Especialistas explicam mudança no perfil dos avós
Além de curtir os netos, a nova geração de avós não abre mão de realizar os próprios sonhos e de ocupar o tempo com lazer
Cada vez mais avós brasileiros têm adotado uma rotina ativa, seja viajando, praticando esportes, fazendo cursos ou ampliando a vida social. Amanhã, data em que se comemora o Dia dos Avós, fica ainda mais evidente esse novo modo de viver que é descrito pelo conceito de “gerontolescência”.
O termo descreve uma fase de transição entre a vida adulta e a velhice (geralmente compreendida entre os 50 e os 70 e poucos anos), segundo Fernanda Sperandio, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seccional Espírito Santo.
“Essa fase costuma ser marcada agora por mais autonomia, desejo de continuar aprendendo, cuidado com o corpo e com a aparência, vida afetiva e sexual mais ativa, uso de tecnologia, novos projetos e menos aceitação daquele papel tradicional do idoso recolhido e passivo”.
Na avaliação da especialista, a “gerontolescência” surge da combinação entre maior longevidade e uma mudança cultural. “Hoje, há menor tolerância à ideia de que envelhecer significa parar”.
Monique Simões Cordeiro, conselheira estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa, explica que a “gerontolescência” é um momento de adaptação.
“Nele muitas pessoas buscam construir uma nova forma de viver, conciliando as mudanças do envelhecimento com autonomia, participação social e realização pessoal”.
Segundo Monique, tem havido um crescimento desse perfil, especialmente nos grandes centros urbanos. “Há maior acesso à informação, oportunidades de participação social e difusão das discussões sobre envelhecimento ativo”.
Fora dos grandes centros, embora essas mudanças também ocorram, é mais comum a manutenção de modelos familiares tradicionais, nos quais os avós continuam desempenhando papel central no cuidado diário com os netos.
O empresário Henrique Weichert, de 59 anos, não é um avô “tradicional”. Ele surfa, rema e anda de bicicleta. A neta, Bella Weichert, de 2 anos, o acompanha em todas essas atividades.
Há dois anos, Henrique enfrentou o luto após perder a esposa, Maria Helena, aos 67 anos. Foi Bella, a primeira neta, que o ajudou nesse processo.
“Passei pela fase da tristeza, fiquei sem rumo. Depois comecei a ver que o caminho era começar a viver o amor dos meus filhos e netos. Sou extremamente apaixonado pela Bella, vivenciar ser avô me ajudou no processo da perda.”
Cartinhas
Amanhã, Aninha Campos, de 53 anos, vai receber cartinhas pelo Dia dos Avós de cada um dos seus netos. “No aniversário e no dia dos avós”, confirma a Sophia de Souza, 10, uma das netas.
Cabeleireira, Aninha é provedora de sua casa, junto com a filha. Ela concilia o trabalho com o cuidado dos netos. “Eu escolhi me dedicar aos meus filhos e à minha família. Mas sou uma mulher ativa, diferente da referência de avó que eu tive que é aquela senhorinha de óculos devagarzinha”.
Aninha conta que ela e a Sophia fazem várias coisas juntas: vão à praia e lanchonetes, fazem empada e assistem filmes. “Ser avó em tempo integral tem muitos desafios. Estou feliz por representar essas mulheres tão importantes”.
“Limite entre cuidar de netos e viver a vida” - Fernanda Sperandio, geriatra
Hoje, em muitos casos, avós e avôs estão definindo com mais clareza os limites entre cuidar dos netos e viver a própria vida. É o que afirma Fernanda Sperandio Cott Paiva, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seccional Espírito Santo.
“O papel deixou de ser, necessariamente, o de estar disponível o tempo todo para cuidar dos netos. Muitos querem participar ativamente da vida da família, mas entendem que ajudar não significa assumir a responsabilidade principal pela criação das crianças.”
Segundo ela, um dos motivos disso acontecer é a maior expectativa de vida. “Eles não querem apenas acompanhar o crescimento dos netos; querem também continuar cuidando da própria saúde, realizando sonhos e construindo novos projetos”.
Isso não significa, explica, que o amor pelos netos tenha diminuído. “Pelo contrário: quando o cuidado é compartilhado de forma saudável, o vínculo entre avós, filhos e netos tende a ser mais leve e mais prazeroso”, destaca.
