“Fiquei 90 dias sem andar após ser atropelada por bike elétrica”
Amanda Braga ficou três meses sem andar após ser atingida por uma bicicleta elétrica na contramão
Foi ao atravessar a rua a caminho do trabalho em Vila Velha que a costureira Amanda Braga, de 34 anos, acabou sendo atropelada por uma bike elétrica que vinha na contramão.
Ela conta que fraturou a tíbia, um osso da parte inferior da perna, e precisou passar por cirurgia e sessões de fisioterapia para conseguir voltar a andar.
“Fiquei cerca de 90 dias usando muletas e sem conseguir andar. Só depois de muitas sessões de fisioterapia que consegui voltar a me locomover”, lembra.
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Mesmo assim, até hoje Amanda enfrenta dificuldades. “Sinto muitas dores todos os dias e a todo momento. Minha vida mudou completamente”.
A Tribuna — Você lembra de alguma coisa do momento do acidente?
Amanda Braga — Lembro do impacto que eu senti, que foi muito forte. Acho que a pessoa estava em alta velocidade, porque até as minhas coisas voaram para o meio da rua.
Como foi a sua recuperação?
Muito complicada. Logo depois do acidente, fiquei preocupada porque não conseguia me mexer. Depois, fui para o hospital e realizei a cirurgia.
Foram cinco dias de internação até me liberarem para fazer o tratamento em casa, que eu continuo até hoje. Foram muitas sessões de fisioterapia e muitos remédios comprados.
Foram muitos gastos?
Sim. Tive gastos com fisioterapia, medicamentos e curativos por causa do corte da cirurgia. Foram praticamente três meses até o corte fechar e depois ainda teve o processo de cicatrização. Fiz um investimento bem alto com curativos e remédios.
Isso afetou o seu trabalho?
Muito. Eu sou costureira e tenho uma marca de moda praia, então eu tinha um ateliê físico que precisei fechar depois do acidente.
Naquela semana, tinha serviços e encomendas e precisei devolver todos os valores. Eu não conseguia fazer as atividades sozinha, não podia ficar muito tempo em pé e nem sentada.
Depois de tudo, precisei adaptar totalmente a minha forma de trabalhar. Hoje eu atendo em domicílio, por exemplo. Encontrei uma maneira de voltar a trabalhar na qual eu não precise me sacrificar tanto fisicamente.
Além das consequências físicas, o acidente deixou algum impacto emocional?
Com certeza. Esse é um ponto muito importante. Eu não consigo sair na rua da mesma forma. Se escuto o barulho do motor de uma bicicleta elétrica, já fico muito assustada. Foi algo que ficou comigo depois do acidente.
Além de tudo isso, fiquei com uma cicatriz muito grande na minha perna, então tem mais uma questão estética.
A pessoa que te atropelou chegou a prestar apoio?
Depois do acidente, a pessoa parou e chegou a deixar o telefone. Mas quando minha família ligou para explicar a situação e pedir algum tipo de ajuda, a mesma pessoa disse que não poderia fazer nada por mim.
Agora, estamos vendo as questões jurídicas e quero ir atrás dos meus direitos. Até porque eu tive muitos gastos nessa recuperação.
Depois do que aconteceu, como você enxerga essa questão das bicicletas elétricas?
Acho que faltam leis mais eficazes. Os acidentes só têm aumentado e continuam acontecendo. Hoje a gente não se sente mais seguro nem para andar na calçada com medo de algum acidente.
Espero que, pelo menos, falando bastante sobre isso e contando histórias como a minha, alguém faça alguma coisa.
Maioria das lesões é nas pernas
A maioria das lesões sofridas em acidentes graves com bicicletas elétricas ocorre nos membros inferiores, segundo médicos. Além disso, a tendência é que elas sejam mais graves devido à velocidade alcançada pelo veículo.
O ortopedista Jefferson Coelho de Léo explica que isso acontece porque tanto a velocidade quanto o peso do equipamento aumentam o impacto do acidente.
“A chance de precisar de cirurgia é maior do que em acidentes com bicicletas convencionais, porque as fraturas tendem a ser mais graves. Isso acontece justamente pela maior energia do trauma”.
Além disso, fraturas no punho, ombro, clavícula e até no fêmur também podem acontecer, segundo o coordenador da Ortopedia do Hospital Antônio Bezerra de Faria (HABF), Igor Vasconcelos.
“A bicicleta elétrica acaba tendo um fluxo muito diverso: circula na calçada, na pista e também dentro e fora das faixas destinadas às bicicletas. Isso aumenta as possibilidades de lesões”.
O médico destaca ainda que a vítima pode ficar com sequelas permanentes. “Dependendo da gravidade, pode haver uma incapacidade permanente e até o risco de amputação do membro”.
O ortopedista Fernando Lázaro, do Centro de Reabilitação Física do Espírito Santo, diz que os idosos são ainda mais vulneráveis a essas lesões mais graves.
“Apesar de vermos mais adolescentes pilotando essas bicicletas, os idosos correm risco de ser atropelados e, caso isso aconteça, podem ter lesões mais graves por já ter uma fragilidade óssea maior”.
Para evitar esses acidentes, o médico aconselha, além de prudência no trânsito, o uso de equipamentos de segurança.
“A prevenção é o melhor tratamento e o capacete reduz o potencial de gravidade das lesões”.
Outros casos
Batida em carro
Em abril deste ano, dois adolescentes de 14 e 17 anos, que circulavam lado a lado de bicicleta elétrica, ficaram feridos após baterem, ao mesmo tempo, em um carro no bairro Jardim Camburi, em Vitória.
Com o impacto, os jovens foram arremessados e precisaram ser socorridos no local por uma ambulância do Corpo de Bombeiros.
O adolescente de 14 anos bateu a cabeça, foi imobilizado e levado ao hospital para atendimento. Apesar do impacto, não teve lesão grave. O outro, de 17 anos, teve uma lesão no braço e também foi socorrido.
Morte após atropelamento
Uma aposentada identificada como Conceição Pissinali, de 82 anos, morreu em novembro do ano passado após passar 20 dias internada em estado grave depois de ser atropelada por uma bicicleta elétrica na Enseada do Suá, em Vitória, onde morava há 45 anos.
De acordo com o genro de Conceição, o acidente aconteceu na calçada após ela sair de uma farmácia, que ficava a 100 metros da sua casa, quando o veículo veio na contramão e a atingiu.
Após ser socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), ela foi encaminhada ao hospital, onde precisou operar por ter fraturado o fêmur. Por ser paciente renal crônica, a aposentada tinha saúde debilitada e não resistiu.
Na contramão
Um adolescente de 16 anos morreu após sofrer um acidente de bicicleta elétrica em Barra de São Francisco, no Noroeste do Espírito Santo, em dezembro do ano passado.
Segundo a Polícia Militar, o jovem pilotava o veículo na contramão quando colidiu lateralmente em um carro que atravessava a rua Filomena dos Anjos, no bairro Campo Novo.
Com o impacto da batida, ele teria perdido o controle do veículo e colidido em uma parede.
A vítima chegou a ficar nove dias internada em um hospital da região, mas acabou não resistindo.
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