Discord tem 44 mil usuários no Espírito Santo; conheça os riscos
Popular entre crianças e adolescentes, plataforma transmitiu suicídio ao vivo e especialistas alertam para cuidados
A plataforma Discord, popular entre crianças e adolescentes, especialmente por sua ligação com jogos online e comunidades virtuais, está no centro de uma medida de proteção no Brasil em função dos riscos que oferece aos usuários.
A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou que a plataforma suspenda as transmissões ao vivo e outros recursos equivalentes de compartilhamento de vídeos no País. No Espírito Santo, estima-se que 44.855 mil crianças e adolescentes de 9 a 17 anos tenham perfil no Discord.
A decisão da ANPD ocorre semanas após cinco adolescentes serem apreendidos e um homem preso por suspeita de induzir ao suicídio uma adolescente de 13 anos, em Naviraí, no Mato Grosso do Sul, por meio de um grupo formado na plataforma.
A investigação identificou que a menina havia sido ameaçada, manipulada e coagida por integrantes de um grupo virtual, levando a Polícia Civil a investigar a morte como homicídio.
Segundo o advogado Felipe Lima, presidente da Comissão de Proteção de Dados, Privacidade e IA da Ordem dos Advogados do Brasil - Espírito Santo (OAB-ES), a suspensão das transmissões ao vivo no Discord traz um alívio imediato às famílias ao fechar a ferramenta de vídeo em tempo real, que era justamente o canal mais invisível usado por criminosos para coagir e transmitir abusos contra menores.
“A medida força a empresa a buscar soluções de segurança e verificação etária exigidas pelo ECA Digital. No entanto, os pais precisam entender que o risco não zerou: a rede continua ativa para conversas de texto, áudio e mensagens privadas, onde o aliciamento e a aproximação de estranhos ainda podem acontecer”.
Brenno Andrade, delegado titular da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC) do Estado, esclarece que quem induz, instiga ou auxilia responde pelo art. 122 do Código Penal.
“Consumado o suicídio, a pena é de dois a seis anos. A lei prevê agravamentos que se somam: pena dobrada quando a vítima é menor de idade, aumentada até o dobro quando a conduta ocorre por rede social ou transmissão ao vivo, e novamente dobrada quando o autor é líder ou administrador do grupo virtual”.
Se a vítima tem menos de 14 anos, o agente não responde por participação em suicídio, responde por homicídio, na forma do art. 121 do Código Penal, explica.
Alerta para exposição à extrema violência
A possibilidade de crianças e adolescentes estarem expostos a riscos de extrema violência nessas plataformas é um alerta que especialistas fazem. Há ainda a violência digital, que nem sempre começa parecendo violência.
“Muitas vezes começa como acolhimento. Como alguém que 'entende', oferece pertencimento, valida uma insegurança ou cria uma relação de exclusividade”, alerta a psiquiatra Sarha Andrade.
É justamente essa progressividade que pode tornar o processo difícil de ser reconhecido pela própria criança, destaca a médica.
“Portanto, o risco também é a possibilidade de uma relação manipulativa se construir lentamente e passar a ser percebida pelo menor como amizade, intimidade ou proteção”.
“Em segurança digital, uma das maiores proteções continua sendo uma relação na qual a criança pensa: 'se alguma coisa estranha acontecer, eu posso contar para os meus pais'”, afirma Sarha.
O psiquiatra Jairo Navarro chama atenção para uma falsa sensação de segurança dos pais: a criança está dentro de casa, mas, por meio do celular ou computador, pode estar interagindo com pessoas de qualquer lugar do mundo.
“O celular, o computador e esses aplicativos se tornam como portais para que entre um milhão de pessoas diferentes na sua casa.”
Para o psiquiatra, os pais precisam acompanhar mais de perto a vida digital dos filhos. Ele defende que os responsáveis saibam quais plataformas os filhos utilizam, conheçam os grupos dos quais participam, tenham controle sobre o celular e o computador, acompanhem mudanças de comportamento, conversem sobre os riscos e estejam familiarizados com a tecnologia utilizada pelos filhos.
Os pais devem alertar os filhos, orienta o advogado Felipe Lima, a nunca aceitarem convites para salas privadas vindos de fora da rede e a jamais compartilharem dados pessoais ou fotos com amigos virtuais.
“Caso identifiquem qualquer abordagem suspeita, os responsáveis não devem apagar as conversas: é fundamental tirar prints com datas, horários e identificadores dos usuários para denunciar o caso imediatamente à Polícia Civil, ao Ministério Público ou pelo Disque 100”.
Fique por dentro
Números
- No Espírito Santo, estima-se que 44.855 mil crianças e adolescentes de 9 a 17 anos tenham perfil próprio no Discord.
- O cálculo considera dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, segundo a qual 9% dos usuários de internet nessa faixa etária afirmam possuir uma conta na plataforma, e a população capixaba de 9 a 17 anos, estimada pelo IBGE em 498.394 pessoas, segundo Projeções das Populações 2026.
O que é o Discord
- É uma plataforma de comunicação gratuita de origem norte-americana criada em 2015 que permite interações por texto, voz e vídeo. Sua popularidade cresceu de forma explosiva entre jogadores de videogame (gamers) devido à facilidade de organizar chats síncronos e automatizar comandos de voz.
- O Discord organiza-se em servidores (comunidades fechadas acessíveis por convite), divididos em canais de voz e texto, explica o advogado Felipe Lima.
O que motivou a suspensão de lives
- A estrutura descentralizada e privada da rede acabou sendo utilizada por criminosos para cometer graves violações de direitos humanos e crimes graves contra menores, como aliciamento, assédio, disseminação de discursos de ódio, extremismo, radicalização de jovens e incitação ativa à automutilação e ao suicídio.
- O estopim da crise ocorreu em julho de 2026, com o suicídio de uma adolescente de 13 anos no Mato Grosso do Sul. A menor foi coagida por outros usuários e o ato trágico foi transmitido ao vivo por cerca de 50 minutos na plataforma sem nenhuma moderação, destaca o advogado Felipe Lima.
O que fazer diante de uma ameaça
O delegado titular da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC), Brenno Andrade, orienta a nunca repassar imagens íntimas da criança. Além disso, ele dá outras dicas.
- Primeiro: Acolher antes de investigar. Interrogatório e culpabilização fazem a criança se fechar.
- Segundo: Não apagar, não formatar, não restaurar o aparelho e não desinstalar o aplicativo.
- Terceiro: Não confrontar o agressor, nem pelo chat nem se passando pela criança.
- Quarto: Preservar corretamente capturas de tela com data e hora visíveis, mostrando o nome de usuário completo e o ID numérico do Discord e o nome do servidor. Melhor ainda que prints isolados é uma gravação de tela rolando a conversa inteira, sem cortes.
- Quinto: Só então bloquear e denunciar na plataforma.
- Sexto: Registrar ocorrência o quanto antes, preferencialmente em delegacia especializada, levando o aparelho.
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