Famílias mantêm a tradição na receita da torta capixaba
Palmito pupunha natural é o preferido na hora de preparar o prato, mesmo com a facilidade do ingrediente em conserva
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No Espírito Santo, é costume saborear a tradicional torta capixaba na Semana Santa, e muitas famílias continuam usando palmito natural, típico ingrediente, para elaborar o prato.
A tradição, muito comum entre moradores mais antigos, continua viva até hoje, mesmo com a facilidade do palmito em conserva.
Na família de Elza Maria da Silva da Cruz, moradora do bairro Santa Tereza, em Vitória, a receita com palmito natural ultrapassa gerações, conta a cozinheira de 61 anos.
“Minha mãe preparava quando eu era pequena e a tradição continuou, todos os anos eu costumo preparar a torta para a família. Minhas irmãs fazem na casa delas e até trocamos pedaços de torta entre nós. Uso o palmito pupunha que, por ser in natura, deixa o sabor da torta mais autêntico”.
A cozinheira também garante que o palmito pupunha in natura se destaca entre os ingredientes.
“Eu preparo a torta tradicional, com palmito, bacalhau, sururu, camarão e siri desfiado. O palmito in natura se destaca quando misturado aos demais ingredientes, diferente do palmito em conserva, que é industrializado. O aroma da torta também fica mais agradável quando usamos o palmito natural durante o preparo”, garantiu.
A tradição que leva o palmito in natura também garante renda para famílias capixabas. O empresário Danilo Stocco, de 43 anos, proprietário da Rotisseria Stocco, localizada em Vitória, entrega a torta que aprendeu a fazer com a avó e promete sabor e textura únicas.
“O palmito pupunha in natura tem sabor mais suave e textura mais fibrosa, que absorve os sabores dos mariscos e frutos do mar, deixando a massa da torta mais leve. Aprendi a receita com minha avó. Na última Páscoa, vendi 400 unidades, e a expectativa para este ano é vender 500”, disse.
O empresário também defendeu que a tradição de saborear a torta capixaba se mantém na atualidade.
“Devido à quantidade de tortas que vendo, enxergo que a tradição da torta capixaba se mantém. Precisamos continuar cultivando a nossa cultura”, defendeu.
Em Vila Velha, a chef de cozinha Ana Cristina Dalvi, de 57 anos, também prefere o palmito natural para cozinhar a torta capixaba.
“O palmito em conserva tem sabor avinagrado e preciso ter o cuidado de fervê-lo para limpar os produtos químicos da conserva. Também fervo o palmito natural, mas para amaciar. O ingrediente in natura dá mais liga para a torta”.
Ingredientes da Mata Atlântica
Celebrada em festivais gastronômicos e comercializada em restaurantes, a torta capixaba leva ingredientes encontrados na Mata Atlântica, bioma que ocorre em todo o Espírito Santo.
“O palmito pupunha é nativo da Mata Atlântica. O peixe fresco e os mariscos vêm do mangue, que também faz parte desse ecossistema. O colorau, que vêm do urucum, é fruto do urucuzeiro, planta que também ocorre na Mata” , explicou Patrícia Merlo, doutora em História e especialista em História da Alimentação.
Os mariscos, palmito e urucum, já preparados e cozidos por indígenas em território capixaba, receberam influência portuguesa para dar origem à receita da torta conhecida atualmente.
“Azeitonas, cebola, alho e azeite são ingredientes de influência portuguesa, assim como o coentro, planta nativa do mediterrâneo, na Europa. Porém, o uso de ovos é o que dá liga à massa e consistência à receita. Para ser chamada de torta, é preciso cortar o alimento em fatias e, sem os ovos, a receita seria uma frigideira de mariscos”, disse.
Apesar de não haver registros históricos que determinem a data de criação, registros de viajantes mencionam o prato antes do século 19. “Acredito que a torta já estava consolidada no século 18, como um prato popular, não das elites”, afirmou Patrícia.
Embora tenha origens históricas que remontam aos povos originários das Américas, a torta capixaba tornou-se prato de luxo, e é reinventada pela população, que se dedica para manter a tradição viva.
“Os ingredientes da torta atualmente são muito caros para a maior parte da população, que resiste construindo alternativas, usando batatas ou repolho junto do palmito para reduzir gastos. A torta capixaba é uma tradição viva”, declarou a historiadora.
Veja onde comprar palmito para torta capixaba
Vitória
Onde: Avenida Dário Lourenço de Souza, Mário Cypreste (nas proximidades do Sambão do Povo).
Quando: Até hoje, das 8h às 18 horas.
Vila Velha
Onde: Estacionamento do Atacadão (avenida Carlos Lindenberg, 1.723) e bairro Nossa Senhora da Penha, próximo ao viaduto.
Quando: Entre sábado e 4 de abril, das 6h às 21h30.
Cariacica
Onde: Avenida Mário Gurgel (próximo ao Corpo de Bombeiros e à Ceasa); Rua Governador José Sette, Itacibá próximo ao supermercado Casagrande e Terminal de Itacibá; Campo Grande (ao lado da Delegacia da Mulher e próximo à Câmara Municipal).
Quando: Até o próximo dia 6 de abril. A prefeitura informou que define apenas o período de vendas, e libera os comerciantes para trabalharem nos locais durante o dia.
Serra
Onde: Laranjeiras (ao lado do Terminal Rodoviário); Jacaraípe (próximo à peixaria da Praça Encontro das Águas e na av. Nossa Senhora dos Navegantes, próximo ao Posto Shell); Jardim Limoeiro (BR-101, próximo à empresa Andaime); José de Anchieta (av. Mestre Álvaro; no Posto Arara Azul); Nova Almeida (na rotatória do bairro); Serra-Sede (um em frente ao posto de saúde do bairro São Benedito e outro em São Judas Tadeu, próximo à praça do bairro).
Quando: Até 5 de abril. O funcionamento é das 7 horas até as 23 horas.
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