam a empreender
De uma família de empreendedores, a jornalista e empresária Sandra Freitas, de 59 anos, atuou por mais de 25 anos em uma emissora de TV. A familiaridade com o empreendedorismo levou Sandra a criar um clube que tem levado mulheres a criarem conexões para empreender.
Tudo isso começou, Sandra conta, dois anos depois de ter saído da emissora onde trabalhou durante décadas. Ela lançou um programa com o nome “Vamos Juntas, com Sandra Freitas”, voltada ao público feminino, em que muitas mulheres entrevistadas eram empreendedoras.
Na festa de dois anos do programa, Sandra fez uma festa de comemoração com várias mulheres, que se conectaram. Foi a partir daí que nasceu o Clube “Vamos Juntas Empreender”.
Com encontros mensais e virtuais, o objetivo do grupo, segundo a jornalista, é gerar uma conexão mais próxima entre mulheres e impulsionar os negócios.
“As dificuldades do empreendedorismo são imensas, a todo momento surgem obstáculos. Sozinhas, muitas acabam desistindo, mas juntas elas encontram alternativas e coragem para superar e seguir em frente”.
No clube, Sandra tem uma parceira, a dentista e mentora de mulheres Jussara Macarenco, de 51 anos, que atua na produção de conteúdos e na curadoria de conhecimentos práticos voltados ao crescimento nos negócios.
“O Vamos Juntas é um grupo de conexões voltado ao fortalecimento feminino de forma integral, profissional, intelectual e pessoal. Acreditamos que o desenvolvimento da mulher precisa acontecer de maneira completa, considerando carreira, conhecimento e propósito. Compartilhamos princípios cristãos com nossas sócias, pois essa é a base do que cremos e vivemos”.
A advogada Raquel Fagundes, de 46 anos, mediadora e conciliadora de conflitos judiciais e extrajudiciais, é proprietária da 'Mediamar: solução humanizada de conflitos', e viu no grupo uma oportunidade de crescimento de sua empresa.
“No clube, aprendi técnicas de empreendedorismo, conheci empresárias de diversos segmentos, apresentei meus serviços e fiz captação de clientela. Tive acesso a serviços essenciais para o desenvolvimento da minha empresa”.
Por que participar de um grupo feminino?
Saúde mental
De acordo com especialistas, os grupos funcionam como estratégias relevantes de prevenção em saúde mental. A literatura em psicologia aponta o suporte social como um dos principais fatores protetivos contra sofrimento psíquico.
Ao compartilhar experiências, validar sentimentos e construir soluções coletivas, as participantes desses grupos reduzem o isolamento — um dos maiores agravantes do sofrimento materno — e encontram acolhimento emocional.
Identidade e equilíbrio
Esses espaços ajudam a ampliar a identidade feminina para além do cuidado. Quando há suporte, diminui o risco de a mulher se perceber apenas como mãe.
Os grupos incentivam autocuidado, investimento na carreira e na vida social, reforçando que sustentar múltiplas identidades é psicologicamente saudável e favorece equilíbrio emocional.
Validação de experiências
O compartilhamento de vivências atua como um espelho, mostrando que desafios são legítimos e compartilhados. Isso influencia decisões profissionais ao transformar sentimentos de fracasso em escolhas conscientes, ampliando referências de trajetórias possíveis e fortalecendo a confiança para decidir de acordo com a própria realidade.
Ao conviver com outras pessoas que enfrentam desafios parecidos, torna-se mais fácil reconhecer partes da própria história nas vivências compartilhadas. Essa troca permite aprender com as experiências e conquistas de outras mães e profissionais.
Segurança emocional
O suporte coletivo reduz o medo de perder valor pessoal ou profissional em períodos de transição.
Ao compreender que a carreira é um processo flexível, a mulher recupera o protagonismo sobre sua trajetória e passa a estabelecer limites e prioridades com mais segurança.
Efeito nas relações familiares
O fortalecimento emocional gera efeito cascata nas relações. Com mais suporte, a mulher tende a se sentir menos culpada e mais disponível emocionalmente, melhorando o vínculo com filhos e parceiros e favorecendo uma comunicação mais assertiva e redistribuição de responsabilidades.
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