Ao mesmo tempo, também é preciso considerar realidades financeiras e sociais. Fernanda explica que, devido ao custo de criação das crianças e ao trabalho, ainda é frequente que os avós sejam chamados para cuidar dos netos.
Outro detalhe é a desigualdade de gênero, que ainda é bem evidente, complementa Monique Simões Cordeiro, assistente social e coordenadora da Universidade Aberta à Pessoa Idosa da Universidade Federal do Espírito Santo.
Ela explica que as avós seguem assumindo em maior medida as responsabilidades relacionadas ao cuidado dos netos e ao apoio à família.
“Apesar dos avanços promovidos pelo feminismo e da maior autonomia conquistada pelas mulheres, o cuidado continua sendo socialmente atribuído às avós.”
O que tem mudado, esclarece, é que muitas mulheres passaram a negociar esse papel, conciliando-o com seus próprios projetos de vida, trabalho, lazer e autocuidado. “Isso revela que as desigualdades de gênero persistem, mas estão sendo ressignificadas pelas novas gerações de pessoas idosas”, diz.
Marcia Camilo Lopes, 57, é uma das avós que concilia o cuidado com os netos com seus próprios projetos sociais. “Sou uma avó que tem os próprios projetos. Tento equilibrar”, reforça.
Agente comunitária de saúde, Marcia diz que adora ter a família por perto. Desde 2022, faz aulas de Taekwondo e passou a compartilhar o exercício com o neto João Miguel Andrade, 17.
“Entramos juntos para incentivar um ao outro. O foco é buscar mais qualidade de vida.”
Renovação
O contador Jorge Fernandes Delavi, 73, está sempre presente na vida dos netos: Lucas (23), Bernardo (7) e Murilo (7) Delavi. E também da bisneta Alice Nunes, de 7 meses, filha do Lucas.
“Ser avô é a renovação de ser pai. Nesse período podemos orientar e transmitir a eles aquilo que aprendemos no decorrer da vida”, conta.
Ele comenta que os leva para passear, conversa, orienta e brinca. “Quando tem possibilidade, vamos à praia e pescar”.
Sua esposa, a vovó Cleonice Delavi, 69, ajuda a cuidar dos netos. “Eles adoram a comida da vovó. Nossa casa é o conforto e a liberdade deles”.
ENTENDA
“Novos avós”
> A nova geração de avós tem um perfil diferente daquele visto no passado. Em geral, são pessoas mais ativas, saudáveis e independentes, além de terem uma expectativa de vida maior.
> Muitas ainda trabalham, viajam, praticam atividade física, têm vida social intensa e continuam fazendo planos para o futuro.
Gerontolescência
> É um conceito usado na Gerontologia para descrever um período de transição no início da velhice. Não é uma fase biológica oficial, mas uma forma de compreender as mudanças psicológicas e sociais que muitas pessoas vivenciam ao envelhecer.
Por que os avós mudaram?
> Os avós de hoje pertencem, em grande parte, às gerações dos Baby Boomers e dos primeiros integrantes da Geração X, que tiveram trajetórias muito diferentes das gerações anteriores.
> Essas gerações, sobretudo as mulheres, tiveram maior acesso à escolarização, inserção no mercado de trabalho, consumo, viagens, tecnologias e diferentes formas de participação social.
> Isso faz com que muitos não se identifiquem com a imagem tradicional da velhice marcada exclusivamente pela vida doméstica.
> Outro fator é a difusão da perspectiva do envelhecimento ativo, já que hoje existe uma valorização maior da participação social na velhice.
> Muitos avós frequentam centros de convivência para pessoas idosas, fazem cursos, praticam esportes, viajam, saem com amigos e participam mais da vida comunitária.
Coexistência
> Não é correto afirmar que acabou a figura da avó que cozinha, acolhe ou ajuda no cuidado dos netos. Essas experiências continuam existindo e seguem sendo importantes para inúmeras famílias brasileiras, principalmente diante das dificuldades econômicas e da insuficiência das políticas públicas de cuidado.
> O que acontece é uma ampliação das possibilidades de viver a “avosidade”. Hoje coexistem diferentes formas de ser avó: algumas exercem um cuidado cotidiano intenso; outras participam mais da vida comunitária; e muitas conciliam esses diferentes papéis.
Fonte: Especialistas entrevistados.
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